O povo Shawãdawa, do Acre, passou a contar com um espaço fixo de acolhimento e produção cultural em São Paulo. Uma célula da Casa Cocar foi inaugurada na quinta-feira (3) dentro da Casa Pepper Cultural, no bairro do Ipiranga, Zona Sul da capital paulista. A cerimônia teve a presença da liderança indígena Sônia Guajajara.
A nova unidade vai atuar no acolhimento de indígenas, no intercâmbio cultural, na criação artística e na articulação de projetos entre povos originários, redes culturais, marcas e instituições.
Durante a inauguração, Sônia Guajajara ressaltou a importância da abertura de espaços de conexão e construção conjunta. “Eu quero agradecer a Carol e Caroline por essa disponibilidade em trazer a Casa Cocar pra cá, e agradecer a todos que estão aqui presentes por essa abertura e conexão neste momento onde vamos trocar ideias e também compromissos dentro dessa pauta de pactuação pela vida”, declarou.
Residência artística
A primeira ação concreta da célula é a residência artística do músico e artista indígena Yurá Yuxãnayvú, do povo Shawãdawa. O período prevê pesquisa, convivência e criação no ambiente urbano, com a aproximação entre a produção contemporânea do artista e os projetos da Casa Pepper Cultural.
Segundo a organização, o modelo de residência permite uma relação contínua com artistas indígenas, sem restringir a participação deles a apresentações ou eventos isolados. A meta é criar condições para intercâmbios, exposições, encontros e projetos de circulação que levem os artistas e seus saberes a novos públicos.
Relação anterior à inauguração
A parceria com os povos do Acre começou antes da abertura oficial. A Casa Pepper Cultural já recebia lideranças, artistas e comitivas indígenas, em especial do povo Shawãdawa, para atividades culturais, encontros, práticas de medicina e cantos ancestrais.
A partir dessa convivência, a liderança Salu Shawãdawa, da aldeia Shawã Naba, no Acre, passou a reconhecer o local como ponto de apoio físico e espiritual para o seu povo em São Paulo.
O espaço é dirigido pelas irmãs Carolina e Caroline Pepper, diretoras artísticas e DJs. Elas afirmam que a célula não tem o objetivo de falar em nome dos povos indígenas, mas de abrir condições para que as vozes, os conhecimentos e as produções desses povos circulem em novos espaços.
“A gente já vinha recebendo povos e comitivas indígenas, principalmente do povo Shawãdawa, do Acre, e a partir dessa convivência começamos a entender que nosso papel podia ser muito maior do que abrir a Casa para um evento. Quando você convive de verdade, a relação muda. Você entende outras formas de enxergar o território, a espiritualidade, a música e o cuidado. Não queremos falar pelos povos indígenas; queremos estar juntos, aprender, apoiar e usar nossas ferramentas para abrir caminhos, fortalecendo sempre o protagonismo deles”, explicam.
Para as diretoras, a convivência também altera a forma como a população urbana se relaciona com os povos originários. “A cidade precisa aprender a enxergar os povos indígenas para além de uma imagem histórica ou distante. Eles são contemporâneos, artistas, comunicadores, lideranças e produtores de conhecimento. Criar um território de encontro é sobre convivência real, onde os dois lados são transformados”, afirmam.
As irmãs relatam ainda que o contato com as comitivas indígenas passou a influenciar diretamente a produção artística delas. “Aprendemos nessa convivência que rezar é ritualizar, e ritualizar talvez seja uma das essências mais profundas da arte. Música, presença, espiritualidade e ancestralidade não precisam estar separadas. Queremos fazer uma arte que não seja apenas para ser vista ou ouvida, mas para ser vivida e sentida.”
Segundo Carolina e Caroline, o batismo da Casa Cocar marca uma nova fase do trabalho. “O batismo marca o início de uma etapa dedicada a transformar essa relação em ações concretas: receber artistas, promover residências artísticas, encontros, exposições e conectar esses projetos a marcas e instituições que possam ampliar seus alcances.”
Elas resumem a proposta em uma frase. “Continuidade é transformar encontro em vínculo, vínculo em compromisso e compromisso em construção conjunta.”
Renova Sonora
A célula também tem ligação com o Renova Sonora, projeto criado pelas irmãs Pepper que une a pesquisa musical das duas às manifestações ancestrais e à produção contemporânea dos povos originários. Um dos principais eixos é o diálogo com a música medicina e as expressões do povo Shawãdawa.
De acordo com as idealizadoras, o projeto não se limita a participações pontuais de artistas indígenas. A proposta envolve escuta, pesquisa, criação conjunta e circulação, além de relacionar arte e questões ambientais.
“Acreditamos que a arte consegue transformar uma pauta em experiência. Quando você escuta um canto que nasce da floresta, conhece quem carrega aquele saber e entende a relação daquele povo com seu território, a preservação deixa de ser uma questão distante e passa a tocar você de outra forma. A arte primeiro sensibiliza; depois, ela pode mobilizar”, afirmam as artistas.
Enquanto a Casa Pepper Cultural e a Casa Cocar funcionam como local físico de acolhimento e encontro no Ipiranga, o Renova Sonora tem a meta de levar essas vozes, saberes e expressões a outros públicos e palcos.
Os organizadores esperam que a experiência entre o Acre e São Paulo resulte em novos intercâmbios, projetos artísticos e conexões que aproximem a sociedade urbana dos povos indígenas e de suas formas de conhecimento, arte, espiritualidade e relação com a floresta. A intenção é garantir que artistas e lideranças indígenas tenham acesso a espaços de criação, circulação e articulação na maior cidade do país, sem perder o protagonismo sobre suas próprias histórias e conhecimentos.

