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CV ‘importa’ mergulhadores de elite do Rio e de SP para enviar cocaína da Amazônia para a Europa

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: O Globo. 11/09/2026 às 11:48

Um submarino com 6,6 toneladas de cocaína de alta pureza, carga avaliada em mais de R$ 2 bilhões, foi apreendido em março de 2025 na região do arquipélago dos Açores, em Portugal, em uma ação conjunta da polícia e da Marinha. Mais do que o volume da droga, chamou atenção das autoridades a origem do carregamento: Macapá, capital do Amapá, estrategicamente fincada na foz do Rio Amazonas. A apreensão expôs uma transformação na geografia do tráfico internacional. Sob do Comando Vermelho, a Amazônia brasileira se consolidou como um dos principais corredores de exportação de drogas rumo ao continente Europeu.

Detalhes dessa mudança estão no relatório “Amazônia brasileira: novos corredores e controle do narcotráfico transnacional”, lançado ontem pela Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC). Segundo o estudo, o aumento da repressão em portos tradicionalmente usados pelo crime, como o de Santos (SP) e o de Vila do Conde (PA), levou os traficantes a buscarem alternativas em áreas menos vigiadas. Geograficamente isolado e com menos fiscalização, o terminal portuário do Amapá, em Santana, passou a ser usado como opção para escoar a cocaína.

— A rota do Rio Solimões já não é a única. O narcotráfico na Amazônia se transformou em um problema complexo e dinâmico. Os criminosos diversificam e adaptam rotas e métodos constantemente para escapar da fiscalização e alcançar o mercado europeu — diz Gabriel Funari, coordenador da GI-TOC na região amazônica. — O tráfico vem sendo redirecionado para o Amapá. O Porto de Santana não tem escâneres para contêineres, e as inspeções manuais são esporádicas.

O avanço das operações do tráfico é acompanhado do aumento das apreensões e de casos de violência na região. Entre 2019 e 2024, as apreensões estaduais de cocaína cresceram 574%, ultrapassando 162 toneladas. No âmbito federal, o aumento foi de 84%, para 118 toneladas. Em 2024, a taxa de homicídios na Amazônia Brasileira chegou a 27,3 por 100 mil habitantes, 31% acima da média nacional.

Expansão do CV

No centro dessa expansão está o Comando Vermelho, que emergiu como a força dominante na Bacia Amazônica após anos de conflitos sangrentos com outros grupos. Diferente dos rivais, a facção originada no Rio de Janeiro adota um modelo de gestão mais flexível, e permite que grupos locais operem com autonomia em troca de lealdade e acesso às rotas. Essa estratégia permitiu à organização controlar nós logísticos fundamentais, desde as plantações de cocaína no Peru até as periferias urbanas de Manaus e Macapá.

— O CV é o grande responsável pela consolidação da Amazônia como corredor de escoamento de cocaína para a Europa. Nos últimos 15 anos, houve essa expansão da facção na região, uma resposta estratégica para fugir da fiscalização dos portos no Sudeste e para o domínio da “Rota Caipira” pelo PCC — avalia Funari.

O levantamento traz uma linha do tempo da evolução dos grupos criminosos na Amazônia. Nos anos 1980, os cartéis de Medellín e Cali inauguraram a “Rota do Solimões”, ligando zonas produtoras do Peru e da Colômbia a Manaus por barcos pesqueiras.

O novo caminho do narcotráfico — Foto: Editoria de Arte

Nos anos 1990, com o enfraquecimento dos cartéis colombianos, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) fizeram uma aliança com o CV, então liderado por Fernandinho Beira-Mar (o criminoso fluminense foi preso em uma região da Colômbia que era controlada pelas Farc, perto da fronteira com a Venezuela, em 2001). A negociação envolvia cocaína em troca de armas brasileiras.

A facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) ingressou na Amazônia em 2010, com o objetivo de ampliar as exportações por Vila do Conde, no Pará. No mesmo período, grupos locais se unificaram na Família do Norte (FDN). Após massacres em presídios de Manaus em 2017 e 2019, porém, a FDN foi desmantelada e absorvida pelo CV, que passou a exercer hegemonia criminal em grande parte da bacia amazônica.

Manaus continua o centro logístico do corredor, diz o relatório. Funciona como um ponto de confluência, onde o preço da droga é renegociado e as cargas são distribuídas.

O quilo de cocaína, que custa cerca de US$ 1 mil nas áreas produtoras do Peru e da Colômbia, chega a US$ 3,5 mil em Manaus e pode alcançar US$ 5 mil quando deixa a costa brasileira. Nas cidades europeias, o preço no atacado chega a € 70 mil. A extensão dos rios amazônicos e a corrupção de agentes públicos estão entre os fatores que, segundo o estudo, facilitam a movimentação da droga.

O estudo alerta para o “narcogarimpo”, a convergência entre o tráfico e a extração ilegal de ouro. As organizações criminosas aproveitam estruturas como pistas de pouso clandestinas e redes de transporte para movimentar a cocaína. O ouro também passou a ser usado para lavagem de dinheiro e pagamento em transações internacionais, beneficiando-se, segundo o relatório, de fragilidades na regulação do mercado de metais no Brasil.

Sofisticação do crime

A exemplo do que ocorre há anos no Porto de Santos, criminosos passaram a contratar mergulhadores profissionais para esconder pacotes de cocaína em compartimentos de navios cargueiros, sem o conhecimento da tripulação. Segundo o estudo, mergulhadores são trazidos de avião do Rio de Janeiro e de São Paulo para fazer o trabalho. Muitos seriam ex-militares de elite da Marinha ou ex-bombeiros. As operações são feitas à noite no Rio Amazonas, em trechos com profundidade de até 30 metros e visibilidade praticamente nula.

Rio Negro, afluente do Rio Amazonas — Foto: MICHAEL DANTAS/AFP

Em abril de 2024, a Polícia Federal identificou 150 quilos de cocaína escondidos na caixa de mar, compartimento usado para captar água, de um navio atracado no Porto de Santana. Ao tentar retirar a droga, um bombeiro rompeu o tímpano devido à profundidade em que a carga estava. A PF precisou convocar mergulhadores especializados de outros estados para conseguir tirar a droga.

Em junho do ano passado, uma remessa de 400 quilos de cocaína que seria do CV foi encontrada em uma área rural de Macapá. Um mergulhador viria de outro estado para inserir a droga em navios com destino a Portugal. As embarcações estavam ancoradas na zona de espera do Porto de Santana.

O uso de lanchas blindadas e aeronaves que sobrevoam a floresta em baixa altitude para dificultar a detecção por radares é outro sinal, segundo o levantamento, da sofisticação do crime e das limitações do monitoramento feitos pelas forças de segurança locais. Para conter esse avanço, Funari defende uma cooperação mais robusta nas fronteiras e investimentos em tecnologia, especialmente em escâneres para contêineres em portos de menor porte.

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