Guerra entre cartéis rivais faz crescer assassinatos e desaparecimentos de mulheres no México
Faz quase um ano que sua irmã mais nova, Cecilia, desapareceu, e Nadia Berrelleza mal consegue dormir. Em vez disso, ela passa as noites em busca de pistas, refazendo os últimos passos de Cecilia e examinando mensagens, fotografias e vídeos que supostamente revelam seu destino. Uma das imagens que ela recebeu mostrava uma jovem de cabelos longos, cacheados e negros — iguais aos de Cecilia — ajoelhada e vendada, com as mãos amarradas, cercada por homens armados. Os investigadores disseram que a imagem foi gerada por inteligência artificial. Outro vídeo enviado pelo Facebook mostrava uma mulher sendo agredida sexualmente. O remetente exigiu uma recompensa.
— Conheço perfeitamente o rosto dela; jamais acreditaria que fosse ela — disse Nadia Berrelleza. — Mas ainda assim é horrível ver aquilo.
Cecilia Berrelleza, de 31 anos, desapareceu em julho de 2025 após almoçar com amigos em Mazatlán, cidade litorânea do estado mexicano de Sinaloa. Desde então, Nadia tem feito apelos às autoridades e ao público, chegando a oferecer seu carro como recompensa pelo paradeiro de Cecilia. A atenção recebida, segundo ela, gerou diversas pistas, mas também oportunistas que tentam extorqui-la com falsas alegações sobre o paradeiro de Cecilia.
O desaparecimento faz parte de uma onda de violência que tornou o estado de Sinaloa o mais perigoso do país para as mulheres. Coincide também com uma guerra entre duas facções do Cartel de Sinaloa, que enfraqueceu a segurança e aterrorizou o estado durante dois anos. Os confrontos tornaram-se tão generalizados que as fronteiras entre violência doméstica, violência de gênero e retaliação dos cartéis frequentemente se sobrepõem.
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No ano passado, 105 mulheres foram assassinadas em Sinaloa, o maior número em 14 anos e quase o dobro do total do ano anterior, enquanto outras 299 desapareceram. Setenta e três desses assassinatos foram investigados como feminicídios, termo usado para descrever crimes motivados por questões de gênero. Em julho, Sinaloa voltou a liderar o país em número de mulheres assassinadas, e 153 mulheres desapareceram.
Em março de 2025, Vivian Karely Aispuro, de 26 anos, foi a uma festa com a irmã e as amigas. Ela nunca voltou para casa. Dias depois, seu corpo foi encontrado em uma estrada de terra em Culiacán. Seus familiares acreditam que uma conhecida a dopou e a levou para a casa do ex-namorado, acusado de seu assassinato. Os promotores afirmam que ele a golpeou no rosto com uma caneca de cerveja e a deixou sangrar até a morte.
A irmã de Vivian, Alma Daniela, disse que ela havia mudado muito durante o namoro: tornou-se retraída, ansiosa e insegura em relação à sua aparência; submeteu-se a procedimentos estéticos, quase não comia e vivia com medo.
Presas fáceis
Em todo o estado, mulheres são assassinadas por seus maridos ou parceiros dentro de suas casas. Meninas são mortas a tiros intencionalmente em plena luz do dia ou atingidas no fogo cruzado enquanto capangas de facções rivais travam guerras. Algumas desaparecem. Outras são sequestradas, torturadas e encontradas em valas comuns clandestinas, ou nunca são encontradas.
A maioria dessas mortes e desaparecimentos permanece sem solução, já que os investigadores, sobrecarregados pela guerra entre os cartéis, lutam para acompanhar o ritmo, dizem especialistas. Lydia Ojeda, pesquisadora da Universidade Autônoma de Sinaloa que estuda feminicídios, descobriu em uma análise que apenas 8% de todos os casos de feminicídio entre 2015 e 2026 resultaram em condenação.
Esse número reflete uma crise mais ampla no México, onde aproximadamente 95% dos crimes violentos, incluindo homicídios, permanecem sem solução, de acordo com grupos de pesquisa. A impunidade muitas vezes leva os familiares a se tornarem investigadores, detetives e equipes de busca por conta própria, o que pode ser um trabalho perigoso.
Certa vez, após receber uma denúncia de que Cecilia estava sendo forçada a trabalhar para o cartel, Nadia Berrelleza disse que dirigiu até um rancho nos arredores de Mazatlán disfarçada de homem, apenas para se deparar com um grupo de vigias armados em motocicletas. Ela fugiu imediatamente.
Em outra ocasião, após saber que sua irmã estava sendo mantida em um esconderijo de drogas, Nadia Berrelleza disse que se disfarçou de moradora de rua, empurrando um carrinho enquanto fingia falar sozinha para investigar a casa. A polícia invadiu o local posteriormente e encontrou armas e drogas, mas nenhum sinal de Cecilia, contou Nadia Berrelleza.
— Isto é um ninho de cobras — disse ela. — Os bons estão em menor número que os maus, e os bons e as autoridades estão com medo. Ninguém pode realmente nos ajudar.
Berrelleza elaborou uma teoria sobre o que aconteceu com sua irmã.
No dia em que desapareceu, Cecilia foi almoçar com três amigas. Uma delas levou o grupo até a casa do namorado, segundo Nadia Berrelleza, onde Cecilia e outra amiga foram filmadas por câmeras de rua sendo algemadas e levadas embora de carro.
Berrelleza disse acreditar que a mulher que dirigia o carro de Cecilia trabalhava para uma das facções do Cartel de Sinaloa. Ela acredita que a mulher recrutava jovens mulheres com promessas de luxo, viagens e dinheiro, antes de entregar algumas delas a membros do cartel para exploração sexual. Mas a mulher não está sendo investigada como suspeita. Segundo o processo, ela alega que também foi sequestrada e libertada após três dias.
A polícia local e a Procuradoria-Geral de Sinaloa se recusaram a comentar o caso.
As circunstâncias do desaparecimento de Cecilia permanecem obscuras. Mas o relato de sua irmã mostra como as mulheres são cada vez mais atraídas para o submundo dos cartéis como recrutadoras, mensageiras ou cúmplices, tornando-se também alvos, o que por vezes confunde a linha divisória entre vítima e agressor.
Pesquisadoras e defensoras dos direitos das mulheres afirmam que a crise de segurança mais ampla no México fez com que a violência contra as mulheres caísse na lista de prioridades do Estado, criando mais oportunidades para que os agressores ajam com maior impunidade e deixando as vítimas com menos recursos para recorrer.
— É a tempestade perfeita que transforma as mulheres em presas fáceis — disse Ojeda. — Seja o agressor um membro de um cartel ou um ex-marido, as condições são sempre as mesmas: impunidade, negligência institucional e uma sociedade consumida pela violência.
Entrevistei Ojeda no mês passado em Culiacán, capital de Sinaloa. Exatamente no mesmo instante, um homem armado se aproximou de uma mulher de 23 anos que estava sentada em frente a uma floricultura do outro lado da cidade e atirou em sua cabeça.
Na sangrenta guerra entre cartéis que já ceifou mais de 4.000 vidas em Sinaloa, as mulheres se tornaram ativos estratégicos e alvos estratégicos.
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Novos papéis
Entrevistas com quatro membros do Cartel de Sinaloa — três homens e uma mulher — de facções rivais revelaram alguns dos motivos por trás do aumento de assassinatos e desaparecimentos de mulheres. Falando sob condição de anonimato devido à natureza ilegal de suas atividades, eles descreveram uma organização consumida pela suspeita, enquanto enfrenta uma repressão governamental intensificada.
Nesse contexto, disseram eles, as mulheres se tornaram alvos por causa do que sabem.
Os relacionamentos delas com namorados, maridos, irmãos, chefes e amigos há muito tempo lhes dão acesso às informações mais sensíveis dos cartéis: onde os altos funcionários se escondem, quais casas seguras eles usam, onde as armas e as drogas são armazenadas e como o dinheiro é lavado, disse um alto funcionário.
Agora, segundo os quatro agentes, as mulheres em Sinaloa estão sendo cada vez mais sequestradas sob suspeita de compartilhar essas informações com as autoridades ou facções rivais. Outras são alvos porque namoraram o homem errado, mantiveram amizade com a namorada de um traficante suspeito ou até mesmo recusaram as investidas românticas de um membro do cartel, disseram os agentes.
Este ano, Nemesio Oseguera Cervantes, líder de um cartel rival chamado Cartel Jalisco Nova Geração, foi encontrado depois que agentes de inteligência seguiram sua amante até seu esconderijo. Ele foi morto em um tiroteio com as forças de segurança mexicanas.
Antes da guerra entre cartéis, as mulheres eram as principais responsáveis pela lavagem de dinheiro, transporte de mensagens ou guarda de drogas e armas. Mas, com a morte ou prisão de centenas de pistoleiros, as mulheres agora ocupam posições antes reservadas aos homens. Elas organizam sequestros, supervisionam interrogatórios e, às vezes, até cometem assassinatos, segundo dois membros do cartel, incluindo uma mulher de 40 anos que distribui os pagamentos aos cartéis em Culiacán.
Facções rivais também sequestram, matam ou fazem desaparecer as esposas, namoradas, irmãs e mães de seus inimigos como retaliação ou para enviar uma mensagem, disse a agente. Outras mulheres, acrescentou ela, são mortas simplesmente porque viram ou ouviram algo.
Antes da guerra, a agente disse que era dona de um salão de manicure. Depois que a violência destruiu seu negócio, ela começou a ajudar seu parceiro a transportar drogas e armas pela cidade, antes de se juntar ao cartel em tempo integral.
— Se você for uma mulher dirigindo com uma criança no carro, eles não vão revistá-la — disse ela. — A polícia ou os militares simplesmente deixam você passar.