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25 anos após 11 de Setembro, 40% das vítimas não foram identificadas

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: O Globo. 11/09/2026 às 12:05

Vinte e cinco anos após os ataques de 11 de setembro, cerca de 40% das 2,7 mil pessoas que morreram no World Trade Center, em Nova York, ainda não foram identificadas. São mais de mil vítimas cujos restos mortais não puderam ser associados formalmente a uma identidade, apesar de um trabalho forense que começou imediatamente depois da tragédia e continua até hoje. Para muitas famílias, isso significa que, mesmo após um quarto de século, nenhum vestígio de seus parentes foi recuperado e entregue para sepultamento.

— Passei essencialmente toda a minha vida sabendo que meu pai morreu e aprendendo a conviver com o fato de que nunca recuperamos seus restos mortais — disse à BBC Juliette Scauso, que tinha apenas 4 anos quando seu pai, Dennis, morreu.

Bombeiro havia 12 anos e integrante de uma unidade especializada em materiais perigosos, ele não deveria trabalhar naquele dia, mas trocou de turno para receber pelas horas extras. Pai de quatro filhos e morador de Long Island, Dennis provavelmente estava na Torre Sul do World Trade Center quando ela desabou, segundo informado à família de Scauso. O capacete com o número de seu distintivo foi encontrado meses depois. Seu corpo nunca foi achado.

Segundo especialistas, as condições extremas às quais os corpos foram submetidos representam o principal desafio para o trabalho de identificação. Os impactos dos aviões, os incêndios alimentados por combustível de aviação, produtos químicos presentes nos edifícios e a água usada no combate às chamas degradaram o material genético. No ponto de impacto atingido pelas aeronaves, as temperaturas chegaram a cerca de 982°C, e os escombros continuaram queimando por pelo menos três meses.

Ao todo, 21,9 mil restos mortais foram recuperados no local do atentado. Desses, 14,9 mil foram identificados, enquanto 6,9 mil permanecem sem identificação. Muitos são fragmentos minúsculos de ossos, às vezes difíceis de distinguir do concreto e dos destroços dos edifícios. Hoje, são principalmente esses pequenos fragmentos que os cientistas analisam.

Nova técnica

Ainda assim, o trabalho de identificação dos mortos ganhou um novo impulso às vésperas do 25º aniversário dos ataques. Em agosto, o Escritório do Médico-Legista-Chefe de Nova York anunciou a identificação da 1.654ª vítima, uma mulher adulta cujo nome não foi divulgado a pedido da família. Pela primeira vez no caso do World Trade Center, cientistas recorreram à genealogia genética forense investigativa, conhecida pela sigla FIGG, técnica que combina tecnologias especializadas de DNA com pesquisas genealógicas.

— É um avanço — disse à ABC News o médico-legista Jason Graham. — Fico muito satisfeito em poder dizer que agora aplicamos novos métodos aos esforços de identificação das vítimas do World Trade Center e temos uma nova identificação, pela primeira vez em 25 anos utilizando novos métodos: a genealogia genética forense investigativa.

A técnica utiliza o sequenciamento do genoma completo, que permite analisar todo o código genético de uma pessoa e buscar possíveis correspondências com parentes mais distantes. A partir dessas pistas, investigadores do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD) procuram familiares mais próximos, e o escritório do médico-legista confirma a identificação por DNA ou outros métodos forenses. Segundo a antropóloga forense Jennifer Odien, há atualmente 47 perfis que podem ser candidatos à identificação por meio do método.

No laboratório, os fragmentos são colocados em uma câmara com nitrogênio líquido para torná-los mais frágeis e permitir que sejam triturados até virarem um pó fino, do qual podem ser extraídas células contendo DNA. Calor e produtos químicos são então aplicados antes da análise em busca de uma correspondência com perfis genéticos disponíveis. Os restos recuperados do World Trade Center foram embalados e lacrados para preservar o DNA e permitir novas tentativas conforme surgissem tecnologias mais avançadas.

— É por isso que, tantos anos depois, ainda conseguimos novas identificações. Continuamos tentando novamente a cada nova tecnologia que se torna disponível — disse Angela Soler, diretora de antropologia forense do escritório do médico-legista de Nova York.

Tecnologia insuficiente

Pouco depois de o primeiro avião atingir a Torre Norte, às 8h46, integrantes do escritório do médico-legista foram enviados ao local para instalar necrotérios temporários. Hoje diretora de ciências forenses do Departamento de Laboratórios e Pesquisa do condado de Westchester, Lydia de Castro trabalhava no órgão à época — e, entre 2001 e 2004, lidou exclusivamente com o 11 de setembro.

Sua equipe coletava tecidos dos restos mortais, e ela era a responsável por supervisionar a documentação e o armazenamento à medida que a investigação avançava. A falta de tecnologia, porém, tornou difícil lidar com a complexidade da cena.

— Sabíamos que havia pessoas que, em algum momento, começaram a pular. Haveria pessoas mortas. Mas, na época, a extensão do nosso trabalho era manual. Não tínhamos sistemas de códigos de barras para nos ajudar a rastrear as milhares de amostras que chegavam — disse ela, que, em dado momento, foi até um loja de materiais de escritório próxima para comprar livros de registro nos quais pudessem fazer anotações. — Mas percebemos, especialmente depois que os prédios desabaram, que não poderíamos fazer tudo isso à mão.

Nos dias seguintes, afirmou, sua equipe começou a receber corpos, membros, fragmentos de ossos e pedaços de tecidos. Durante quatro meses, segundo cientistas que trabalhavam no laboratório, os restos das vítimas chegavam praticamente 24 horas por dia. Parte das análises precisou ser terceirizada para laboratórios privados diante da dimensão do trabalho. A cientista forense Sheila Dennis lembrou de um homem que visitava com frequência o escritório do médico-legista na esperança de receber alguma notícia sobre o irmão. Em menos de dois anos, disse, os cientistas conseguiram algumas respostas.

— Nós o encontramos, mas era algo tão pequeno. Entreguei a ele um tubo, e ele ficou extremamente agradecido por receber aquele tubo — disse. — Eu realmente tive que lidar com as minhas emoções.

‘Cumprindo a promessa’

A maioria das identificações ocorreu nos quatro primeiros anos depois dos ataques. Até abril de 2005, 1.592 das 2.753 vítimas haviam sido identificadas. Desde então, o ritmo diminuiu e o trabalho passou por períodos de interrupção e retomada enquanto os cientistas aguardavam novas tecnologias capazes de extrair informações de materiais que anteriormente não produziam resultados. Uma equipe, porém, permaneceu dedicada em tempo integral.

Parte dos escombros também foi levada para fora de Manhattan. Devido à dimensão da operação de limpeza, cerca de 1,4 milhão de toneladas de material do Ground Zero, incluindo vigas de aço, concreto e outros destroços, foram transportadas para Fresh Kills, um aterro em Staten Island, onde foram vasculhadas. A possibilidade de que restos mortais de entes queridos estivessem entre o material causou profunda revolta entre algumas famílias.

Hoje, os cientistas reconhecem que talvez nunca seja possível identificar todas as vítimas, já que, em alguns casos, pode não haver nenhum resto mortal disponível para análise. Ainda assim, o escritório do médico-legista afirma que continuará reexaminando o material armazenado à medida que novas tecnologias forem desenvolvidas.

— Um quarto de século depois do dia que mudou nosso mundo para sempre, estamos cumprindo a promessa de identificar aqueles que morreram no World Trade Center em 2001 e devolvê-los a seus entes queridos — afirmou Graham.

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