Base de Governo de Gladson Cameli volta a sofrer ameaças de racha a partir de Bestene

Deputado se mostra descontente com os rumos e a gestão da Secretaria de Saúde, anuncia independência em relação ao Palácio Rio Branco e diz que deverá disputar a Prefeitura da Capital

O deputado estadual José Bestene, do Partido Progressista – o mesmo do governador Gladson Cameli e do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Nicolau Júnior, poderá vir a ser candidato a prefeito de Rio Branco, nas eleições do ano que vem. O anúncio acaba de ser feito pelo próprio parlamentar em pronunciamento na tribuna da Assembleia Legislativa, na sessão desta quarta-feira 21.

Deputados de vários mandatos e passagens por diversos cargos públicos desde o final da década de 1980, quando foi secretário de administração do então prefeito de Rio Branco, Jorge Kalume, seu mentor político, Bestene já foi também presidente da assembleia Legislativa, sendo o responsável pela reconstrução e modernização da atual sede do Poder Legislativo, e ainda secretário de Estado de Saúde do governo de Orleir Cameli, tio do atual governador, há quase 30 anos atrás. É, portanto, um dos atuais políticos do Acre com uma das carreiras mais longevas, principalmente como dirigente regional do Progressistas, partido que ele conduziu até recentemente, quando teve que entregar o cargo à senadora Mailza Gomes.

Desidratado em praça pública

Tamanho currículo e as relações de parentesco com a ex-primeira-dama Beatriz Cameli, viúva de Orleir e tia por adoção do atual governador do Estado, levaram aos observadores da política acreana a apontarem que Bestene seria um dos políticos mais poderosos no governo de Gladson Cameli, já que foi um dos principais articuladores da candidatura ao Governo do então senador. Não é o que está acontecendo. Bestene vem sendo desidratado politicamente de forma explícita por todo o Governo, incluindo o próprio governador Gladson.

Tudo começou com a exoneração do odontólogo Alysson Bestene, sobrinho do deputado, do cargo de Secretário de Estado de Saúde, no mês de maio, quando foi substituído pela médica brasiliense Mônica Feres. Alysson, no entanto, não caiu de todo. Ele foi aquinhoado com o cargo de secretário de Articulação Política. O novo cargo de Alysson o obrigaria, a priori, a manter uma boa relação com os deputados estaduais, principalmente os da base, como é o caso de seu tio José Bestene. Mas também não é o que está acontecendo.

Visivelmente magoado, José Bestene disse, em discurso na Assembleia e à amigos, nos bastidores, que Alysson sequer lhe dirige a palavra, nem com pedidos de bênçãos ou cumprimentos. “Diziam que eu mandava na Saúde. Nunca mandei lá, nem mesmo nos tempos do Alysson, que foi nomeado por decisão do governador e sem nenhuma influência minha”, disse. “E depois que ele saiu da Secretaria de Saúde, faz pelo menos 90 dias que eu não falo com ele”, disse, no mesmo discurso.

Ato seguinte à efetivação de Mônica Flores na Secretaria de Saúde, foi a exoneração de vários cargos de direção do órgão, os quais passaram a ser ocupados por oficiais aposentados do Exército brasileiro, trazidos de Brasília e de outras regiões do país principalmente por suas relações de amizade com o marido da secretária de saúde, que também vem a ser militar aposentado do Exército. Bestene não gostou do que chamou de militarização do sistema público de saúde do Estado e acusou a secretária Mônica de faltar com a verdade nos seus diagnósticos sobre o órgão ao governador.

Aliança com Roberto Duarte

Mas a gota d’agua num pote até a tampa de mágoa do deputado em relação ao governo ocorreu nesta manhã, quando o Diário Oficial do Estado (DOE) circulou com a exoneração do odontólogo Lúcio Brasil do cargo de diretor-presidente da Fundação Hospitalar do Estado, aquele mesmo que, no início do atual governo, recebeu o senador Márcio Bittar (MDB) em visita ao hospital literalmente em lágrimas. Disse que chorou por não conseguir suportar ver as condições degradantes em que se encontrava o hospital. Deve chorar outra vez, agora pela perda do cargo. “Ele vai voltar a seu consultório e às suas atividades de profissional honrado e comprometido com o que faz. Vai voltar a fazer as pessoas sorrirem melhor”, disse Bestene, ao se referir à especialidade do odontólogo, que é de cirurgião buxomaxilar – um dos poucos profissionais desta área no Estado; o segundo é Sandro Jorge, que vive em Cruzeiro do Sul.

Lúcio Brasil vai ser substituído na Fundhacre por outro coronel do Exército aposentado, vindo de Brasília. Chama-se Lauro Lemos, outro ilustre desconhecido dos acreanos. A exoneração de Brasil e sua substituição por um desconhecido levou José Bestene à tribuna e dizer que estava revendo suas posições na Assembleia e na própria vida política, razão pela qual seria candidato a prefeito e, dando sinais de que vai atuar de forma independente ou em oposição ao atual governo, acenou para o colega Roberto Duarte como companheiro de chapa numa possível disputa pela Prefeitura de Rio Branco.