Viajar pelo Brasil também significa experimentar sabores e comer bem. A diversidade de ingredientes, receitas, técnicas e tradições tem feito da gastronomia um dos componentes importantes na experiência turística do país.
Desde a alta gastronomia dos restaurantes premiados aos mercados tradicionais, a comida tem ganhado espaço na preferência dos viajantes. Não é atoa que a culinária brasileira está entre os principais fatores de satisfação dos cerca de nove milhões de turistas estrangeiros que visitaram o país em 2025.
Quando se fala em qualidade, o país entrega não só um, mas dois restaurantes agraciados com três Estrelas Michelin em 2026: o Evvai e o Tuju, ambos localizados em São Paulo. As duas casas são as únicas da América Latina com a distinção máxima do guia.
E o reconhecimento, de uma das principais referências internacionais da gastronomia, também ajuda a projetar a culinária nacional para um público estrangeiro interessado em experiências que vão além dos pontos turísticos tradicionais.
Para José Eduardo Camargo, líder de conteúdo e inteligência da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a procura por uma boa culinária tem crescido, inclusive, entre os turistas brasileiros na hora de planejar a viagem.
“A gastronomia tem se colocado como um importante fator de decisão nos destinos turísticos, passando na frente de programação cultural e roteiros de natureza”, aponta José.
De acordo com ele, o turista já planeja a viagem pensando onde vai comer, quais restaurantes quer visitar e experimentar. “E o Brasil é muito privilegiado nesse sentido, temos uma enorme variedade gastronômica. A culinária do Paraná, por exemplo, não é a mesma de Alagoas e é totalmente distinta da de Manaus. Cada região tem seu aspecto culinário, que vale a pena ser experimentado”, destaca.
Para a Embratur, o setor tem papel estratégico.
“A gastronomia é um dos pilares do turismo brasileiro por sua relação direta com cultura e identidade territorial. Em um país com a diversidade do Brasil, a culinária permite que o visitante conheça diferentes tradições, ingredientes, saberes e formas de produção”, afirma Alexandre Nakagawa, gerente de Negócios e Estratégias para o Mercado Internacional da Embratur.
A alimentação, nesse contexto, deixa de ser apenas uma necessidade durante a viagem e passa a integrar a experiência turística.
Rota gastronômica
O publicitário Felipe Castilho, de 39 anos, conta que a escolha dos restaurantes define, muitas vezes, o destino de uma viagem. “Quando planejo uma viagem, eu sempre pesquiso os melhores restaurantes e onde encontrar comida regional. Olho sites, redes sociais, e vou preenchendo o Google Maps com os pins dos locais de interesse”, explica.
“Gosto de fazer essa curadoria, pois me ajuda muito a montar a viagem, porque vou concentrando todo o resto, a hospedagem e o roteiro, a partir da localização dos restaurantes”, pontua.
Esse interesse pela gastronomia iniciou ainda na infância. “Minha família sempre teve essa cultura de cozinhar e de experimentar a comida local dos lugares que a gente visita. Então desde muito novo aprendi a privilegiar e a buscar bons lugares para comer.”
De acordo com Castilho, não experimentar a culinária local faz com que a viagem não seja completa. “E sou totalmente adaptável, experimento desde de um restaurante premiado a uma comida de rua”, conta.
Essa também é a percepção da jornalista e empresária, Nina Rocha, 38 anos. “Há cerca de 16 anos eu tenho colocado o turismo gastronômico em minhas viagens. Gosto de conhecer restaurantes, bares, experimentar a culinária local, passear pelas cidades e descobrir sabores”, relata.
E a comida ainda entra como destaque nas viagens que faz como atleta. “Viajo para correr e sempre no pós-corrida eu já deixo reservado um restaurante para conhecer. Inclusive, já ocorreu de eu fazer a reserva com seis meses de antecedência”, conta.
A brasiliense também tem o hábito de pesquisar sobre os estabelecimentos, sempre olha nos sites com listas dos 100 melhores restaurantes, 50 melhores e ainda acompanha o que os influenciadores têm falado sobre determinado lugar. Por não ter restrição alimentar, ela gosta de experimentar todos os tipos de culinária.
Restaurante conquista 3 estrelas Michelin
Localizado em uma rua sem saída no Jardim Paulistano, em São Paulo, o restaurante Tuju ganha destaque pela gastronomia que evidencia a cidade. Com um menu degustação sazonal, que respeita e aproveita os ingredientes frescos de cada época do ano, o local propõe uma gastronomia paulistana diferenciada.
A experiência é estruturada como uma jornada progressiva por um edifício inteiramente dedicado à gastronomia. No térreo, o visitante é recepcionado por uma experiência de sabores com os aperitivos.
Em seguida, o cliente é conduzido para o primeiro andar onde se encontra a cozinha aberta 360º no meio do salão. O menu degustação é servido enquanto se observa o trabalho coordenado da equipe de cozinha. E para finalizar, um espaço dedicado ao café em um ambiente descontraído no terraço.
Em abril deste ano, a casa ganhou a qualificação máxima do Guia Michelin. Para o chef e fundador do Tuju, Ivan Ralston, o reconhecimento é o resultado de um trabalho minucioso para entregar a melhor experiência possível aos visitantes.
“A gente é bastante exigente com o que se entrega, sempre buscando oferecer serviços primorosos para os clientes. É um restaurante pensado para as pessoas. E as três estrelas são resultado desse empenho”, ressalta Ralston.
Para ele, a gastronomia representa um grande diferencial turístico.
“O Brasil tem um potencial enorme ao lado de grandes países, como Itália e França. Temos uma grande variedade gastronômica, e São Paulo tem se despontado como um dos pontos com uma culinária bastante diversa”, aponta.
Da alta gastronomia à comida do dia a dia
A projeção internacional de chefs e restaurantes brasileiros é apenas uma parte do movimento de reconhecimento da gastronomia nacional. Para Alexandre Nakagawa, o interesse dos turistas também se estende a mercados tradicionais, bares, restaurantes, festivais e ao turismo rural.
São experiências que permitem ao visitante conhecer não apenas um prato, mas também o contexto cultural e produtivo por trás dele.
Mercados tradicionais de cidades como São Paulo, Belo Horizonte e Belém, por exemplo, podem funcionar como portas de entrada para conhecer ingredientes e hábitos alimentares locais.
Para o gerente da Embratur, a diversidade permite apresentar ao visitante “não apenas o que se come no Brasil, mas também as histórias, os territórios, as comunidades e os modos de vida que estão por trás de cada experiência”, finaliza.



