Alinne Moraes está de volta às novelas em um papel que conhece bem: o da vilã capaz de concentrar, em uma única personagem, contradições, privilégios e conflitos que atravessam a sociedade brasileira. Em “Por Você”, ela interpreta Vanessa, uma médica que não exerce a profissão e ocupa um cargo administrativo no hospital particular da mãe, Pérola, vivida por Renata Sorrah. A personagem usa a posição que ocupa para destilar preconceitos contra Bela, protagonista interpretada por Sheron Menezzes, e transforma o ambiente hospitalar em mais um espaço de disputa de poder.
A composição de Vanessa também ajuda a construir essa imagem de privilégio. Cabelos impecavelmente arrumados, unhas e batom vermelhos e maquiagem marcada fazem parte do visual de uma mulher que se preocupa em controlar a própria imagem. Para Alinne, porém, a precisão não fica restrita à caracterização. A atriz conta que também costuma chegar às gravações com o texto profundamente estudado.
“Sempre soube onde estão até as vírgulas do texto. Acho que não preciso mais de tanto”, afirma à revista ELA. A frase, Aline esclarece, não significa falta de rigor. Ao contrário: depois de tantos anos de carreira, Alinne diz confiar cada vez mais no repertório construído ao longo do tempo e na possibilidade de encontrar a personagem no momento da cena.
Essa entrega é percebida por quem trabalha com ela. Renata Sorrah, que interpreta sua mãe na trama, compara a postura da colega em cena à de uma trapezista que se lança no ar sem se preocupar com a rede de segurança. Para a veterana, a atriz alia preparo técnico a uma disposição permanente para descobrir novos caminhos durante as gravações.
“Trata-se de uma atriz de primeira linha. É focada e tem muita inteligência”, comenta Renata. “Passamos o texto quando estamos nos maquiando e depois fazemos isso novamente na sala de atores e no ensaio, já no ambiente da cena. Quando gritam ‘gravando’, porém, sempre acontece algo novo. E adoro isso porque traz um frescor ao nosso trabalho”, completa.
A experiência acumulada ao longo da carreira é parte importante desse processo. Conhecida por personagens de diferentes registros, Alinne já havia vivido uma vilã de destaque em “Duas Caras”, como Silvia. Agora, em Vanessa, encontra uma antagonista que permite explorar outro tipo de crueldade: aquela que aparece disfarçada de naturalidade e se manifesta em comentários e atitudes cotidianos.
A personagem é médica de formação, mas escolheu não atuar na área e passou a cuidar da administração do hospital da família. Mais interessada no potencial financeiro do negócio do que na prática médica, Vanessa circula por um ambiente que reforça sua visão hierárquica das relações. É desse lugar de privilégio que ela estabelece a relação com Bela e revela, sem constrangimento, preconceitos de classe e raça.
Para construir Vanessa, Alinne recorre também ao interesse que sempre teve pelo comportamento humano. Ela vê a observação do mundo e das relações como uma espécie de laboratório permanente, repertório que leva para o trabalho e que agora serve de matéria-prima para uma personagem cuja violência está justamente na aparente normalidade de suas atitudes.
“Ela diz coisas como ‘você é filha da empregada’ de um jeito muito natural”, conta a atriz. “É como acontece numa sociedade que, muitas vezes, não se vê como racista e elitista. Acho que muita gente vai poder se questionar e mudar de atitudes por meio dela”, conclui.

