Há algumas semanas, quem assistia aos jogos do Vasco terminava, inevitavelmente, com a impressão de que o time era mais organizado, mais competitivo desde a chegada do técnico Pedro Emanuel. No entanto, faltava talento para resolver as partidas. A goleada de sábado sobre o Coritiba, ainda que incapaz de assegurar que o time chegará ao fim da temporada livre da ameaça de rebaixamento, foi algo além da melhor atuação vascaína do ano, ou talvez de alguns anos. Foi a confirmação de que, agora, o Vasco tem mais armas: se o time já vinha se organizando, agora também tem mais qualidade técnica. O nível do elenco claramente melhorou após a última janela de contratações.
As grandes transformações de elencos, com um súbito fluxo de investimentos na reta decisiva do Brasileiro são um fenômeno nacional. E algumas ressalvas são levantadas. O Santos, por exemplo, ainda cria expectativa sobre o impacto das contratações em sua saúde financeira: os reforços parecem não combinar com os balanços e demais diagnósticos sobre a economia do clube. O Vasco teve aportes e garantias dos futuros compradores da SAF do clube, e não fez nada que contrarie os regulamentos atuais. O que se debate é se a Recuperação Judicial aplicada ao futebol cria permissividade e um desequilíbrio competitivo, além do conflito de interesses gerado pela injeção de recursos vindos da família da presidente do Palmeiras.
Mas se tentarmos separar bastidores e campo, hoje é possível ter mais convicção ao apostar na fuga do Vasco do rebaixamento. Os jogadores ganharão protagonismo, mas até aqui Pedro Emanuel é o grande acerto de mercado do clube. Um nome desconhecido, cujo trabalho teve impacto claro.
Ao receber os reforços, o português deu ao time uma nova forma de jogar, criada justamente para aproveitar melhor as características de Sosa, Colidio e Lescano. Contra o Coritiba, os gols que abriram o caminho para a goleada foram construídos a partir da nova ideia do time.
O ponto principal era a forma de utilizar Colidio, que não é nem um centroavante fixo de área, tampouco um ponta. Ele é um jogador de mobilidade no setor ofensivo, que precisa ter liberdade para participar da construção de jogadas e aparecer na área para concluir. Contra o Coritiba, o argentino partia da esquerda, e movia-se para o centro onde se aproximava de Lescano, que iniciava como o meia central. Andrés Gómez, que pode jogar aberto, no sábado buscava a área em muitos momentos, junto a Bruno Duarte. O Vasco acumulava muitos jogadores pelo meio, gerava trocas de passe e presença de área. Assim, os laterais tinham os corredores para atacar, o que só era possível porque o volante Sosa iniciava as jogadas entre os dois zagueiros, com Thiago Mendes logo à frente, dando segurança para Paulo Henrique e Cuiabano avançarem.
As aproximações pelo meio foram o ponto alto do time no sábado, gerando os dois primeiros gols. Contra o quarto melhor visitante do campeonato, um time que se defende bem e contra-ataca com perigo fora de casa, o Vasco finalizou 32 vezes e só permitiu quatro chutes ao Coritiba. E o dado mais importante para os vascaínos no momento: nenhum concorrente direto na disputa pela fuga do rebaixamento joga melhor do que a equipe de Pedro Emanuel.
Em sua trajetória recente, o Vasco sempre teve a torcida ao lado, tentando sustentar um time cheio de carências. Agora, parece ser diferente. A amostragem desse novo Vasco ainda é pequena para que se tenha garantias sobre o futuro, mas o torcedor já enxerga no campo mais motivos para acreditar num fim de ano mais sossegado.

