Cartas inéditas do escritor Euclides da Cunha viraram material para um livro dos pesquisadores Leopoldo Bernucci e Felipe Rissato, intitulado “Diálogo Epistolar de Euclides da Cunha”, disponibilizado pela Editora Unesp.
Dentre tantos assuntos, algumas cartas envolviam o Acre, antes de ser anexado ao Brasil. De acordo com uma reportagem da Folha de S. Paulo, o livro revela complicações e risco de vida que Euclides correu durante a viagem à região amazônica do Purus.
“Havia preocupantes tensões entre Euclides e o comandante da Comisión Peruana, Pedro Alejandro Buenaño, com a qual a comissão brasileira viajou, digladiando-se por aquele longínquo e vasto território. Nas cartas inéditas e nas já publicadas, ficaram registradas as fortes discussões entre os dois chefes, que estão permeadas de desacordos substanciais e uma claríssima falta de consenso sobre certas resoluções a serem tomadas”, diz um trecho.
Em outra carta, o comandante da comissão peruana denuncia a escravidão de peruanos mantidos sob a tutela de brasileiros em seringais da região. “Em outra, Euclides relata uma revolta de soldados, deixados à beira do rio. Também houve mortes por doenças tropicais, como malária”, revela uma das cartas com conteúdo sigiloso que Euclides da Cunha trocava com Barão do Rio Branco.
José Maria da Silva Paranhos Júnior, conhecido como Barão do Rio Branco, era ministro das Relações Exteriores e confiava no conhecimento de Euclides sobre cartografia, além das informações confidenciais que municiavam as discussões que resultaram na anexação do Acre ao Brasil em 1903.
O pesquisador Bernucci explicou que Barão do Rio Branco era atualizado sobre a reconfiguração da área e as mensagens eram muito curtas, “às vezes em forma telegráfica”, diz.
O trabalho dos pesquisadores iniciou em 2009 e resultou em um compilado de 1.608 cartas enviadas e recebidas por Euclides da Cunha durante 883 e 1909, sendo 918 inéditas. Em entrevista a Folha de S. Paulo, os pesquisadores destacaram que é possível encontrar mais cartas em locais ainda não explorados totalmente, como o Arquivo do Estado de São Paulo, que guarda missivas de Euclides da época em que foi engenheiro da Secretaria de Obras Públicas, mas seriam meses pesquisando por conta da quantidade de material.
Os materiais já catalogados resultaria em sete volumes impressos. “Por ora planejamos apenas um, sobre o período do reconhecimento do Alto Purus. Dependendo da recepção, a editora pode pensar em mais”, afirma Jézio Gutierre, publisher da Fundação Editora Unesp.

