Após uma breve trégua, que na prática só foi observada por EUA e Irã, o Oriente Médio voltou a ter mísseis e drones cruzando céus e atingindo territórios na noite de quarta-feira, causando ao menos quatro mortes. Mas a nova rodada de violência traz algumas perigosas peculiaridades: novos países relataram ataques aéreos dentro de suas fronteiras, elevando o risco de serem diretamente envolvidos em um conflito ao qual se opõem desde o início.
No início da noite de quarta, o Comando Central dos EUA (Centcom) anunciou uma nova rodada de bombardeios ao Irã, em resposta ao que o Pentágono chamou de “ataque surpresa” da Guarda Revolucionária contra uma de suas bases na Jordânia. Foram atingidos ao longo da costa, desde Abadan e Ahvaz, próximas à fronteira com o Iraque, até Bushehr — onde opera uma central nuclear — e a Ilha de Qeshm, no Estreito de Ormuz. Ali, afirmam as autoridades, um míssil atingiu um complexo residencial, matando três pessoas de uma mesma família, incluindo uma criança de dois anos.
Na sequência, os governos de Jordânia e Kuwait relataram drones e mísseis em seus espaços aéreos, e o porta-voz do Ministério da Defesa kuwaitiano afirmou que um trabalhador morreu depois que um drone atingiu o prédio de uma empresa chinesa. Já na manhã de quinta-feira, a Guarda Revolucionária anunciou que dois petroleiros tentaram atravessar Ormuz por uma rota próxima à costa de Omã, mas, “após um grave incêndio em uma das embarcações, ambas retornaram rapidamente”. O comunicado não detalha se as embarcações foram atacadas pelos iranianos, o que ocorre na mesma área com frequência.
“O Estreito de Ormuz é nossa terra, e os marinheiros da Marinha da Guarda Revolucionária Islâmica têm total controle sobre ele, e nenhum forasteiro vindo de milhares de quilômetros de distância terá permissão para interferir”, acrescenta o texto. “Os países que apoiarem o agressor receberão uma resposta severa se não corrigirem seu comportamento.”
Mais do que elevar o risco da retomada dos bombardeios diários protagonizados por EUA e Irã, suspensos brevemente por ordem do presidente americano, Donald Trump, a nova rodada de hostilidades traz novos e perigosos elementos.
Ainda no fim de semana, quando a trégua estava em vigor, drones de grupos armados associados ao Irã — as Forças de Mobilização Popular (PMF), no Iraque, e os houthis, no Iêmen — lançaram ataques contra a Arábia Saudita, causando estragos à infraestrutura petrolífera do país. Ao menos um petroleiro saudita foi atingido no Estreito de Bab el-Mandeb, ponto de entrada para o Mar Vermelho, e onde os houthis há anos são uma ameaça à navegação.
Em resposta, americanos e sauditas bombardearam posições das PMF em território iraquiano, deixando cerca de 20 mortos e mais de 40 feridos. Um dos ataques ocorreu a alguns quilômetros da fronteira iraniana, provocando protestos de Teerã. Bagdá adiou a viagem do primeiro-ministro, Ali al-Zaidi, a Riad, e afirmou nesta quinta-feira não ter evidências de que seu território foi usado para atacar a Arábia Saudita.
— O governo não tolerará quaisquer ações unilaterais originadas dentro do Iraque e, ao mesmo tempo, não aceitará nenhuma violação proveniente de fora de suas fronteiras — disse o porta-voz do Gabinete iraquiano, Sabah al-Numan, à agência estatal de notícias.
Em outro incidente, igualmente grave, drones atingiram o porto de Damietta, no Egito, provocando estragos em dois navios, um deles de bandeira americana. Sem atribuir culpa, as autoridades locais afirmaram que vão investigar o incidente e agir “para proteger os interesses e a segurança nacional do Egito”. O porto é um importante terminal de exportação de gás liquefeito de petróleo para a Europa e para o governo egípcio, que opera a instalação no Mar Mediterrâneo. Ninguém assumiu a autoria do ataque, mas Trump sugeriu que o Irã estava por trás da ação e que se tratava de “mais do mesmo”.
Não está nítido até que ponto vai a nova rodada de hostilidades protagonizada por Irã e EUA, mas a diversificação dos alvos pode forçar a entrada de novos atores no conflito.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2026/X/9/1FjcUSScaUBl2eURvGjA/115798636-this-handout-photograph-taken-and-released-by-the-damietta-port-authority-on-july-30-2026.jpg)
Os sauditas parecem dispostos a atuar contra forças não estatais, como os houthis, com quem mantêm uma guerra de idas e vindas no Iêmen desde a década passada, mas não a um engajamento contra Teerã. A Jordânia, um novo alvo preferencial, se mantém à parte, mas um movimento contra a presença das tropas americanas — são cerca de 4 mil — ganhou força. Na semana passada, centenas de personalidades assinaram uma carta exigindo a retirada dos militares, em um raro desafio público à monarquia. O Egito, uma das mais poderosas forças militares da África e um ator político influente no mundo árabe, ainda não sinalizou como e se vai responder ao ataque em Damietta.
— Um interesse e um objetivo comuns, muito claros e fortes entre todos os Estados árabes geograficamente próximos a esse conflito, são garantir que evitem qualquer confronto direto e não caiam na armadilha de acabar participando dessa troca de ataques de retaliação — disse à rede al-Jazeera Zeidon Alkinani, diretor fundador do Arab Perspectives Institute e pesquisador não residente do Middle East Council on Global Affairs.
Em paralelo, o Paquistão, que atuou como mediador no agora finado memorando de entendimento entre Washington e Teerã, afirmou que busca ao máximo fazer com que americanos e iranianos voltem à mesa de negociações. No momento, apenas conversas em nível técnico estão sendo conduzidas, e o Irã rejeitou esta semana uma proposta de Omã para a gestão conjunta do tráfego no Estreito de Ormuz.
— Em meio às tensões e hostilidades predominantes, o Paquistão reitera que o diálogo e a diplomacia continuam sendo o único caminho viável a seguir — disse o porta-voz da Chancelaria paquistanesa, Tahir Andrabi.
Na terça-feira, a “Operação Fúria Épica” completou cinco meses, sem que seus objetivos tenham sido transmitidos com nitidez ao público. Em vez disso, o conflito transformou o status quo do Oriente Médio, com impactos duradouros e perigosos. E a indefinição de Trump sobre o que fazer daqui para a frente torna o cenário ainda mais desafiador
— O presidente dos Estados Unidos ainda não parece ter decidido se quer uma solução negociada para isso ou se pretende buscar algum tipo de desfecho militar, algo que todos os observadores que conhecem a situação no Irã e trabalharam no Golfo consideram altamente improvável de funcionar — disse Nicholas Hopton, ex-embaixador britânico no Irã, no Catar e no Iêmen, em um seminário na quarta-feira, classificando a guerra como uma “aventura desastrosa” que não pode ser vencida apenas por meios militares.
(Com The New York Times)



