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Presidente interina da Venezuela ‘rebate’ Trump e diz que país manterá controle de seu petróleo

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: O Globo. 31/08/2026 às 14:57

A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, garantiu no sábado que o país manterá o controle de seu petróleo após o novo acordo firmado com os Estados Unidos. A declaração contraria a versão apresentada pelo presidente americano, Donald Trump, que um dia antes anunciou que as duas nações haviam fechado “o maior acordo de petróleo da História mundial” e que os EUA haviam “assegurado controle majoritário” dos mais de 65 bilhões de barris das reservas venezuelanas, dobrando as reservas de Washington.

— Uma coisa deve estar completamente clara: a Venezuela retém a posse e soberania sobre seus recursos — afirmou Rodríguez em pronunciamento na televisão estatal.

Rodríguez esclareceu que os 17 “campos estratégicos” que ficarão sob controle americano continuam pertencendo à Venezuela. A meta é elevar a produção para 1,5 milhão de barris por dia.

Pelo acordo, a Venezuela receberá US$ 19 (cerca de R$ 99) por cada barril vendido. Para Rodríguez, a parceria tem como objetivo transformar os recursos subterrâneos, atualmente “frios e inertes”, em uma fonte de “bem-estar econômico e social” para a população, através de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 519 bilhões) de investimentos privados de empresas americanas que teriam o objetivo de revitalizar a indústria do país.

A presidente interina, que classificou o acordo como histórico, estima que ele gere US$ 204 bilhões (cerca de R$ 1,06 trilhão) em receita fiscal para o país, embora não tenha detalhado como esse dinheiro chegará à população nem informado o valor que a Venezuela poderá receber por outras fontes, como royalties.

Pressão sobre o governo

A justificativa de Delcy Rodríguez — que foi vice do presidente Nicolás Maduro, preso e deposto pelo governo Trump — é uma resposta a críticas nas redes sociais, inclusive entre apoiadores do chavismo, que temem que a parceria com Washington represente uma perda de soberania sobre as riquezas do país, com poucos benefícios para a população e um alto custo político.

— Não sabemos quem se beneficiará com isso, se a Venezuela ou eles (os Estados Unidos). Tenho minhas dúvidas, mas temos que esperar para ver o que acontece — diz à AFP Jesús Salazar, segurança privado de 68 anos.

O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), que está no poder, reafirmou no sábado seu apoio à decisão. A legenda afirmou defender medidas econômicas que priorizem os interesses nacionais e permitam superar os efeitos de mais de “uma década de sanções econômicas, medidas coercitivas e bloqueios injustos impostos ao país”, segundo a AFP.

Sob pressão de Washington, Rodríguez promoveu nos últimos meses reformas para abrir os setores de petróleo e mineração — historicamente protegidos pelo Estado — ao capital privado, especialmente estrangeiro. Ao mesmo tempo, os EUA começaram a flexibilizar as sanções contra o setor petrolífero venezuelano.

Produção e pobreza

Durante os anos Maduro, o PSUV se mostrou crítico das sanções americanas à economia do país. Washington tem revertido estas medidas sobre o setor petrolífero venezuelano agora sob o comando de Delcy, e a produção cresceu para 1,2 milhão de barris ao dia (uma alta de 29,8%) entre janeiro e julho, mas ainda muito abaixo dos 3 milhões atingidos diariamente há 25 anos.

O novo acordo pretende recuperar parte dessa capacidade — como é de interesse dos EUA. A petroleira americana Chevron já estaria em negociações avançadas para expandir sua operação no país. No entanto, especialistas avaliam que o aumento expressivo da produção levará anos.

O engenheiro Oswaldo Felizzola, especialista em petróleo, estima que os efeitos poderão começar a ser percebidos somente daqui a três ou quatro anos. Para ele, a entrada de empresas americanas pode funcionar como uma garantia para investimentos em um setor que não consegue atrair capital significativo há mais de uma década.

— Se não fosse assim, esses campos não seriam explorados nos próximos 10 ou 15 anos, porque a PDVSA (Petróleos da Venezuela) não tem os recursos econômicos para isso — destaca Felizzola, professor do Instituto de Estudos Superiores em Administração, à AFP.

Uma operação dessa magnitude poderia acelerar a recuperação econômica da Venezuela, que ainda tenta se recuperar de uma contração de cerca de 80% entre 2014 e 2021.

Essa é uma das principais expectativas de venezuelanos que enfrentam uma grave deterioração do poder de compra. Segundo estimativas privadas, o salário mínimo mensal equivale a apenas US$ 0,16 (cerca de R$ 0,83), enquanto benefícios estatais podem chegar a US$ 240 (R$ 1.247) por mês. O custo estimado da cesta básica, por sua vez, é de US$ 730 (R$ 3.795).

— Se eles querem o petróleo daqui, da Venezuela, têm que pagar pelo preço atual, porque a Venezuela não vai dar o petróleo de graça — afirma Carlos Baco, funcionário público de 74 anos.4

Ele espera que o aumento da receita do petróleo melhore a economia, mas afirma que ainda não sentiu os efeitos da recuperação da produção.

— Até agora, não vimos nada. O consumo e os alimentos estão mais caros… o dólar sobe, e os preços das mercadorias também, tudo sobe, transporte, tudo. Isso é impossível aqui — ressalta.

Mais dúvidas do que certezas

Para o analista Elías Ferrer, a chegada de investimentos na Venezuela é positiva apesar das condições do acordo.

— Sem dúvida, isso é melhor do que antes, porque esse petróleo não estava sendo explorado. Se ninguém o explora, ninguém paga royalties e ninguém se beneficia dele — explica.

Segundo Ferrer, os EUA definem os termos da negociação, mas o benefício para a Venezuela dependerá da forma como o acordo será implementado.

— Poderia ser melhor do que este acordo? Muito provavelmente, sim — diz.

A ex-vice-ministra de Energia da Venezuela Dolores Dobarro também vê potencial na parceria.

— Se tudo for feito corretamente, será uma grande oportunidade para a Venezuela ver seu setor petrolífero se reerguer — afirma.

(Com AFP)

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