Modelos de redação usados no Brasil e no mundo alimentam debate sobre novo formato do Enem
Previsto para ser apresentado até o fim deste ano, o novo formato de redação que deve vigorar no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) a partir de 2028 já começa a ser debatido por especialistas. Por enquanto, têm sido discutidas alternativas para ampliar as possibilidades de produção textual dos candidatos e deixar para trás um modelo considerado mais engessado por educadores.
O assunto foi comentado pelo ministro da Educação, Leonardo Barchini, durante sabatina no 10º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação (Jeduca), em São Paulo, na última quarta-feira. Barchini confirmou que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão vinculado ao MEC responsável pela aplicação do Enem, já organizou um grupo técnico dedicado à reformulação do exame.
Provas envolvendo diferentes gêneros textuais já são aplicadas no país em vestibulares como os da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de São Paulo (USP). O exame da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), responsável pelo preenchimento de 70% das vagas (outros 30% são pelo Enem), propôs este ano, por exemplo, dois gêneros textuais, e o aluno deveria escolher um deles para produzir. A primeira sugestão consistia em um texto dissertativo-argumentativo, no qual os vestibulandos deveriam defender um ponto de vista sobre determinado tema. No outro, a missão era redigir uma carta a uma personagem hipotética, encaixada em um determinado viés.
A ideia segue o modelo utilizado pela Unicamp desde 2020, em que os estudantes escolhem uma proposta de redação com um gênero textual específico. O exame já propôs produção de nota de esclarecimento, depoimento pessoal, carta-denúncia, discurso político, apresentação de projeto de lei, texto de convocação e abaixo-assinado. Os critérios de correção dos dois vestibulares também são semelhantes: adequação à proposta temática, compreensão e produção do gênero textual solicitado e domínio da norma-padrão da língua portuguesa são algumas das competências cobradas.
Embora a variedade de gêneros possa suscitar dúvidas quanto à objetividade na correção, o coordenador de linguagens do pH, Thiago Braga, acredita que os critérios de avaliação da universidade de Campinas permitem a aferição da proficiência dos alunos, sem julgamentos a respeito de criatividade ou que envolvam a opinião do corretor:
— É perfeitamente possível fazer uma avaliação valendo-se dessas características de dois textos um pouco menores ou de um gênero textual com o qual o aluno não teve contato prévio. O que você quer medir, na verdade, é a capacidade de organização textual desse aluno, se ele consegue colocar um raciocínio em forma de texto, se tem vocabulário para isso, se ele consegue organizar as ideias por meio de conectivos, se tem algum repertório. São habilidades que você consegue medir.
Silvia Maria Brandão, doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade estadual Paulista (Unesp), frisa que o modelo de diferentes gêneros pode ser crucial para exercitar a flexibilidade cognitiva dos alunos, em um cenário de dificuldades de escrita e leitura. Divulgados este mês, os resultados do Pisa 2025, avaliação internacional que mede o desempenho de estudantes de 15 anos de 91 países, mostraram que 51% desses brasileiros não alcançaram o nível mínimo de proficiência em leitura, que pressupõe a capacidade de “localizar informações com base em critérios explícitos e refletir sobre o propósito dos textos”.
— Essa flexibilidade cognitiva inclui, por exemplo, a capacidade de caminhar por diferentes situações e desenvolver argumentos. No Enem atual, os vestibulandos ficam presos a um modelo mais engessado e específico de gênero textual, inclusive fora de circulação na esfera social do estudante, e isso banaliza a escrita — avalia Silvia.
Exemplos internacionais
O ministro Barchini afirmou, na quarta-feira, que o grupo técnico do Inep também avalia experiências internacionais. França, África do Sul, China e Estados Unidos se destacam com modelos de provas de vestibular ou conclusão do ensino médio que fazem diferentes propostas de redação.
Na África do Sul, a prova de conclusão do ensino médio, usada para ingresso em universidades, prevê a produção de três textos de variados gêneros, que podem ser reflexivos, argumentativos, discursivos, descritivos ou narrativos. Em 2025, houve até propostas de texto no formato de mensagem do WhatsApp, guia de instruções, e-mail e resenha.
No vestibular unificado da França, o Baccalauréat (BAC), alunos que tentam ingresso na universidade devem escolher entre um comentário de um texto literário ou uma reflexão pessoal. Já para seguir em áreas técnicas, há opção de texto argumentativo e opinativo.
Na China, estudantes que prestam o Gaokao produzem uma redação de 800 palavras, no estilo dissertativo-argumentativo, sobre o tema apresentado em um texto de referência. Nos Estados Unidos, o SAT, teste padronizado utilizado nos processos de admissão para universidades, também fornece um texto-base, e os vestibulandos devem produzir uma redação que identifique os argumentos utilizados pelo autor para persuadir o leitor.
Independentemente de quais serão as mudanças, especialistas acreditam que a definição dos critérios escolhidos para medir a proficiência do aluno e o esclarecimento rápido das alterações são parte importante do processo.
— O desafio é a criação dessas rubricas, que deve ser feita de forma clara, objetiva. Foi por causa da correção, feita para milhões de pessoas, que a redação do Enem se tornou tão objetiva — diz Silvia Brandão.
Já Thiago Braga afirma que, para não prejudicar alunos do 1º ano do ensino médio em 2026, que serão os primeiros a fazer este possível novo Enem, o trabalho do Inep deve ser preciso:
— Se a mudança for muito grande, talvez algumas escolas não consigam acompanhar sem trabalho específico para adaptação. (*Estagiário sob supervisão de Daniela Dariano)