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Emirados Árabes Unidos suspendem comércio com o Irã, que ameaça países do Golfo que ajudarem os EUA

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: O Globo. 19/08/2026 às 10:13

Os Emirados Árabes Unidos anunciaram a suspensão, até novo aviso, das trocas comerciais e das transações financeiras com o Irã, poucas horas depois de acusarem Teerã de lançar dois mísseis balísticos contra a região. Em resposta, o comandante das Forças Armadas iranianas advertiu, nesta quarta-feira, que países do Golfo que prestarem qualquer tipo de apoio às operações militares dos Estados Unidos serão considerados participantes dos ataques americanos, ampliando a tensão em uma região já marcada por meses de conflito.

A decisão dos Emirados foi anunciada na noite de terça-feira pelo Ministério das Relações Exteriores, que justificou a medida pelas “escaladas regionais que comprometem a paz e a segurança regionais e internacionais”. O governo emiradense também afirmou estar “firmemente comprometido em proteger a integridade do sistema financeiro internacional”.

Pouco antes, o Ministério da Defesa dos Emirados havia emitido alertas sobre um ataque iminente com mísseis e, posteriormente, afirmou que dois projéteis balísticos lançados pelo Irã tinham como alvo a navegação marítima. Os mísseis teriam caído no mar. Teerã negou “categoricamente” ter lançado os projéteis e rejeitou as acusações de Abu Dhabi.

Ameaça iraniana

Horas depois do anúncio dos Emirados, o general Ali Abdollahi, comandante das Forças Armadas do Irã, advertiu os países do Golfo que mantêm bases ou prestam apoio às forças americanas na região.

“Queremos alertar: qualquer assistência ou facilitação prestada ao Exército agressor dos Estados Unidos equivale a uma participação nas operações militares americanas”, afirmou o general em um comunicado divulgado pela agência iraniana Mehr.

Segundo Abdollahi, Teerã acompanha a movimentação das forças americanas na região e questionou a presença de aeronaves militares, especialmente aviões-tanque, em bases dos países do Golfo.

“Parece improvável que um número tão grande de aviões militares, em particular aviões-tanque, se encontre em bases regionais sem o conhecimento dos países anfitriões”, declarou.

O comandante também afirmou que os países do Golfo que haviam declarado que não permitiriam o uso de seus territórios pelos EUA em operações contra o Irã “devem saber que estamos perfeitamente a par”.

A advertência ocorre enquanto o porta-aviões americano USS George Washington é deslocado novamente para o Oriente Médio para substituir o USS Abraham Lincoln.

Laços com Teerã

A suspensão anunciada por Abu Dhabi representa uma ruptura importante nos vínculos econômicos entre os dois países. Os Emirados, localizados a cerca de 80 quilômetros do Irã, através do Golfo Pérsico, mantêm relações comerciais e culturais estreitas com a República Islâmica há décadas, apesar das tensões políticas.

Dubai, maior cidade dos Emirados, é um importante centro comercial para o Irã e, segundo analistas, tem sido fundamental para os esforços iranianos de driblar sanções internacionais. Autoridades emiradenses, porém, afirmam que reprimem violações das sanções quando identificadas.

O comércio entre os dois países movimentou cerca de US$ 28 bilhões (aproximadamente R$ 144,4 bilhões, na cotação atual) em 2024, segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC). Naquele ano, os Emirados eram a maior fonte de importações do Irã, fornecendo ao país eletrônicos, metais preciosos e outros produtos.

Não está claro se os EUA tiveram participação na decisão emiradense. O anúncio ocorreu horas depois de uma ligação entre o presidente americano, Donald Trump, e o governante dos Emirados, Sheikh Mohammed bin Zayed.

O governo Trump vem pressionando por novas medidas econômicas contra Teerã. Na semana passada, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, afirmou que Washington poderia “aplicar medidas como nunca foram vistas na história do isolamento econômico” de um país.

Ataques no Golfo

A decisão dos Emirados ocorre em meio a uma escalada de ataques e ameaças na região. Desde o início da guerra, o país, que abriga uma importante base militar americana, registrou mais de 2.700 ataques com mísseis balísticos e drones provenientes do Irã, segundo as autoridades emiradenses.

Após um acordo inicial de cessar-fogo entre EUA e Irã, em abril, as tensões entre Abu Dhabi e Teerã haviam diminuído, com contatos entre autoridades de alto escalão e a retomada dos voos entre os dois países. Com o enfraquecimento da trégua, porém, o Irã concentrou grande parte de seus ataques no Bahrein e no Kuwait, poupando os Emirados.

Na última semana, Abu Dhabi também acusou Teerã de atacar petroleiros emiradenses que navegavam pelo Estreito de Ormuz, importante rota para o transporte mundial de petróleo e gás. No sábado, o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados classificou os ataques à navegação como uma “ferramenta de coerção ou chantagem econômica” e uma “ameaça direta à estabilidade da região”.

Na terça-feira, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o conselheiro de segurança nacional dos Emirados, Sheikh Tahnoon bin Zayed, discutiram a “coordenação entre EUA e Emirados para responsabilizar o Irã e seus representantes terroristas pelos ataques em andamento”, segundo o Departamento de Estado americano.

Sem diálogo

A escalada ocorre enquanto as perspectivas de retomada das negociações entre Washington e Teerã permanecem incertas. Trump afirmou na terça-feira que não há “qualquer conversa ou negociação em curso” com o Irã e que o bloqueio naval americano continua em vigor.

A declaração contrariou afirmações feitas na segunda-feira por Jared Kushner, emissário e genro do presidente americano, que havia descrito conversas com o Irã como “muito positivas e animadas”. Segundo uma fonte do governo americano ouvida pela AFP, os contatos foram suspensos e Trump determinou que sua equipe não retome o diálogo enquanto Teerã não se aproximar das posições de Washington.

O principal negociador iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou na terça-feira que o Estreito de Ormuz não será reaberto enquanto os EUA não cumprirem compromissos previstos em um protocolo de acordo assinado em junho. O texto estabelecia 60 dias de trégua para a negociação de uma solução diplomática, mas o prazo terminou sem um acordo concreto.

Entre as exigências iranianas estão o fim do bloqueio naval americano, a liberação de ativos iranianos congelados, a suspensão do embargo de petróleo e o encerramento das operações militares em todas as frentes.

Nesta quarta-feira, Ghalibaf, que também preside o Parlamento iraniano, viajou ao Iraque, onde defendeu o fortalecimento de uma “nova ordem” regional e denunciou a “ingerência estrangeira”. A visita ocorre enquanto os EUA pressionam Bagdá para que obrigue grupos armados apoiados por Teerã a entregar suas armas.

Durante a visita de três dias, Ghalibaf deve se reunir com o primeiro-ministro iraquiano, Ali Al Zaidi, e com o “Marco de Coordenação”, coalizão governamental que reúne partidos xiitas próximos a Teerã.

Trump também passou a defender a possibilidade de transformar o Estreito de Ormuz em um “território americano”. Apesar das declarações do presidente, o tráfego na região permanece muito abaixo dos níveis registrados antes do início do conflito.

Catar, um dos mediadores entre Teerã e Washington, afirmou na terça-feira que um acordo entre o Irã e Omã sobre o Estreito de Ormuz “facilitaria” a retomada das negociações para encerrar a guerra no Oriente Médio.

(Com New York Times e AFP)

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