Casas Bahia recorre à recuperação judicial para renegociar dívidas e preservar operações após enfrentar restrições de crédito e dificuldades de liquidez.
O que aconteceu
Grupo Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial na Justiça de São Paulo. O processo é feito em conjunto com algumas de suas principais subsidiárias, como Cnova Comércio Eletrônico, Bartira, Casas Bahia Tecnologia e empresas de logística do grupo. A decisão foi aprovada pelo conselho de administração da companhia e pelo acionista controlador.
Segundo a varejista, o pedido foi motivado pela deterioração de suas condições econômico-financeiras. A companhia diz que a situação foi agravada pelo ambiente marcado por juros elevados, restrição ao crédito, aumento dos custos financeiros e pressão sobre o consumo e o capital de giro. A empresa também afirmou que não conseguiu concretizar alternativas de liquidez que vinham sendo estruturadas ao longo dos últimos meses.
Na ação, empresa informa passivos de R$ 17,3 bilhões. A petição foi feita na 2° Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo no final da noite de domingo (16) e informou na ação passivos de R$ 17,3 bilhões, sendo R$ 16,4 bilhões junto a credores quirografários, ou seja, sem garantias. Há ainda R$ 754 milhões de dívidas trabalhistas, R$ 154 milhões junto a microempresas (ME) ou empresas de pequeno porte (EPP).
Companhia vai manter operações normalmente durante o processo de recuperação judicial. Assim, não haverá interrupções relevantes nos serviços prestados aos consumidores. Segundo a empresa, a prioridade será preservar o atendimento aos clientes em todos os seus canais de venda, mantendo os atuais padrões de qualidade e serviço.
Empresa classificou a recuperação judicial como um passo necessário para viabilizar sua reestruturação financeira, preservar a continuidade das operações e buscar uma solução organizada para suas obrigações. Durante o processo, a Casas Bahia afirmou que pretende manter normalmente suas atividades em todos os canais de venda, sem interrupções relevantes para clientes e consumidores.
Grupo informou que pretende concentrar sua operação em negócios mais rentáveis e com maiores margens, além de renegociar e alongar dívidas financeiras e operacionais. O objetivo é encontrar uma solução definitiva para sua estrutura de capital por meio do processo de recuperação judicial.
Como a medida foi tomada em caráter de urgência, o conselho também aprovou a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária para que os acionistas ratifiquem a decisão. A companhia disse que manterá o mercado informado sobre os próximos desdobramentos do processo.
Empresa planeja fechar 298 lojas. Isso representa cerca de 29% das 1.034 lojas que o grupo apresentava no mês fim de junho, segundo dados do balanço. No mesmo balanço de resultados, a Casas Bahia apresenta um plano de ação que inclui o fechamento dos pontos de venda menos rentáveis. Segundo a direção, o plano é “priorizar canais e categorias de maior rentabilidade, reduzindo o capital empregado e o custo de financiamento, para fortalecer o caixa e assegurar uma operação sustentável e autofinanciável”.
Demissões podem atingir perto de 7% dos funcionários da companhia. A empresa não detalhou quantos cortes serão feitos. Segundo o Sindicato dos Comerciários de São Paulo, o fechamento de cerca de 300 lojas pode levar ao desligamento de cerca de 2 mil trabalhadores do grupo, que empregava 30 mil ao fim do semestre.
Companhia já havia recorrido à recuperação extrajudicial em 2024. Naquele ano, renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas com credores. O plano foi homologado pela Justiça em junho.
Prejuízo bilionário
A Casas Bahia reportou um prejuízo de R$ 10,1 bilhões. A perda foi impactada por efeitos contábeis não recorrentes de R$ 9,1 bilhões que, segundo a companhia, não têm efeito no caixa para o trimestre. O prejuízo ajustado, sem os efeitos não recorrentes, ficou em R$ 978 milhões.
A perda ficou bem acima da registrada um ano antes, quando a varejista teve prejuízo de R$ 555 milhões. Segundo comunicado da empresa ao mercado, a baixa está ligada a medidas para redimensionamento de suas operações, a fim de enfrentar o momento desafiador para o setor.
O prejuízo líquido foi fortemente impactado por uma baixa de imposto diferido de R$ 5,7 bilhões. O valor se refere a créditos tributários contabilizados pela companhia que tiveram que ser ajustados. Outras medidas que impactaram o resultado foram a reorganização de pessoal e fechamento de lojas, revisões contratuais e a atualização de suas projeções de resultados futuros.
A receita líquida da varejista cresceu 1,6% no trimestre, para quase R$ 7 bilhões. Mas as despesas com vendas tiveram alta relevante de 17%, para R$ 1,8 bilhão.
A empresa não descarta um novo pedido de recuperação extrajudicial ou judicial. O grupo passou por uma recuperação extrajudicial em 2024, quando negociou uma dívida de R$ 4,1 bilhões. Nos últimos dias, a empresa fechou 298 lojas.
Reestruturação
A varejista vem implementando mudanças desde 2023 para ajustar as contas. O plano de transformação incluiu ações que ajudaram a reduzir parte do endividamento e mudar o perfil de sua dívida.
Mas uma piora no cenário econômico acelerou a necessidade de novas medidas, incluindo o fechamento de lojas. Segundo a varejista, a combinação entre crédito mais restritivo, uma captação internacional não concretizada e um ambiente de consumo mais fraco acelerou a necessidade de fechamento de lojas.
A empresa tentou captar dinheiro com investidores internacionais, mas não conseguiu, o que piorou o quadro. Segundo a companhia, foram realizadas reuniões com investidores do Brasil, Estados Unidos e Europa. Mas o principal investidor interessado desistiu da operação e ela não se concretizou.



