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Europeus protestam contra presença da Rússia em reunião do G20 nos EUA

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: O Globo. 31/08/2026 às 14:51

A abertura do encontro dos ministros das Finanças do G20 em Asheville, nos EUA, foi marcada por um atrito entre os anfitriões americanos e aliados europeus depois da confirmação de última hora sobre a participação do representante russo, Anton Siluanov. As delegações de países ocidentais que apoiam a Ucrânia na guerra contra Moscou protestaram contra a presença do russo, ameaçando comprometer o evento, que o governo republicano quer usar para convencer países poderosos a se somarem à sua guerra econômica contra o Irã.

As principais capitais europeias têm demonstrado apoio à Ucrânia desde os primeiros dias da invasão russa, em fevereiro de 2022. Além dos pacotes de ajuda econômica e militar a Kiev, os países também têm trabalhado para isolar econômica e politicamente Moscou, e não querem dar qualquer indicativo de mudança, sobretudo em um momento em que as forças russas ampliam os bombardeios a Kiev. O convite americano a Siluanov foi considerado um constrangimento.

O vice-chanceler e ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, e homólogos de toda a Europa ameaçaram boicotar a tradicional foto oficial dos ministros, caso o ministro russo participasse. Para Berlim, a presença do russo representou uma afronta particular, pois acusa Moscou de liderar uma campanha de sabotagem em seu território, incluindo ataques cibernéticos, como forma de retaliação ao apoio à Ucrânia. Outros países do continente, como Polônia e Romênia, relataram ações hostis partindo da Rússia. A ameaça parece ter surtido efeito, já que Siluanov não apareceu no registro.

— Receber o ministro das Finanças da Rússia aqui envia um sinal que considero preocupante. Eu teria preferido uma posição clara do lado americano de que ele não seria recebido como um convidado comum — disse Klingbeil a jornalistas na tarde de segunda-feira, acrescentando ter repreendido o russo durante uma das primeiras sessões da reunião, exigindo que a Rússia ponha fim à guerra em curso e prometendo manter o apoio à Ucrânia.

A presença de Siluanov não havia sido anunciada publicamente por autoridades americanas antes da cúpula em Asheville, na Carolina do Norte, que marca o retorno dos EUA à Presidência do grupo das maiores economias do mundo. O convite marca — mais uma vez — uma mudança de posição do governo Joe Biden, cuja secretária do Tesouro Janet Yellen confrontou autoridades do Ministério das Finanças da Rússia em 2023, durante a cúpula do G20 na Índia, responsabilizando-as por mortes na Ucrânia e repercussões econômicas globais.

Em paralelo à organização do evento do G20, parte dos líderes não alinhados ao Ocidente se reuniu em Bishkek, capital do Quirguistão, para o 25º aniversário da Organização de Cooperação de Xangai (OCX). Entre os presentes estavam o presidente russo, Vladimir Putin, o presidente iraniano, Massoud Pezeshkian, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, e o presidente chinês, Xi Jinping.

Sessão plenária da reunião de ministro de Finanças do G20, em Asheville, na Carolina do Norte — Foto: Melissa Sue Gerrits/Getty Images/AFP

China e Irã

O encontro em solo americano é conduzido pelo secretário do Tesouro Scott Bessent, encarregado por Trump de liderar a aplicação do novo pacote de sanções previstos ao Irã — e a todos os países que se recusarem a cortar inteiramente as relações comerciais com Teerã. Um funcionário do Tesouro afirmou a jornalistas antes dos encontros que esses planos Irã ocupariam lugar de destaque nas discussões.

O plano americano para bloquear totalmente os fluxos comerciais do Irã foi apontado por analistas como muito difícil de ser de fato aplicado, uma vez que Teerã conta com o apoio de países como a China e a Rússia. Alguns afirmaram que sem Pequim, seria praticamente impossível fazer algo com a extensão anunciada por Washington. Em entrevista à CNBC, Bessent refutou a ideia de que os EUA precisariam de ajuda da China para sufocar a economia iraniana. Ainda assim, há sinais de pressão a Pequim.

No domingo, Bessent disse que planeja pedir aos membros do G20 que revisem seus termos de comércio com a China, em entrevista à agência de notícias Reuters, justificando que “o mundo não pode ter uma China com um superávit comercial de US$ 1,2 trilhão”, e que os demais países precisam pressioná-la a fortalecer a demanda interna em vez de depender de remessas para o exterior. A Bloomberg News informou na semana passada que Washington está prestes a impor uma tarifa de 7,5% sobre produtos chineses devido a alegações de excesso de capacidade produtiva.

Nesta segunda-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, disse que quaisquer divergências com os EUA devem ser resolvidas por meio do diálogo, e que as relações econômicas e comerciais entre os dois países “são, por natureza, mutuamente benéficas”. O representante chinês também voltou a afirmar que se opõe a medidas tarifárias unilaterais.

Guerras econômicas

Embora o Departamento do Tesouro tenha se referido ao encontro dos ministros das Finanças do G20 como uma oportunidade para buscar cooperação global e estratégias para impulsionar o crescimento, países participantes demonstraram preocupação com disputas tarifárias e conflitos prejudiciais para a economia global.

— Tudo isso é um veneno para o desenvolvimento econômico mundial — disse Klingbeil, antes das reuniões em Asheville, anunciando reuniões paralelas com representantes de Índia, Canadá e Reino Unido, buscando uma cooperação mais estreita com aqueles que “assim como nós, dependem de um comércio aberto e baseado em regras, bem como de confiabilidade e cooperação”.

Analistas apontaram que as ofensivas tarifárias de Trump, incluindo a atual frente de pressão sobre o Canadá, serão fatores de instabilidade nas conversas.

— Agora que estamos em uma guerra comercial com o Canadá, não há unidade no G7. E sem unidade no G7, é difícil chegar ao G20 e ter discussões delicadas — disse à AFP Josh Lipsky, pesquisador do centro de estudos Atlantic Council. — Acredito que a maioria dos países ouvirá [os EUA] respeitosamente, mas permanecerá cautelosa diante dos desafios macroeconômicos tanto em seus próprios países quanto nos EUA.

Arbitrariedade

Outras decisões unilaterais americanas aumentam o número de ressalvas de possíveis parceiros. Muitos europeus demonstraram contrariedade à exclusão da África do Sul, membro de longa data do G20 e maior economia da África, do encontro — motivado por acusações falsas apoiadas por Trump de que sul-africanos brancos estavam sendo mortos indiscriminadamente e que suas terras estavam sendo confiscadas.

Outra controvérsia envolveu a negativa por parte da organização a ceder credenciais de imprensa para a cobertura das reuniões a determinados repórteres americanos do The New York Times e do The Wall Street Journal, além de correspondentes da Bloomberg News de vários países. O Ministério das Finanças da Alemanha interveio junto ao Tesouro americano e conseguiu garantir uma credencial para o repórter do New York Times, chefe da sucursal do jornal em Berlim.

Também causou desconforto o fato das autoridades americanas terem convidado um grupo de executivos de empresas do país, de setores como bancos e criptomoedas, para se reunir com os líderes governamentais em uma tentativa de criar oportunidades de networking — rejeitando, porém, pedidos para incluir líderes empresariais de outros países do G20. (Com NYT, AFP e Bloomberg)

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