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Mulheres são acusadas de casar com soldados russos para lucrar com indenização por morte

As indenizações milionárias pagas pelo governo da Rússia às famílias de militares mortos na guerra na Ucrânia deram origem a um novo tipo de fraude que preocupa autoridades e provoca indignação no país. Apelidadas de “viúvas negras” por parlamentares e pela imprensa estatal, mulheres são acusadas de convencer recrutas vulneráveis a oficializar casamentos pouco antes de serem enviados ao front para, caso eles morram em combate, receber a compensação destinada aos familiares. Segundo a rede americana CNN, os casos se multiplicaram nos últimos meses e já envolvem investigações criminais, disputas judiciais e denúncias de participação de integrantes das próprias forças de segurança russas.

Soldados russos no teatro de Mariupol, fortemente bombardeado em março de 2022 — Foto: NEMENOV / AFP
Soldados russos no teatro de Mariupol, fortemente bombardeado em março de 2022 — Foto: NEMENOV / AFP

Quando um soldado russo morre na guerra, seus familiares mais próximos têm direito a uma indenização paga pelo governo a partir de 5 milhões de rublos (cerca de R$ 327 mil). O benefício foi criado para dar segurança financeira aos parentes dos militares, mas passou a despertar o interesse de golpistas que enxergam nos casamentos de fachada uma forma de ter acesso ao dinheiro.

O choque de uma filha

Foi dessa maneira que Maria, moradora de São Petersburgo, descobriu que havia perdido não apenas o pai, mas também o direito à indenização. Ela conta que recebeu dos militares russos a notícia de que Yuri, de 59 anos, havia sido baleado na linha de frente da guerra e morrido em decorrência dos ferimentos. O choque, porém, não terminou ali. Também foi informada de que o pai havia se casado apenas dois dias antes de ser enviado ao combate.

— Ainda estou em choque e ainda não consigo aceitar o que aconteceu. No começo parecia um sonho. Até hoje, às vezes acordo pensando que devo ter sonhado com tudo isso. Mas é real — diz Maria, emocionada.

Segundo ela, a esposa, 22 anos mais jovem que Yuri, era uma completa desconhecida.

— Nunca sequer falei com essa mulher. Nem sei o que dizer, porque imediatamente suspeitei que fosse um golpe — afirma.

Como viúva legal, a mulher passou automaticamente a ser considerada a parente mais próxima do militar, tornando-se a beneficiária da indenização paga pelo governo russo. A CNN informou que tentou contato com a viúva de Yuri, mas não recebeu resposta.

O caso de Maria está longe de ser isolado. Nos últimos meses, uma série de episódios semelhantes ganhou destaque na Rússia. Segundo a CNN, recrutas foram acusados de terem sido convencidos a participar de casamentos de fachada pouco antes de seguir para o front. Em alguns casos, as uniões teriam sido oficializadas quando os soldados já estavam internados em hospitais militares ou até mesmo em leitos de morte.

Um dos episódios de maior repercussão ocorreu no ano passado, quando uma enfermeira de um hospital militar foi demitida após ser acusada de se casar com cinco soldados que estavam sob seus cuidados antes que eles morressem em decorrência dos ferimentos. Segundo as acusações, o objetivo era receber as indenizações destinadas às famílias.

Guerra cria ambiente para golpes

O fenômeno ganhou força em um contexto no qual o próprio governo russo passou a incentivar casamentos entre militares desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.

Além de reforçar o discurso do presidente russo, Vladimir Putin, em defesa dos chamados “valores tradicionais”, as autoridades flexibilizaram regras para permitir que recrutas oficializassem rapidamente seus casamentos antes do embarque para o front. A televisão estatal chegou a transmitir cerimônias coletivas organizadas por governos locais para acelerar o processo.

Com a elevada mortalidade registrada em alguns setores da linha de frente, apelidada por militares e analistas de “moedor de carne”, essas uniões passaram a despertar suspeitas de familiares e das autoridades.

Em meio à deterioração da economia, à escassez de combustíveis, ao crescente número de mortos e aos ataques ucranianos em território russo, aumentaram também as cobranças para que o governo investigue os esquemas.

— As famílias dos participantes da Operação Militar Especial precisam ser protegidas de criminosos inescrupulosos, das chamadas “viúvas negras”, de golpistas financeiros, de fraudadores telefônicos e de predadores que se aproveitam daqueles que receberam indenizações — afirmou à imprensa russa o deputado Leonid Slutsky, aliado do Kremlin.

Segundo ele, esse tipo de crime já atingiu “proporções graves”.

‘É um negócio’

A repercussão do tema foi tão grande que chegou às redes sociais. Em um videocast gravado na cidade siberiana de Tomsk, no ano passado, uma corretora de imóveis sugeriu que casar com um soldado prestes a ser enviado para a guerra poderia ser uma forma de comprar um apartamento.

Após ser questionada pela apresentadora sobre como uma mulher de 30 anos conseguiria dinheiro para adquirir um imóvel, a corretora respondeu:

— É simples. Encontre um homem que esteja servindo na Operação Militar Especial. Quando ele morrer, você recebe 8 milhões de rublos — afirmou. — Muitas mulheres estão comprando apartamentos baratos desse jeito hoje em dia. É um negócio.

As duas acabaram sendo processadas, condenadas à prestação de serviços comunitários e obrigadas a pedir desculpas publicamente aos soldados e às suas famílias.

Disputas judiciais e suspeitas dentro do Exército

Os tribunais russos também passaram a lidar com disputas envolvendo as indenizações. Um dos casos mais conhecidos envolveu o soldado Georgy Kostyrko, que conheceu Angelina Varyukhina pela internet e se casou apenas dez dias depois, durante uma licença da guerra.

Segundo a mãe do militar, pouco tempo após o casamento a nova esposa passou a publicar fotos e vídeos ao lado de outros homens nas redes sociais. Georgy teria pedido o divórcio, mas morreu em combate antes da conclusão do processo, deixando Angelina como beneficiária legal da indenização.

Ela negou qualquer fraude, afirmou que havia reatado o relacionamento com o marido e disse que as imagens tinham apenas o objetivo de provocar ciúmes. Posteriormente, a Justiça retirou dela o direito ao benefício.

Também vieram à tona denúncias ainda mais graves. Segundo a CNN, investigadores russos apuraram um suposto esquema no extremo leste do país envolvendo um subtenente, um sargento e um contador militar. Eles são acusados de recrutar homens vulneráveis — incluindo órfãos e pessoas sem parentes próximos —, organizar casamentos para eles e enviá-los posteriormente para posições de maior risco na linha de frente, onde as chances de morrer eram maiores. Não houve novas informações públicas sobre o andamento da investigação.

‘Não sobrou absolutamente nada’

De volta ao apartamento onde o pai morava em São Petersburgo, Maria encontrou outro golpe. O imóvel já havia sido vendido. Os novos proprietários afirmaram à CNN que compraram o apartamento de forma regular e disseram nunca ter conhecido Yuri.

Para Maria, porém, tanto o dinheiro quanto a viúva desapareceram.

— Não sobrou absolutamente nada, e isso dói demais. Não tenho um único objeto que me faça lembrar dele. Só tenho as chaves do apartamento, que nem funcionam mais. É só isso — lamenta.