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Professores usam a cultura digital dos alunos para potencializar o processo de aprendizagem

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: O Globo. 21/09/2026 às 10:06

Músicas virais, dancinhas e trends das redes sociais são ingredientes do “edutenimento”, prática adotada por professores dos ensinos médio e fundamental para engajar na sala de aula alunos já imersos na cultura digital. A disseminação destes métodos dá uma pista dos motivos que fizeram os docentes brasileiros terem uma boa avaliação no Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).

Divulgado no início do mês, o Pisa mostrou uma avaliação positiva dos educadores por 82% dos alunos brasileiros, que reconheceram interesse dos docentes na aprendizagem de cada estudante. Dos alunos que participaram do programa, 78% disseram que os professores continuam ensinando até que o estudante entenda, e 76% relataram que oferecem ajuda extra. Esses patamares são maiores do que os registrados entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

No caso de Noslen Borges, de 47 anos, o empenho e a ajuda aparecem de uma forma que combina um canal no YouTube com 6 milhões de inscritos e plataformas no Instagram e no Tiktok para acompanhar a dinâmica dos estudantes. Usando músicas, paródias e humor, o educador natural de Curitiba com 24 anos de carreira é o professor de português mais popular do Brasil.

“Edutenimento”: Professor Noslen Borges — Foto: Reprodução

— O grande lance é enxergar as possibilidades que a rede traz, adaptar o conteúdo e surfar nessa onda. Se tem uma trend acontecendo, eu vou entrar, mas ajustando para a minha realidade. Hoje, todo educador precisa ter uma presença digital. Eu enxergo a educação cada vez mais híbrida, juntando o presencial com o online — define.

Especialista em gamificação na educação e diretor nacional da Microlins, Rafael Cunha explica que o uso de uma paródia, meme ou trend já incorporados ao universo do aluno pode tornar um assunto mais fácil de entender, contribuindo para a percepção positiva dos educadores:

— Quando o professor consegue traduzir o conhecimento para uma linguagem próxima do aluno, ele mostra que aprender não é algo desconectado da vida real. O desafio é o equilíbrio: usar o entretenimento como conexão ao conhecimento, e não como o objetivo final da aula.

Professora de História do ensino fundamental e médio, Pâmela Barros Ferraz, de 38 anos, desistiu da carreira de cantora e optou pela educação. Mas a educadora de Manaus levou paródias para a sala de aula como uma forma de unir suas paixões. As músicas são apresentadas ao fim de cada conteúdo estudado, como uma revisão. Pâmela também implementa outros recursos lúdicos, como jogos de tabuleiro e cartas com as matérias, além de brincadeiras sobre as disciplinas. Ela abriu um canal no YouTube, fazendo clipes das paródias, e depois migrou para as redes.

— A mente do jovem é muito rápida, e o uso das paródias, além de divertir e levar algo diferente para sala de aula, traz essa velocidade. Também integra aquelas crianças mais tímidas, que se soltam na hora da dancinha — conta Ferraz.

Psicopedagoga da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), Alana Sineiro ressalva que interatividade por si só não garante aprendizagem, e o professor precisa saber o que pretende desenvolver.

— O objetivo não deve ser usar uma trend simplesmente porque está fazendo sucesso, mas perceber como aquele elemento pode ser usado para construir conhecimento — explica Sineiro.

Por sugestão de um amigo, o professor de inglês Tiago Rocha, de 35 anos, de Feira de Santana (BA), começou a postar nas redes sociais conteúdos com humor e histórias da sua formação — filho de um pedreiro e de uma empregada doméstica, ele não tinha como pagar um curso da língua, começou a estudar por conta própria e após se formar conseguiu uma bolsa de intercâmbio no exterior. Só a primeira série de conteúdos bateu mais de 200 milhões de visualizações. Tiago é hoje o professor negro mais seguido do país.

— Quando eu voltei ao Brasil depois do intercâmbio, comecei a postar. Tudo começou de forma despretensiosa, eu nem sabia que existia esse universo. Eu sabia que tinha a carta do humor na manga, por conta das peças de teatro que fazia de forma independente. Vi o quanto as pessoas ficavam engajadas nas histórias e pensei em trazer isso para os ensinamentos — conta Rocha.

Carline Geraldi, de 31 anos, é conhecida como “a professora que canta”. Na igreja, conseguia lembrar dos ensinamentos cantando, e resolveu levar a mesma estratégia para a sala de aula. Em 2024, publicou um vídeo cantando a alfabetização para uma turma do 3º ano do ensino fundamental, que bateu 10 milhões de visualizações em uma semana.

— Temos muitas crianças que são desassistidas, com dificuldade na alfabetização. A partir do momento em que comecei a usar outras estratégias, atingi esses grupos, consegui reter a atenção do aluno com mais dificuldade. A gente desenvolve a memória, a atenção, a expansão da linguagem, raciocínio lógico e coordenação motora com a música — destaca Geraldi.

Consentimento de alunos

Nas plataformas, também há professores que entram nas trends fazendo dancinhas com os alunos em aula. Mas o advogado especializado em privacidade nas redes Fernando Manfrin alerta que os responsáveis precisam consentir com o uso da imagem e voz nos vídeos dos educadores:

— É importante ressaltar que um termo genérico assinado na matrícula não supre as necessidades das redes — explica Manfrin.

*Estagiária sob supervisão de Cibelle Brito

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