Aos 21 anos, Kailane Santos encontrou nas entregas por aplicativo uma forma de conciliar trabalho e os cuidados com a filha. Ela deixou o emprego com carteira após engravidar e sua filha apresentar problemas de saúde. Hoje, ela trabalha de oito a dez horas por dia pelo iFood, sua principal fonte de renda. Mas ainda não contribui para a Previdência.
— Tem dias bons e dias ruins. Tem dia que dá para fazer um dinheiro bom, e tem dia que não dá.
Kailane está entre os quase 2 milhões de brasileiros que trabalham por aplicativo, um contingente que cresceu meio milhão em apenas três anos. Os dados, divulgados ontem pelo IBGE, mostram que o trabalho por plataformas digitais deixou de ser um fenômeno marginal no mercado brasileiro.
Desse total, 1,8 milhão de pessoas, ou 92,1%, têm nos apps sua atividade única ou principal. Outros 182 mil os utilizam como segundo emprego. É a primeira vez que o IBGE divulga esse segundo recorte, que permite dimensionar o trabalho por aplicativo feito como atividade complementar.
Para especialistas ouvidos pelo GLOBO, o crescimento mostra o peso do trabalho por aplicativo no país — e reforça a urgência de discutir a proteção dessas pessoas diante de jornadas mais longas, informalidade, falta de cobertura previdenciária e de direitos trabalhistas.
Salto de 36,8% em 3 anos
O número de trabalhadores que têm as plataformas como trabalho principal cresceu 36,8% em três anos, passando de 1,3 milhão, em 2022, para 1,8 milhão no ano passado, em que houve um aumento de 9,1%.
A participação desses trabalhadores no mercado também vem crescendo. Em 2022, eles representavam 1,5% dos ocupados no setor privado; em 2024, 1,9%; e, em 2025, chegaram a 2%, em um universo de 89,6 milhões de pessoas ocupadas.
O trabalho por app deu um salto após a pandemia, puxado não só pela demanda da sociedade por entregas e corridas via aplicativo, diante do encarecimento do custo do automóvel, como pela busca dos trabalhadores por mais flexibilidade e renda, avalia Janaína Feijó, pesquisadora de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
Muitos passaram a ver nas plataformas uma chance de ter mais autonomia sobre a jornada e ganhar mais, especialmente aqueles que só têm o ensino médio completo, o que limita os ganhos. Para a economista, a modalidade veio para ficar e deve continuar a crescer, mesmo com o desemprego nas mínimas históricas, já que o indicador esconde a baixa qualidade das vagas, em jornada e remuneração:
— As oportunidades podem existir, mas uma carga de 40 a 44 horas semanais, com um salário que, embora venha crescendo, não se equipara ao de motorista de aplicativo, faz os trabalhadores repensarem o vínculo formal. Se a economia gerasse emprego de qualidade e salário mais elevado, provavelmente não veríamos essa movimentação.
Não conseguem emprego
Entre os motoristas que trabalham via app de transporte de passageiros, mais de um terço (33,4%) diz que não conseguiu encontrar outro trabalho, enquanto 27,2% apontam a flexibilidade como principal motivo. Outros 24,4% afirmam que o rendimento é maior do que o obtido em outras ocupações disponíveis.
Bruno Imaizumi, economista da 4intelligence, calcula que, sem as plataformas digitais, a taxa de desemprego no país hoje seria 0,5 ponto percentual maior. Um fenômeno que, segundo ele, se repete em outros países da América Latina:
— Essa atividade é muito importante para se conseguir uma ocupação em uma economia de média renda como a do Brasil.
A maior parte desses trabalhadores está em aplicativos de transporte particular de passageiros. Eram 1,036 milhão de pessoas em 2025, ante 752 mil em 2022, uma alta de 37,8% no período. Essa parcela inclui tanto os taxistas que usam apps de cooperativas quanto motoristas ou mototaxistas que trabalham por plataformas como Uber e 99.
Mas é o contingente no segmento de entregas que mais cresceu no ano passado. Entre 2022 e 2024, esse contingente passou de 237 mil para 274 mil trabalhadores. Entre 2024 e 2025, porém, saltou para 325 mil, alta de 18,61%.
Entre 2022 e 2025, os aplicativos de serviços gerais ou profissionais tiveram o maior crescimento em termos proporcionais, saindo de 193 mil para 300 mil trabalhadores em três anos, alta de 55,4%. Apesar do salto, essa categoria é diversificada e tem peso menor na pesquisa.
Ela inclui desde faxinas até reformas e reparos negociados por app, além de serviços de engenharia, arquitetura, tradução e consultas de saúde on-line.
Segundo Imaizumi, as plataformas digitais ampliaram as opções de trabalho sobretudo para um contingente majoritariamente masculino e de baixa escolaridade, que, sem elas, teria de recorrer a setores como indústria e construção civil. A contrapartida da renda é, muitas vezes, uma jornada mais longa. E, sem cobertura previdenciária, eles não terão proteção no futuro.
Em 2025, apenas 19,4% dos condutores de motocicletas que trabalhavam por plataformas contribuíam para a Previdência, contra 37,1% entre os que exerciam a mesma atividade sem apps.
— É um vínculo ainda com alto grau de vulnerabilidade. Isso é preocupante, porque acabamos de passar por uma Reforma Trabalhista que não previa essa modalidade de trabalho, e nada foi feito para corrigir essa lacuna. O ideal seria uma reforma estrutural que incorporasse essa realidade, que veio para ficar — diz Janaína.
É uma situação que Julio da Cruz, de 40 anos, conhece de perto. Entregador desde 2019, ele hoje trabalha de bicicleta para iFood, 99 e Americanas Flash. A flexibilidade foi um dos motivos que o levaram a escolher a atividade, porque ele consegue dividir sua jornada. Embora pague o MEI, ele reconhece que precisa regularizar a situação:
— Eu não procuro mais emprego e pode ser até ignorância minha, mas a gente não tem valor. Por isso, preferi ficar assim. Hoje, faço meu horário. Por exemplo, vou das 11h às 14h, paro, venho para casa e volto das 18h às 22h.
‘Lógica de informalidade’
Para Jonas Valente, pesquisador associado ao Instituto de Internet da Universidade de Oxford, as plataformas se tornaram uma opção de trabalho e renda, mas aprofundam a informalidade pela ausência de regulação.
Ao contrário de Chile, México, Colômbia e Uruguai, o Brasil ainda não aprovou uma regulação específica para o trabalho por apps. Valente lembra que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) aprovou neste ano uma convenção que trata da proteção social e previdenciária para esses trabalhadores:
— São modelos de precariedade, porque impõem uma lógica de informalidade. É muito problemático. Se um trabalhador sofre um acidente, ele tem de cobrir seus custos. Algumas empresas têm seguros, mas, em geral, são pouco acessíveis e insuficientes.
Em nota, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que representa empresas como Uber, iFood e 99, afirmou que a pesquisa, classificada como experimental pelo próprio IBGE, tem limitações metodológicas e apresenta números que destoam de outros levantamentos sobre o trabalho por app.
A entidade defende uma “regulamentação equilibrada”, que reúna proteção aos trabalhadores com a flexibilidade desse tipo de serviço e diversidade dos modelos de negócio.

