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Décadas de preocupações com dinheiro podem prejudicar o cérebro, mostra estudo

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: O Globo. 10/08/2026 às 06:21

Preocupações com dinheiro podem nos tirar o sono, mas será que décadas de estresse financeiro poderiam deixar uma marca duradoura no próprio cérebro? Essa é a pergunta que meus colegas e eu buscamos responder em um novo estudo – e a resposta, ao que tudo indica, é sim.

A maioria das pesquisas sobre dinheiro e saúde cerebral analisa a situação financeira das pessoas em um único momento. Isso dificulta saber se alguns anos difíceis têm o mesmo efeito que décadas de dificuldades persistentes. Para o nosso estudo, publicado na revista Innovation in Aging, acompanhamos as mesmas pessoas ao longo de suas vidas adultas para descobrir isso.

Utilizamos dados do MRC National Survey of Health and Development, também conhecido como o estudo de coorte de nascimentos britânico de 1946. Um estudo de coorte acompanha, ao longo da vida, um grupo de pessoas nascidas no mesmo período. Este é o estudo desse tipo mais antigo e contínuo do mundo, acompanhando milhares de pessoas nascidas em uma única semana de março de 1946 – participantes que completaram 80 anos no início deste ano.

As origens do estudo remontam às preocupações econômicas da década de 1930, quando a Grande Depressão deixou muitas famílias apreensivas quanto ao dinheiro e ao custo de criar os filhos – tornando-o um conjunto de dados ideal para revisitar essas mesmas questões décadas mais tarde. Com base nesse rico acervo de informações, examinamos a situação financeira de 2.759 participantes em diversos momentos da vida adulta.

Os participantes informaram a renda familiar aos 26, 43 e 53 anos. Classificamos aqueles que estavam na faixa dos 20% com menor renda do grupo em pelo menos duas dessas ocasiões como tendo renda baixa persistente – o que correspondia a cerca de uma em cada seis pessoas. Separadamente, avaliamos as dificuldades financeiras perguntando se as pessoas tinham problemas para administrar a renda ou dificuldade em pagar contas, pelo menos duas vezes entre os 36 e os 53 anos. Essa situação aplicava-se a cerca de uma em cada oito pessoas.

Aos 53 anos, os participantes realizaram testes de memória verbal e velocidade de processamento. Um grupo menor também passou por exames de imagem cerebral entre os 69 e 71 anos, o que nos permitiu medir a atrofia cerebral (redução do volume) e a expansão ventricular – o alargamento das cavidades preenchidas por líquido dentro do cérebro, um marcador reconhecido de saúde cerebral precária.

Constatamos que pessoas que enfrentaram mais dificuldades financeiras e tiveram baixa renda apresentaram desempenho inferior em testes cognitivos aos 53 anos. Essas associações permaneceram mesmo após levarmos em conta suas habilidades cognitivas quando crianças, nível de escolaridade e desvantagens socioeconômicas na infância. Entre os participantes submetidos a exames de imagem cerebral, a baixa renda persistente foi associada a uma maior redução do volume cerebral em fases posteriores da vida.

Ao analisarmos as mudanças na memória entre os 53 e os 69 anos, observamos que aqueles que enfrentaram dificuldades persistentes apresentaram, na verdade, um declínio mais lento nesse período. Acreditamos que isso ocorra porque eles já haviam sofrido maior perda cognitiva aos 53 anos — ou seja, partiram de um patamar mais baixo e, portanto, havia menos a perder.

Também verificamos que a associação entre adversidade financeira e redução do volume cerebral foi mais acentuada em homens, em pessoas que cresceram em lares desfavorecidos e em portadores de um gene que aumenta o risco de desenvolver a doença de Alzheimer.

Para os homens dessa geração — nascidos em 1946, época em que o modelo de homem como principal provedor da família era a norma —, a pressão de ser o responsável pelo sustento pode ter intensificado o estresse financeiro. Homens em situação de desvantagem também apresentaram taxas mais elevadas de tabagismo e consumo de álcool do que mulheres na mesma situação.

A constatação sobre o risco genético sugere que pessoas biologicamente vulneráveis ​​podem ser mais suscetíveis aos efeitos da tensão financeira. Esses resultados referentes a subgrupos baseiam-se em amostras menores; portanto, nós os tratamos como indicativos, e não conclusivos.

Por que preocupações financeiras prejudicariam o cérebro?

De que maneira as dificuldades financeiras podem afetar o cérebro ao longo do tempo? Sabe-se que o estresse crônico aumenta a inflamação, o que acelera o envelhecimento cerebral. Há também o fato simples de que a preocupação constante com dinheiro consome energia mental, reduzindo a capacidade disponível para outras tarefas cognitivas — uma carga cognitiva que compete com todas as demais atividades que o cérebro tenta realizar.

Reconhecemos que nosso estudo não pode comprovar uma relação de causa e efeito e que os resultados, obtidos a partir de uma única geração de adultos britânicos, podem não ser diretamente aplicáveis ​​a outras populações ou países. No entanto, acompanhar as mesmas pessoas ao longo de muitos anos nos proporciona uma visão mais clara do que estudos que analisam apenas um momento específico no tempo.

As dificuldades financeiras são cada vez mais reconhecidas como um dos vários fatores — juntamente com questões como perda auditiva, tabagismo e sedentarismo — que podem influenciar o risco de declínio cognitivo na terceira idade. Nossas descobertas sugerem que reduzir as dificuldades financeiras crônicas entre adultos em idade ativa, independentemente de onde vivam, poderia ajudar a proteger a saúde cerebral e, potencialmente, reduzir os casos de demência no futuro.

*Jacques Wels é pesquisador principal da Unidade de Saúde e Envelhecimento ao Longo da Vida, University College London (UCL), na Inglaterra

*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.

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