Pular para o conteúdo
O Juruá Em Tempo
Início / Famosos

Luiza Possi fala sobre conversão, carreira gospel e confusão com cantora

Certa vez, conta a Bíblia, perseguido por Saul, um rei invejoso, Davi fugiu de Israel. Mas, num equívoco mortal, foi para Gate, cidade de filisteus, inimigos dos israelenses. Desesperado diante de uma iminente execução, Davi resolveu se fingir de louco. Babava, falava coisas desconexas e, assim, obteve clemência. Passado o susto e olhando para seus próprios erros, escreveu o Salmo 34, em que reflete sobre “procurar a paz”. Em entrevista ao GLOBO, a cantora Luiza Possi, de 42 anos, também fala dessa procura, “a paz como escolha”, para comentar a celeuma em que esteve envolvida no ano passado, quando foi criticada por Maria Gadú nas redes sociais. Em tom de deboche e usando de termos religiosos, a cantora expôs publicamente, pela primeira vez, uma relação que ambas tiveram na juventude: “O tempo em que namoramos foi um erro”, escreveu a autora de “Shimbalaiê”. Era uma resposta a um suposto apoio de Luiza Possi a Jair Bolsonaro. Luiza, vale dizer, converteu-se há cerca de quatro anos. Agora, ela diz, dedica-se a Jesus, sua “paixão.”

A carreira também deu uma guinada. Depois de mais de duas décadas com um repertório calcado no pop e na MPB, com sucessos emplacados na rádio e na TV, Luiza Possi agora é uma cantora gospel. No dia 7 de setembro, vai gravar na Sala São Paulo, acompanhada de uma orquestra, o especial “Quando ele me encontrou”, sequência audiovisual do seu primeiro álbum do gênero, “Eu quero conhecer Jesus”, lançado em junho. Ela conta mais detalhes na entrevista a seguir.

Você é filha de uma cantora famosa e de um músico de prestígio (Zizi Possi e Líber Gadelha). Como foi sua infância?

Minha mãe cantou até eu nascer. Uma amiga minha sempre dizia que minha mãe saiu do palco, me teve na coxia e voltou para o bis. E é meio real. Fui amamentada nos estúdios da Polygram, que hoje é a Universal. Minhas primeiras memórias são essas. Quando eu era pequena, tinha que pular instrumentos para chegar até o meu quarto. E eu ia estudar e ficava ligada no som que estava rolando na sala. Comecei a compor e a cantar muito nova. Tem o DNA, a genética existe, é real. Mas tem também uma coisa que é do ser humano, né? Que é individual. E eu cresci com valores e princípios, mas não cresci numa doutrina de uma família tradicional.

Como construiu a sua identidade artística?

Minha influência sempre foi o pop. Minha mãe me apresentava uma parte mais erudita, de Barbra Streisand a Mozart, mas também Chico, Caetano, Gil. E meu pai foi um grande produtor do samba, né? Ele era presidente da Indie Records na época em que lá estavam Alcione, Jorge Aragão. Todos os álbuns de maior sucesso dessa galera foi o meu pai que fez. Com ele eu ouvia muito Michael Jackson, Prince, Stevie Wonder… Minha primeira música de muito sucesso foi “Dias iguais”, que é uma versão do Bryan Adams. Eu fiz sucesso ainda com a camiseta da escola, sabe? Foi um barato. Mas eu nunca liguei muito para sucesso ou fama. O que me dava muito respaldo era o meu público.

'Sou, como se diz, a primeira da minha casa', diz Luiza Possi sobre conversão — Foto: Divulgação
‘Sou, como se diz, a primeira da minha casa’, diz Luiza Possi sobre conversão — Foto: Divulgação

Qual é o ônus e o bônus de ser cantora filha de uma grande cantora? Com certeza te abriu portas. Mas pesou também?

Acho que já respondi a essa pergunta de várias maneiras. Teve momentos em que vibrei muito com isso, e outros em que isso me incomodou. Hoje, ser mãe me dá um outro prisma. Sigo muito o princípio da honra aos pais. Minha mãe e eu já tivemos muitas diferenças, mas estou numa fase de olhar para ela com muito carinho, amor e gratidão. Talvez pela perspectiva de finitude. E ela sempre esteve do meu lado em todas as confusões que eu causei. Vou honrá-la até o fim.

E qual é a melhor e a pior parte de ser famosa?

A parte boa é você transitar num mundo onde é meio vizinho de todo mundo. Todas as pessoas te cumprimentam igual às pessoas do seu prédio. “E aí, Luiza, beleza? Seu filho está grandão. E a mãe, está bem?” (risos). É muito engraçado. E isso pode tocar a vida de alguém, então tem muita responsabilidade também. A parte ruim é essa também. Outro dia, por exemplo, parei o carro num hospital. Quando fui buscar, o cara do estacionamento havia batido meu carro. Fiquei nervosa, e ele disse: “Ah, mas você é a Luiza Possi…” E eu pensei: Nossa, que péssimo dia para ser a Luiza Possi.

Como é que se deu a sua conversão?

Não veio de família, definitivamente. Sou, como se diz, a primeira da minha casa. Sempre tive fé, sempre acreditei em Deus. Meu pai teve doenças bem difíceis, e isso me fazia querer acreditar e fazer alguma coisa para meu pai ser curado. Busquei muitas religiões, mas nunca ninguém falou comigo sobre Jesus. Sempre me gabei de ser uma pessoa ecumênica, que tinha muitas fés, eu tinha um altar com muitas entidades, santos e budas e tal. Até que um dia, diante de uma crescente angústia, mesmo medicada, eu comecei a ouvir um louvor e era a única coisa que me acalmava. Fui escutando mais e mais. Aí comecei a escutar alguns pregadores falando coisas da Bíblia. E eu senti uma presença muito forte de Jesus, ali no meu carro, foi muito forte, muito. O tempo parou, o mundo parou, eu senti coisas que nunca senti na vida. Foi uma conversão muito genuína. Quis visitar uma igreja e, na primeira vez em que fui, mergulhei de cabeça. A gente sempre fala: “Escolhido não tem escolha.”

E como isso impactou sua rotina?

Aconteceu ao mesmo tempo com o meu marido, algo muito raro e muito especial. Hoje, eu faço aula de teologia, faço aula de estudo bíblico, realmente me aprofundo muito nesse tema. Jesus, pra mim, é uma paixão. Crio a minha família, os meus filhos, com esses princípios cristãos. E vejo como isso faz diferença.

Quais experiências te inspiraram a compor as canções desta nova fase?

Jesus não começou a me salvar na minha conversão. Me converti há quatro anos, mas entendi que ele me tirou de muitos buracos difíceis da minha vida. Posso falar para você de suicídio, de vícios em álcool, em remédios, posso falar de carência, depressão, pânico. Foi Jesus, literalmente, quem não me deixou morrer.

Como lida com episódios do passado antes da conversão?

Não acho que tudo que eu vivi foi pecado, sabe? Não renego meu passado, tenho orgulho da minha história, dos meus álbuns, das minhas músicas, de tudo o que vivi. Não é sobre isso. É sobre viver com um propósito muito maior que eu.

E a diferença no palco?

Hoje, quando eu faço uma palestra, ou quando eu canto e louvo, as pessoas vêm falando para mim: “Isso mudou minha vida.” Não tem preço. Não é a mesma coisa de fazer um show de entretenimento. Você volta para casa nutrido também. Não é a conta bancária só que está legal. É uma sensação de que realmente a minha existência significou. Esse propósito preenche.

Teve receio de perder seu público depois da conversão para a religião?

Não é religião, tá? É Jesus, é Deus. Religião é outro rolê. Jesus é muito grande para caber numa religião só. Eu sou cristocêntrica.

Mas você se considera evangélica?

Eu frequento a igreja evangélica. Me considero evangélica sim. Sei que isso causa uma série de questões. Estou com a parte boa desse lugar. Com as boas obras sociais, de ajuda, de amor ao próximo, de acolhimento.

Luiza Possi é filha da cantora Zizi Possi e do guitarrista e produtor musical Líber Gadelha — Foto: Divulgação
Luiza Possi é filha da cantora Zizi Possi e do guitarrista e produtor musical Líber Gadelha — Foto: Divulgação

Certo. Mas, nessa virada da tua carreira, em algum momento você teve receio de parte do seu público não te acompanhar?

Não era um receio, eu sabia que isso ia acontecer. Sempre soube. Mas é isso, não tenho como pensar: “Ah, não, pera aí, não vou seguir Jesus não, porque, cara, aquela galera lá não vai gostar.” Não faz o menor sentido. E quem realmente gosta de mim vai continuar gostando. É assim na minha família, com amigos e com o meu público. Também deixei tanta coisa gravada que as pessoas podem ouvir para sempre. E aí, é meio vida que segue. O que não dá é você negar a tua autenticidade e a descoberta da tua identidade para tentar agradar, seja lá quem for.

Como você enxerga hoje a cena gospel brasileira do ponto de vista artístico?

Tem muitas caras. Eu não sei se você já ouviu falar do Nesk Only. É uma galera que faz um trap gospel muito bom. A molecada ama. Tem o Thalles Roberto, que sempre foi muito irreverente trazendo esse pop. E sou alucinada pelo Eli Soares, que inclusive estará no meu especial como convidado. Um cara maravilhoso. Tem a Gabriela Rocha, que é uma voz de anjo, uma coisa surreal, a Cassiane que é mais pentecostal, a Michele do Pandeiro, que toca um absurdo. Acho que também tem muitas caras.

Quando você entrou no gospel, que cara queria ter?

Muita gente veio falar que eu deveria trabalhar minha “voz de gospel”. No começo até me abri para isso. Mas perdeu a graça. Pensei: não, cara, pera aí, para eu adorar a Deus eu não preciso ter a voz da fulana, da beltrana. Eu continuo sendo a Luiza Possi. E o grande lance é a Luiza Possi, com a identidade que eu tenho, louvando.

E você que esteve, digamos, nos dois lados, enxerga ainda um preconceito, principalmente da classe artística não religiosa, com a cena gospel?

Eu acho que já foi muito pior. Porque hoje em dia não tem como você não olhar para a cena gospel. Ficou impossível colocar embaixo do tapete. Impossível fingir que não está vendo. Vai ter que olhar, sim, vai ter que respeitar, sim. Como é que é isso? Prêmio da Música que não tem categoria gospel? Como assim? O estilo musical mais ouvido no país, e daí tem um prêmio da música que não fala da música gospel? Não dá mais pra colocar embaixo do tapete.

No ano passado, você se manifestou sobre alguns assuntos, já sob essa ótica nova. E aí vieram críticas de algumas pessoas da classe artística, inclusive de uma cantora com quem você já teria se relacionado. Hoje, com a poeira baixa, como enxerga esse episódio?

Isso está na Bíblia, está lá, no manual. Quando a gente se converte e ganha uma relevância pra falar de Deus, vamos incomodar muita gente. Eu não sou a primeira nem a última. Veja Paulo, que escreveu sobre felicidade e liberdade na prisão. Ele foi preso porque estava falando em nome de Jesus. E tem uma frase que também ecoa muito na minha cabeça quando esse assunto é mencionado: o justo não se justifica. Não tenho nada para me justificar. Não foi importante na minha vida. Eu tenho tantas coisas incríveis e realmente importantes para mim. Os meus filhos, a minha casa, a minha carreira, a minha saúde, a minha mãe. A paz, ela não é uma coisa que você constrói. A paz é uma coisa que você escolhe. Você escolhe o que evita ver, o que evita deixar entrar na sua casa. E eu escolho a paz. Eu não lido com a maldade humana. Ah, como você lida? Eu não lido (risos). Eu escolho não lidar.

Naquele caso, nem a repercussão te incomodou?

Acho que essa foi uma das minhas primeiras ou maiores provas de fé. Lembro que eu fiquei bem, realmente bem. Os amigos me ligavam em pânico. E eu dizia: “Cara, eu estou bem.” Aí lembro que fui conversar com o meu pastor, ele me olhou e falou: “Achei que depois de tudo eu ia te encontrar abatida, duvidando, com a sua fé abalada, e eu vejo o mesmo olhar de quem está no primeiro amor.” Talvez, se não estivesse num caminho tão guardada por Deus, eu tivesse me abalado, porque ia estar muito preocupada com o que os outros pensam de mim, falam de mim. Mas não sou essa pessoa que se preocupa tanto com isso. Eu vou de pijama buscar meus filhos na escola, entendeu?