Há muito tempo a F1 não via um Lewis Hamilton tão motivado como hoje. O tom do piloto foi ganhando, ao longo de 2026, um otimismo crescente – ao ponto do próprio, após assegurar-se na vice-liderança do campeonato, passar a ver o título mundial como uma possibilidade. Essa boa fase é algo que o veterano de 41 anos não vivia na F1 desde que enfrentou Max Verstappen, no Mundial de 2021.
A vice-liderança que hoje o inglês sustenta no Mundial é sua melhor colocação na tabela desde a antológica temporada que disputou com o holandês da Red Bull – que foi o felizardo no fim do ano em questão, com seu título inédito da F1.
De 2021 até aqui, Hamilton foi perdendo protagonismo na categoria: passou 2022 e 2023 sem vencer corridas, algo que nunca tinha acontecido em suas quase duas décadas de carreira.
O sexto lugar obtido por ele em 2022 no campeonato de pilotos foi sua pior classificação na F1, marca indigesta que, após o animador terceiro lugar da temporada 2023, ele bateu em 2024: Lewis foi apenas sétimo no Mundial, embora tenha saído da seca após quase três anos sem vitórias. Na ocasião, o veterano venceu os GPs da Inglaterra e Bélgica.
– Depois de um ano como o ano passado, definitivamente existiram momentos em que eu estava tipo ‘caramba, talvez seja verdade que quando você chega a um certo ponto, perde o jeito’ – disse Hamilton, após a vitória no GP de Barcelona-Catalunha de 2026.
A temporada de 2025 marcou um novo começo para Hamilton: ele migrou da Mercedes para a Ferrari, com a promessa de colocar a escuderia de volta ao topo. Mas o casamento dos sonhos virou um pesadelo – segundo as palavras do próprio piloto -, ao menos em seu primeiro ano.
O heptacampeão voltou a ficar um ano inteiro sem vencer. Mas a situação foi ainda pior do que em 2022 e 2023: desta vez ele não conquistou sequer um pódio, enquanto seu novo companheiro de equipe, Charles Leclerc, obteve sete. Vale ressaltar, porém, que o piloto de Mônaco também fechou 2025 sem vencer e se queixou com frequência dos vários problemas no carro italiano.
Ainda assim, a impressão era de que Hamilton sofria muito mais que Leclerc. E de fato: os problemas do veterano começaram lá em 2022, quando a F1 introduziu o carro de efeito solo. Nesta configuração, em que a pressão aerodinâmica é gerada com mais capacidade pelo assoalho, o heptacampeão não conseguiu adaptar seu estilo de pilotagem.
Ele chegou a comparar os carros com “barcos”, referindo-se à direção mais dura; além da instabilidade relatada nos veículos, para piorar, o inglês sofreu muito com os saltos gerados pela aerodinâmica dos carros. Hamilton chegou a relatar dores intensas nas costas, já que os carros da Mercedes pareciam ainda mais susceptíveis aos quiques.
Entre 2022 e 2024, o heptacampeão não conseguiu alcançar seu então colega de equipe, George Russell. Promovido da Williams, o jovem inglês tinha 24 anos quando chegou na Mercedes – 13 anos mais novo que Lewis.
Em sua primeira temporada no time, Russell conseguiu uma vitória inédita na carreira, no GP de São Paulo. Enquanto isso, a confiança do veterano era minada: nos 68 GPs que disputaram juntos, Russell obteve melhor classificação em 39 deles, embora a dupla tenha empatado nas corridas (34 a 34).
Além disso, a Mercedes já preparava o terreno para a aposentadoria de Hamilton: afinal, o time tutorava o talento em ascensão, Andrea Kimi Antonelli, desde as categorias de base. Com a pretensão de reter Russell como referência da equipe, e de promover Antonelli, o chefe Toto Wolff ofereceu a Hamilton um novo contrato de apenas um ano – com opção de extensão – que foi firmado em 2023.
Wolff justificou a decisão, lembrando o arrependimento por não ter encontrado um cockpit para Max Verstappen em 2014 quando o holandês ainda era uma jovem promessa de 17 anos. Esse foi um dos motivos que incentivaram Hamilton a deixa tudo para trás e recomeçar na Ferrari.
O primeiro ano do veterano na escuderia se dividiu entre muito trabalho e muita adversidade: 2025, para ele, foi largamente afetado por falhas do carro, erros individuais e de estratégia da Ferrari, e sobretudo, problemas latentes de comunicação com seu engenheiro de pista da época, Riccardo Adami.
Na parte mecânica, um dos problemas mais recorrentes eram nos freios: sua instabilidade forçava o uso excessivo da técnica “lift and coast” (tirar o pé e deixar o carro andar), que ajuda a poupar os freios mas impede o carro de andar rápido. O SF-25 também foi afetado pela degradação anormal e o superaquecimento dos pneus, falta frequente de aderência e configurações incorretas do carro.
Hamilton também errou: seja excedendo limites de pista e ficando fora do top 10 no grid de largada da Hungria e Bélgica; escapando do traçado na classificação de Miami; sendo punido por seguir o traçado incorreto no México após uma escapada; ou batendo nos GPs de Mônaco, Holanda e São Paulo.
Mas, ele não vacilou sozinho. Destaca-se a nítida dificuldade de se entender com Adami: um caso marcante foi em Mônaco, onde o engenheiro não avisou o piloto da chegada de Max Verstappen. Hamilton acabou punido por atrapalhar o holandês na classificação.
O heptacampeão também não foi informado do volume da chuva na abertura da temporada, na Austrália; não teve seu carro abastecido o suficiente para atacar na Bélgica e recebeu informações imprecisas sobre o próprio ritmo nos Estados Unidos.
Para completar, só em 2026 é que Hamilton revelaria que competiu em 2025 com uma lesão no pescoço e na coluna, decorrente da batida em testes privados no Circuito de Barcelona-Catalunha com a Ferrari.
É aí que entram as mudanças. Desde que chegou à Ferrari, Hamilton organizou dois documentos nos quais detalhou os problemas que identificou no carro da equipe – visando o projeto de 2026. Ele também atuou por mudanças no corpo técnico e de funcionários do time: uma das mais importantes foi a realocação de Riccardo Adami, que deu lugar a Carlos Santi como engenheiro do veterano.
Para 2026, a F1 preparava uma verdadeira revolução técnica, com novidades nos carros e nos motores. Era a oportunidade que Hamilton precisava para fazer um reset e tentar de novo com a Ferrari: além de atuar no desenvolvimento do SF-26, carro do time para este ano, o veterano incentivou mudanças que incluíram até a posição do cockpit e o formato do volante do veículo.
A Ferrari chegou cautelosa para o shakedown de janeiro e os testes de pré-temporada no Bahrein, no mês seguinte. No entanto, a equipe foi ganhando confiança ao introduzir inovações como a asa traseira apelidada de “macarena”, que gira quase de forma completa.
Leclerc, por sinal, registrou a volta mais rápida de todo o teste, do qual a Ferrari saiu com boas impressões diante do ritmo e a consistência. Só não foi melhor que a Mercedes, que de cara, mostrou que veio para brigar pelo título de 2026.
A temporada, para Hamilton, começou oficialmente com um quarto lugar no GP da Austrália, no qual George Russell venceu e Leclerc chegou em terceiro. Mas não demorou muito para o veterano deslanchar: na etapa seguinte, na China, Lewis enfim conquistou seu primeiro pódio vestindo vermelho, ao ser terceiro colocado na vitória inédita de Kimi Antonelli.
O heptacampeão seguiu fazendo mudanças: pediu pela troca dos discos de freio de seu SF-26, e ainda decidiu parar de usar o simulador antes das corridas. Soma-se isso, ainda, às atualizações que a Ferrari trouxe para o carro desta temporada em Miami e Barcelona.
Elas antecederam a primeira vitória da equipe em quase 600 dias, conquistada por Hamilton no GP de Barcelona. Para ele, também foi o fim de um jejum individual de quase dois anos fora do topo do pódio. O inglês, que começou o campeonato de 2026 na quarta colocação, saltou para a vice-liderança do campeonato após os segundos lugares no Canadá e Mônaco – antes da vitória em Barcelona.
Ele recuperou a posição depois de perdê-la provisoriamente para Russell graças ao abandono do piloto da Mercedes. Com isso, assegurou-se na posição rumo às férias de verão da temporada, um lugar que não ocupava desde os antológicos confrontos com Verstappen cinco anos atrás.
Também vice-líder mas no campeonato de construtores, a Ferrari ainda não consegue fazer frente ao poderio da líder Mercedes. Ainda assim, o time tem se consolidado como a segunda força do campeonato, posição que assume dada a inconsistência das rivais McLaren e Red Bull, que correm por fora.
Um ponto-forte da escuderia italiana, em contraponto à Mercedes, é a sua confiabilidade. Diferente das três rivais, que ainda quebram com frequência, a Ferrari tem um equipamento mais seguro – Hamilton, por sinal, é o único dos 22 pilotos do grid de 2026 que pontuou em todas as corridas já disputadas até aqui.
– É incrível, uma sensação maravilhosa. Principalmente se a gente pensar no contraste com a situação em que estávamos ano passado. Estou muito orgulhoso da equipe, do avanço que conseguimos coletivamente; e, além disso, preciso reconhecer meus próprios esforços, as mudanças que fiz para que pudéssemos chegar onde estamos. Tenho muito orgulho de mim mesmo por isso. Ainda há muito trabalho a ser feito, ainda temos uma montanha a escalar na segunda metade da temporada, mas estou mais focado do que nunca e acredito de verdade que podemos lutar – celebrou Hamilton.
As chances do inglês em 2026 seguem vivas, embora o domínio do líder Kimi Antonelli pareça difícil de alcançar. Mas depois de longas temporadas vendo, à distância, seus rivais brigarem por vitórias e pelo próprio título, a estrela do sete vezes campeão voltou a brilhar – e ele se lembrou, enfim, de quem era.

