Uma série de bombardeios conduzidos por EUA e Arábia Saudita contra milícias pró-Irã no Iraque deixou ao menos 20 mortos, horas depois dos sistemas de defesa aérea americanos interceptarem um ataque do Irã contra uma base militar na Jordânia, uma ação que o presidente Donald Trump prometeu retaliar “com uma surra”‘. Os incidentes ressaltaram a fragilidade das pausas nas hostilidades em vigor desde o final da semana passada e sugerem um envolvimento cada vez maior dos sauditas no cenário militar, não necessariamente pela vontade de Riad.
De acordo com as Forças de Mobilização Popular do Iraque, organização que reúne grupos armados apoiados pelo Irã, ocorreram bombardeios em sete províncias, incluindo Bagdá, Basra, no sul, e Karbala, uma das áreas mais sagradas para o islã xiita. Ao anunciar as mortes de 20 combatentes (outros 32 ficaram feridos), o grupo disse que o número provavelmente aumentaria diante do grau de destruição. De acordo com a rede al-Jazeera, o primeiro-ministro iraquiano, Ali al-Zaidi, adiou uma visita oficial à Arábia Saudita prevista para quinta-feira. Em declarações à Fox News, Trump disse que a ação foi coordenada com Bagdá, chamando as milícias de “câncer do mundo”. A suposta coordenação, porém, não foi confirmada pelo Iraque, com o premier iraquiano, Ali al-Zaidi, chamando os ataques de “agressão inaceitável”.
A ofensiva foi anunciada no final da noite de terça-feira pelo Comando Central dos EUA (Centcom) em resposta ao lançamento de dezenas de drones contra instalações de energia na Arábia Saudita e locais usados pelos americanos no Oriente Médio desde o fim da semana passada. Em ao menos um caso, houve danos a uma refinaria saudita.
“O Reino reafirma que não busca escalada, mas responderá a qualquer agressão de que seja vítima”, afirmou na noite de terça, em comunicado, o porta-voz do Ministério da Defesa saudita, Turki al-Malki, invocando o direito à legítima defesa previsto na Carta da ONU.
EUA divulgam imagens de supostos ataques a instalações militares e postos costeiros no Irã
A decisão saudita de participar ativamente de bombardeios contra as milícias confirma um cenário que a Casa de Saud tentou evitar ao menos em público. O país está cada vez mais perto de se juntar à guerra iniciada por Donald Trump em fevereiro e vê um conflito do qual tenta se desvencilhar há anos voltar a ganhar corpo: contra os houthis no Iêmen.
O grupo armado, apoiado pelo Irã, controla parte do país vizinho e impõe desafios de segurança no Estreito de Bab el-Mandeb, na estratégica entrada do Mar Vermelho. Durante a guerra em Gaza, navios comerciais de empresas israelenses ou que tinham os portos de Israel como destino foram atacados, levando a bombardeios americanos e israelenses. Nesta quarta-feira, um ministro do governo do Iêmen acusou os rebeldes de agirem sob orientação do Irã para estabelecer um sistema de cobrança de taxas para navios que transitam pela região.
Na semana passada, em apoio a Teerã, os houthis anunciaram um bloqueio aos portos sauditas, ameaçando uma rota alternativa para o escoamento de petróleo do reino, diante dos problemas em Ormuz. Na quinta-feira, um petroleiro da Arábia Saudita foi atacado. Drones e mísseis também cruzam a fronteira com frequência.
— Os houthis parecem seguir a cartilha norte-coreana, utilizando ciclos recorrentes de provocação para obter concessões políticas e econômicas, transformando seus territórios ao sul da Arábia Saudita e do Mar Vermelho em seu palco — disse o analista político Mohammed al-Basha, ouvido pela rede CNN. — Todas as linhas vermelhas foram cruzadas, todos os botões (sauditas) foram acionados (pelos houthis).
Os bombardeios de terça-feira representam ainda riscos para o Iraque, nação que carrega as cicatrizes da invasão americana, da guerra civil do início do século e da ofensiva do grupo terrorista Estado Islâmico. Como os sauditas, o governo iraquiano tenta evitar problemas, mas sua proximidade com o Irã e o poder das milícias xiitas dentro do aparato de segurança dificultam qualquer afastamento. Nos últimos dias, Ali al-Zaidi protagonizou um périplo diplomático que incluiu Washington e Teerã, em uma tentativa para apresentar Bagdá como um terreno de diálogo, não como cenário de guerra.
Em comunicado, o influente clérigo xiita Moqtada al-Sadr disse que “o Iraque e seu povo precisam de paz” e que “já tivemos guerra suficiente, que, infelizmente, esgotou todos os recursos e a dignidade do Iraque”.
“Todos devem abraçar o espírito de fraternidade e paz e não se deixar levar pelos esquemas do inimigo sionista-americano, que visa arrastar irmãos para a luta e o conflito”, escreveu o clérigo em comunicado, no qual condenou as violações de soberania cometidas por outros países e “as ações vergonhosas das milícias”.
Nesta quarta-feira, a Guarda Revolucionária do Irã confirmou o lançamento de mísseis contra uma base americana na Jordânia, relatado na noite de terça pelo Centcom. Em comunicado, a Guarda afirma que “enquanto persistirem as ameaças contra a República Islâmica do Irã e as ações ilegais e nefastas das forças americanas contra nossos interesses, a resistência continuará”.
“As ameaças de autoridades americanas e as intervenções ilegais contra os nossos interesses devem cessar”, acrescenta o texto, sem explicar quais ameaças incitaram a resposta armada.
Embora os EUA aleguem que todos os mísseis foram interceptados, não é possível constatar de maneira independente se houve danos à base, a mesma onde, no fim de semana, morreram três militares americanos em um ataque iraniano. O incidente foi o primeiro desde a suspensão dos bombardeios dos EUA, anunciada por Donald Trump, uma decisão, segundo ele, tomada para dar fôlego à diplomacia. Em entrevista à Fox News, na manhã desta quarta-feira, ele deixou no ar a possibilidade de uma retaliação.
— Vamos dar uma surra do c…neles — disse o presidente. — Vamos bater pesado neles. Eles vão levar uma surra.
Horas antes do lançamento dos mísseis, Trump recebeu na Casa Branca o premier de Israel, Benjamin Netanyahu, e assessores afirmaram que ele apresentou ao republicano novos dados de inteligência e argumentos a favor da retomada da guerra total contra o Irã. Diante de uma guerra impopular até entre sua base e de eleições que podem definir o restante de seu mandato, Trump parece mais interessado em obter um acordo com Teerã do que em se lançar em mais uma guerra eterna. Mas o longevo premier israelense, que também enfrenta as urnas em outubro sob pressão, já demonstrou seu poder de persuasão junto ao presidente dos EUA no passado recente.

