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De tsunamis a terremotos: Entenda como a Índia se tornou uma potência na gestão de desastres naturais

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: O Globo. 07/09/2026 às 08:20

“O povo da Índia solidariza-se com suas irmãs e seus irmãos no Nepal neste momento difícil. A Índia está pronta para prestar toda a assistência humanitária possível ao Nepal”, afirmou, na quarta-feira passada, o premier indiano, Narendra Modi, horas depois da devastadora avalanche na fronteira entre Nepal e China. Nos dias que se seguiram, toneladas de ajuda e dezenas de resgatistas foram enviados ao país vizinho, em um ato de apoio a uma nação irmã, e em uma demonstração da capacidade da Índia em atuar em desastres naturais em nível global, adquirida ao custo de investimentos, políticas públicas e dolorosas tragédias nacionais.

Uma delas se abateu em um ensolarado domingo de dezembro de 2004: a devastadora tsunami no Oceano Índico, que deixou mais de 10 mil mortos na costa indiana, sendo que sete mil no estado de Tamil Nadu, no sul. Na popular praia da Marina, em Chennai, maior cidade da região, famílias, vendedores e pescadores que aproveitavam o fraco Pcalor da manhã foram surpreendidos pelo recuo do mar e, depois, por ondas de até 3 metros.

— As ondas erguiam-se da costa e avançavam ameaçadoramente. Eu sabia que não havia escapatória naquelas circunstâncias. Então, vi um tronco de catamarã flutuando. Agarrei-me a ele e sobrevivi. Este é o meu renascimento — disse, em 2005, o pescador R. Anandan, em depoimento ao jornal The Hindu, relatando o cenário de terror na Praia de Marina.

Praia da Marina, em Chennai, após o impacto inicial da tsunami no Oceano Índico, em dezembro de 2004 — Foto: AFP

A reação inicial das autoridades foi de incredulidade, seguida por confusão e por um duro choque de realidade. Uma jornalista local conta que, ao ser perguntada sobre o que faria, uma representante do governo não sabia que uma tsunami havia atingido a região meia hora antes. Os policiais não conseguiam conter as pessoas que corriam para áreas costeiras, inclusive a Praia de Marina, atrás de seus filhos, pais e amigos.

No mês passado, quando a reportagem do GLOBO visitou a Praia da Marina, não encontrou homenagens ou monumentos, mas recebeu alerta de locais sobre os perigos do mar, envolvendo as correntezas e as águas turvas. Um morador de Chennai disse que, embora as ondas tenham avançado implacavelmente pelas ruas da cidade, elas pouparam alguns templos religiosos em seu caminho: “um milagre”, definiu o interlocutor.

O desastre serviu como ponto de partida para estabelecer um sistema nacional de alerta para tsunamis, que se tornou plenamente operacional em outubro de 2007 — semanas antes, um terremoto de magnitude 8,4 na costa da Indonésia foi usado como um último teste de sua eficácia. De acordo com o Centro Nacional de Serviços de Informações Oceânicas da Índia (Incois), que opera o sistema, ele é capaz de identificar abalos e emitir alertas em 12 minutos, compartilhados com outros países da região. Em 2004, as ondas levaram duas horas até atingir a costa indiana.

— A tragédia serviu como catalisador para a criação de instituições como o Incois, que hoje é um testemunho do compromisso da Índia em proteger vidas e meios de subsistência — disse Jitendra Singh, ministro de Ciências da Terra, em dezembro de 2024, acrescentando que, em sua opinião, a Índia hoje é um líder mundial em sistemas de alertas.

Em outra linha, avançam iniciativas para o desenvolvimento de ferramentas de alerta antecipado para terremotos, em um país onde os abalos são recorrentes e, não raro, mortais, como em 2001, quando 20 mil pessoas morreram após um tremor de magnitude 7,6. Hoje, há um sistema em operação no estado de Uttarakhand, na região do Himalaia, que usa uma rede de sensores e um aplicativo que envia alertas aos usuários em caso de perigo. No ano passado, Modi pediu pressa em sua expansão.

— Há necessidade de desenvolver sistemas de alerta para terremotos, e cientistas e pesquisadores devem trabalhar nessa direção — destacou em discurso na sede do Departamento Meteorológico da Índia.

‘Diplomacia dos desastres’

 

A capacidade de reação a crises foi incorporada à agenda política do governo indiano, servindo como uma ferramenta de fortalecimento da imagem do país no cenário externo. A diplomacia humanitária, ou, como analistas a chamam informalmente, a “diplomacia dos desastres”.

Em 2005, o governo indiano enviou 900 toneladas de ajuda e forneceu uma assistência financeira de US$ 25 milhões ao vizinho e inimigo Paquistão, após o terremoto que devastou cidades e vilas inteiras na contestada Caxemira. Na ocasião, o então premier Manmohan Singh ofereceu a Islamabad “qualquer tipo de assistência que o país pudesse precisar”. A logística de transporte humanitário envolveu aeronaves militares e equipes especializadas em situações de crise.

Visão aérea de Muzaffarabad, na Caxemira administrada pelo Paquistão, após terremoto em 2005 — Foto: Boby Sheikh/AFP

Dez anos depois, a política de ajuda evoluiu, sob Modi, para um conjunto de princípios e ações interministeriais chamado Assistência Humanitária e Socorro em Desastres (HADR). Eles vão desde a elaboração do discurso da diplomacia em cenários de crise até a elaboração de planos de recuperação para as comunidades atingidas.

“Nesse contexto em evolução, a Índia tem se posicionado gradualmente como um agente confiável de resposta imediata, capaz de prestar assistência humanitária rápida a países afetados por desastres em todo o mundo”, escreveu Sachin Yadav, pesquisador do Conselho Indiano de Assuntos Mundiais, em publicado em março. “A Índia ocupa uma posição de destaque no cenário global e vem fortalecendo ativamente suas capacidades para atender às demandas crescentes de um mundo cada vez mais interconectado.”

Naquele 2015, após o terremoto que ceifou quase 9 mil vidas no Nepal, o governo lançou a Operação Maitri (“Amizade”), marcada pela mobilização de centenas de tropas, aeronaves de transporte pesado e de apoio às operações de busca e muitas toneladas de ajuda às vítimas. Os resgatistas indianos apoiaram na retirada de pessoas de áreas de risco, incluindo no acampamento base do Monte Everest, assim como no retorno dos corpos de vítimas.

Uma marca da operação foi a rapidez: seis horas após o terremoto, as equipes já estavam prontas para partir rumo ao Nepal. O roteiro se repetiu em outros desastres, como os terremotos nas Célebesa, na Indonésia, em 2018, na fronteira entre Turquia e Síria, em 2023, e em Mianmar, no ano passado. Em junho, as equipes foram mobilizadas em apenas quatro horas para a “Operação Amistad”, quando participaram dos esforços de busca das vítimas dos tremores na Venezuela. A viagem a bordo dos C-17 Globemaster III levou mais de dois dias. Nos recentes desabamentos e enchentes no Nepal, foram enviados ao menos cinco aviões com ajuda, e especialistas trabalham nas ações de busca, na retirada de cidadãos indianos e na identificação das vítimas, com a ajuda de técnicas de análise de DNA.

Equipamentos usados por unidade de elite do Exército indiano especializada em resgates, baseada em Agra — Foto: Honey Aggarwal/Ministério das Relações Externas da Índia

De acordo com integrantes do 60º Hospital de Campanha de Paraquedistas, unidade de elite especializada em resgates, ouvidos pelo GLOBO, um diferencial é o investimento em equipamentos modernos e na capacidade de autonomia em ambientes de desastre. Dentro das aeronaves, além de toneladas de ajuda às vítimas, são carregados sistemas de purificação de água, geração de energia, transporte de pessoal, laboratórios móveis e drones capazes de mapear áreas devastadas. Na Venezuela, a unidade realizou mais de 8 mil procedimentos médicos, incluindo 20 cirurgias de grande porte, e “prestou assistência e cuidados essenciais a centenas de pessoas afetadas pelo terremoto”.

“A Operação Amistad ressalta a amizade e a solidariedade duradouras entre a Índia e a Venezuela, e reflete o compromisso constante da Índia de permanecer firmemente ao lado de países parceiros em momentos difíceis, sob o espírito de ‘Vasudhaiva Kutumbakam’ — ‘O mundo é uma só família’”, afirmou o Ministério das Relações Externas, em julho.

*O jornalista viajou a convite do Ministério das Relações Externas da Índia

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