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Americano que votou três vezes em Trump passa a questionar política migratória após prisão da esposa

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: The New York Times. 19/08/2026 às 10:10

O americano Brent Jindra, que trabalha no ramo de tecnologia, votou três vezes em Donald Trump, atraído principalmente por sua agenda anti-imigração. Mas jamais imaginou que a política linha-dura do presidente acabaria atingindo a própria esposa. No mês passado, poucos minutos depois de o casal desembarcar de um voo em Burbank, na Califórnia, um jovem usando um moletom marrom com capuz parou Galina Bobreneva.

O homem era um agente federal e, depois de interrogar Bobreneva por cerca de 15 minutos, a levou algemada até um veículo sem identificação.

— Parabéns, você foi selecionada para uma inspeção secundária — disse o agente, segundo o relato do casal. — Estou apenas fazendo meu trabalho. Tudo vai ficar bem.

Assim começou uma provação de 16 dias: uma noite no chão de uma cela em um subsolo, no centro de Los Angeles; duas semanas em um centro de detenção no deserto de Mojave; e uma corrida contra o tempo na Justiça para conseguir sua libertação.

Libertada mediante uma fiança e com uma tornozeleira eletrônica, ela agora luta para permanecer nos Estados Unidos, enfrentando acusações federais por ter permanecido no país além do prazo de seu visto.

Bobreneva, que é russa, tem um pedido de green card em andamento, afirma que nunca esteve em situação migratória irregular. O caso representa uma nova frente na campanha de deportação em massa de Trump: prisões em aeroportos de pessoas cujos vistos expiraram, mas que têm processos migratórios ativos e nenhum histórico criminal.

Embora a lei federal permita a detenção de candidatos ao green card com vistos expirados, governos anteriores não os tratavam como imigrantes em situação irregular. Agora, enquanto Trump busca quase dobrar o número diário de prisões, para 2 mil, milhares de pessoas que acreditavam estar cumprindo as regras estão sendo detidas e enfrentando processos de deportação.

— O apelo da militância do Maga (Faça os Estados Unidos Grandes Novamente, na sigla em inglês) era relacionado a entrada ilegal de criminosos — disse Jindra, 48 anos. — Nunca houve respaldo para que este presidente mudasse o alvo e começasse a perseguir pessoas que entraram legalmente no país.

Em resposta a perguntas sobre o caso de Bobreneva, o Departamento de Segurança Interna afirmou, em nota, que ela era uma “estrangeira ilegal” que foi alvo de prisão porque “ultrapassou o prazo de permanência permitido, violando as leis de nossa nação”.

“Para deixar claro, uma autorização de trabalho ou um pedido pendente NÃO conferem status legal nos Estados Unidos”, afirmou a agência em nota.

A agenda de imigração de Trump, que ajudou a levá-lo de volta à Casa Branca para um segundo mandato, está se tornando uma vulnerabilidade para o Partido Republicano antes das eleições de meio de mandato, à medida que até alguns integrantes de sua própria base começaram a condenar as táticas do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE).

Jindra se considerava um patriota do Maga até a detenção de sua esposa.

— Ela não pulou um muro, não atravessou um rio a nado — disse. — Ela entrou pela bela e grande porta da frente de Trump.

Bobreneva chegou aos Estados Unidos com um visto de turista no fim de 2021, prorrogou sua permanência duas vezes após a invasão da Ucrânia pela Rússia e pediu asilo em 2022. Ela conheceu Jindra em março de 2025 e, em dezembro, os dois se casaram.

— Foi um romance de conto de fadas.

Em abril, Jindra entrou com o pedido de green card para a esposa com base no casamento. O casal recebeu a confirmação oficial de que a solicitação havia sido aceita, e ela teve as impressões digitais coletadas.

Os recém-casados compraram uma “casa dos sonhos” em Cleveland, onde Jindra cresceu, e pretendiam se mudar para lá em breve. Eles planejaram uma viagem à região vinícola do condado de Sonoma para comemorar o aniversário de 40 anos de Bobreneva, em 16 de julho. Jindra reservou uma suíte em um hotel boutique, pagou antecipadamente por visitas a três vinícolas e contratou um motorista.

Mas nunca chegaram a fazer a viagem. Em 13 de julho, o casal embarcou em um voo de São Francisco para Burbank, na Califórnia, onde Jindra pretendia encontrar clientes e Bobreneva, visitar amigos. Abordados por agentes à paisana no aeroporto, os dois inicialmente pensaram que se tratava de algum tipo de golpe.

— Quando o distintivo do ICE apareceu, dava para perceber que era legítimo — lembrou Jindra.

Ele ligou imediatamente para o advogado de imigração do casal, mas os agentes se recusaram a falar com ele. Eles conduziram Bobreneva para uma sala, deixando o marido no saguão, cercado por policiais do aeroporto de Burbank. Lá dentro, os agentes disseram a Bobreneva que ela havia ultrapassado o prazo de seu visto.

— Eu tinha absoluta certeza de que aquilo era um erro — ela contou. — Expliquei que estava em processo de obtenção de um green card e apresentei os documentos.

Quando um agente tirou um par de algemas, Bobreneva ficou atônita. Ela pediu para entregar ao marido seu anel de noivado e outras joias. Em seguida, os agentes a levaram embora, dizendo que Jindra saberia onde encontrá-la.

— Um cidadão americano acabara de ver a própria esposa ser arrastada para longe e não fazia ideia de para onde ela estava indo — lembrou Jindra.

Galina Bobreneva e seu marido chegam para uma apresentação obrigatória ao ICE, em San Francisco, Califórnia, em 5 de agosto de 2026. Bobreneva, que foi presa pelo ICE em um aeroporto e ficou detida por mais de duas semanas antes de ser libertada sob fiança, representa uma nova frente na campanha de deportação em massa do presidente Donald Trump: prisões em aeroportos de pessoas que têm processos migratórios ativos e nenhum histórico criminal. — Foto: GABRIELA BHASKAR

O SUV branco partiu em alta velocidade noite adentro. Sozinha com dois homens, Bobreneva disse que temeu por sua segurança até eles chegarem a uma instalação do ICE. Lá, foi mantida em uma sala gelada com algumas outras mulheres. Viu uma imigrante diabética, muito magra, na casa dos 70 anos, implorando por insulina, sem conseguir recebê-la. Bobreneva se encolheu no chão sob uma manta de alumínio.

Cerca de 18 horas depois, ela foi algemada nos tornozelos, na cintura e nos pulsos e colocada em uma van sem identificação com vários outros imigrantes. Eles eram jogados de um lado para o outro dentro do veículo, enquanto ele corria em direção ao centro de detenção de Adelanto, no deserto de Mojave.

— Eu me senti como um pedaço de carne, não como um ser humano. Você se torna um número. Ninguém se importa. Não existe empatia alguma.

Quando trocou de roupa, vestindo o uniforme prisional azul e recebeu a cama L63, um beliche inferior na ala feminina, já eram 5 horas da manhã. Meia hora depois, enquanto começava a adormecer, ordens ecoaram pelos alto-falantes para a contagem das detentas e a formação de uma fila para o café da manhã.

A privação de sono era constante. As luzes permaneciam sempre acesas. Os rádios portáteis carregados pelos agentes chiavam dia e noite. No aniversário de Bobreneva, ela contou, dividiu chocolates comprados na cantina com outras detentas de língua russa, vindas da Rússia, Ucrânia, Bielorrússia e Armênia.

Bobreneva descreveu abandono, sujeira e pessoas desesperadas.

Para 120 mulheres, havia sete chuveiros, mas apenas quatro funcionavam. A água potável era escassa e pessoas doentes não recebiam atendimento até que precisassem ser hospitalizadas, contou ela, repercutindo alegações feitas em uma ação judicial federal.

O GEO Group, que administra o centro de detenção, recusou-se a comentar as denúncias de Bobreneva e encaminhou as perguntas ao ICE.

Em nota, um porta-voz do Departamento de Segurança Interna afirmou: “É falsa qualquer alegação de que existam condições precárias na unidade de processamento do ICE em Adelanto. Todos os detidos recebem alimentação adequada, água, tratamento médico e têm oportunidades de se comunicar com seus familiares e advogados.”

Visitas três vezes por semana

Jindra a visitava quando tinha permissão, três vezes por semana, e se desdobrava para conseguir sua libertação. Duas semanas se passaram. O advogado do casal, Patrick Valdez, solicitou uma audiência, marcada para 28 de julho. Bobreneva foi libertada no dia seguinte, mediante fiança de US$ 35 mil (cerca de R$ 182 mil), com um monitor no tornozelo e uma ordem para se apresentar ao ICE em San Francisco em 5 de agosto.

Durante o jantar em um restaurante de frutos do mar em Redwood City, na noite anterior à apresentação, Bobreneva mal tocou nos seus bolinhos de caranguejo. Ela vinha tendo dificuldades para dormir e estava apavorada com a possibilidade de ser detida novamente.

— Eu nunca imaginei que fosse tão fácil tirar a liberdade de alguém.

Jindra também estava nervoso.

— Estamos vivendo com medo no meu próprio país.

Na manhã seguinte, bem cedo, os dois entraram em uma fila do lado de fora do prédio da imigração que dava a volta no quarteirão. Bobreneva entrou acompanhada de seu advogado mais de duas horas depois. Eles saíram com instruções do ICE para retornar em 7 de setembro.

O casal voltou para Redwood City, onde presentes de aniversário ainda embrulhados e balões murchando estavam sobre a mesa da sala de jantar, ao lado de um vaso com algumas rosas murchas.

— Não consigo comemorar nada — disse Bobreneva.

Sua primeira audiência judicial está marcada para 22 de outubro, mas o caso levará meses para ser resolvido. Usando a tornozeleira eletrônica, Bobreneva está confinada a um perímetro bastante limitado. No último domingo, o casal se aventurou até a praia.

— Ela está aproveitando toda a sua liberdade dentro de um raio de 120 quilômetros — disse Jindra.

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