Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estiveram no centro da construção e sustentação das instituições que regem a ordem internacional, o que ajudou o país a projetar uma imagem de um dos principais defensores da democracia no mundo. Hoje, porém, esse status passa por um período de acelerada deterioração. Internamente, o país teve seu pior resultado desde 1975 em diversos indicadores democráticos importantes, segundo o relatório anual do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (Idea), publicado no início da semana. Mas os impactos dessa crise — atribuída pelos autores em grande parte à atual administração de Donald Trump — não são apenas domésticos, agravando a erosão democrática global em um período já marcado pelo aumento dos conflitos violentos, fenômenos que o relatório conecta, embora sem relação direta de causa e efeito.
Segundo o relatório, pelo 11º ano consecutivo, houve mais países onde a democracia foi corroída — 57% — do que países onde ela se fortaleceu, em uma tendência mundial de declínio democrático que, nos EUA, vem se manifestando mais expressivamente nestes dois primeiros anos de Trump 2.0, explicou ao GLOBO o diretor do Idea, Kevin Casas-Zamora:
— Vemos uma epidemia mundial de negacionismo eleitoral, e o “paciente zero” dessa epidemia foi o atual ocupante da Casa Branca — diz.
O país registrou, de 2020 a 2025, quedas significativas em macroindicadores de governança representativa, direitos civis e Estado de Direito, sem avanços correspondentes no mesmo período. Entre os eixos afetados estão o acesso à Justiça, a igualdade econômica, um Parlamento eficaz, a liberdade de expressão e de imprensa e a independência judicial.
Embora parte desses problemas anteceda o segundo mandato do republicano — alguns remontam ao seu primeiro governo, de 2017 a 2021, enquanto outros têm raízes mais profundas historicamente — essa queda se acentuou nos últimos anos e por diversos meios.
Desde seu retorno à Presidência em 2025, Trump trabalha com afinco para ampliar os poderes da Casa Branca em detrimento do Congresso, do Judiciário e de outras instituições do Executivo, restringiu a liberdade de imprensa e de expressão, pressionou universidades e organizações críticas, e adotou rígidas políticas de imigração que, segundo o relatório, enfraqueceram as garantias de devido processo legal.
O documento também aponta as inúmeras ameaças e processos contra opositores e manifestantes, além do descumprimento de decisões judiciais, entre outros fatores que contribuíram para a queda dos índices internos.
— Os EUA apresentaram desempenho consistentemente elevado na maioria de nossos indicadores por muitos anos. Então, a velocidade com que as pontuações caíram é alarmante porque mostra que até mesmo países com desempenho elevado estão sujeitos a uma grave deterioração democrática — alerta Casas-Zamora.
Para a diretora-geral de Segurança Nacional e Política Internacional do Center for American Progress, Allison McManus, tudo isso reflete a postura “fundamentalmente antidemocrática” do governo Trump e também reverbera na atual política externa de Washington, com o afastamento de aliados democráticos, aproximação com líderes autoritários (como no caso do apoio fracassado a Viktor Orbán, nas eleições da Hungria) e a crescente desconfiança nos espaços multilaterais.
— Quando a nação mais poderosa do mundo decide se retirar do sistema internacional, um dos resultados é o enfraquecimento da viabilidade desse sistema para os demais países — enfatiza McManus ao GLOBO.
De fato, desde 2025, Trump, entre outras muitas idas e vindas, retirou os EUA da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Acordo de Paris, deixou o Conselho de Direitos Humanos da ONU e determinou a saída de dezenas de outras organizações internacionais voltadas à democracia, clima e desenvolvimento. Também passou a questionar repetidamente os compromissos com instituições como a própria Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ameaçando deixá-la, e a ordem internacional como um todo.
Munição aos semelhantes
Um dos exemplos concretos dessa mudança de posicionamento foi o desmantelamento da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), em 2025, sob alegações de “fraude, abuso e desperdício” por parte da administração. A medida culminou em impactos na saúde global, segurança alimentar, educação e populações afetadas por conflitos, além de projeções assustadoras sobre as mortes decorrentes desse desmonte.
Além disso, ao pôr a atuação da agência em xeque, Trump também deu argumento a governos autoritários que já buscavam restringir a atuação de entidades independentes — como na Sérvia, onde o presidente Aleksandar Vucic usou as acusações contra a Usaid para justificar batidas policiais contra organizações civis.
— As ações dos EUA serviram de munição para líderes não democráticos em outras partes do mundo e deram aval para que outros também desviassem sua atenção do apoio à democracia — afirma Casas-Zamora.
Esse efeito também foi analisado pelo pesquisador Thomas Carothers, do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, em artigo publicado na semana passada. “Dada a influência dos EUA (…), parece muito provável que o comportamento antidemocrático assertivo e implacável de um presidente americano (…) esteja influenciando outros líderes com inclinações políticas semelhantes”, escreveu.
O relatório da Idea cita exemplos de casos similares. Um deles é o Brasil, onde a tentativa do então presidente Jair Bolsonaro de permanecer no poder após a derrota nas eleições de 2022, seguida pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, ecoou os desdobramentos da eleição americana de 2020 — que Trump alega, sem provas, ter sido fraudada em benefício do democrata Joe Biden.
As tentativas americanas de influenciar eleições na América Latina, bem como ações e ameaças envolvendo a Colômbia, Cuba, México, Panamá, Groenlândia, Canadá e Venezuela (com a captura de Nicolás Maduro no início do ano) também são fatores que contribuem para alimentar desconfianças e enfraquecer as democracias pelo mundo, destaca o relatório.
Gastos militares em alta
Essa deterioração democrática, que se estende globalmente há 11 anos, ocorre em paralelo ao aumento da insegurança internacional e das guerras em curso, com a ampliação de gastos militares. Embora ressalte que democracias não atacam democracias, o relatório evita fazer uma relação de causa e efeito entre a deterioração democrática e as guerras. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo, despesas militares globais chegaram a US$ 2,8 trilhões (R$ 14,3 trilhões) em 2025, também no 11º ano consecutivo de alta.
O estudo analisou 174 países a partir de 155 indicadores, reunidos de 23 fontes de dados. Aproximadamente 57% dos analisados registraram um declínio em pelo menos um indicador. Também foram registrados avanços, inclusive no Brasil (cujos avanços foram os maiores nas Américas), Polônia, Sri Lanka e Síria (sobretudo por conta da queda de Bashar al-Assad).

