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Da desconfiança à reta final: a caminhada de Flávio Bolsonaro no 1º turno

Por Redação Juruá em Tempo.
Da desconfiança à reta final: a caminhada de Flávio Bolsonaro no 1º turno
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A candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência passou os primeiros meses sob uma dúvida que o próprio senador ajudou a alimentar: ele iria mesmo até o fim? Dois dias depois de anunciar que disputaria o Planalto, em dezembro de 2025, Flávio admitiu que poderia desistir em troca de um “preço”. No dia seguinte, recuou e afirmou que seu nome era “irreversível”.

Dez meses depois, Flávio Bolsonaro chega ao primeiro turno, neste domingo (4/10), sem alianças partidárias e com um vice do próprio PL, mas em uma posição eleitoral bem diferente da largada. No Datafolha mais recente, Lula aparece com 45% dos votos válidos, contra 40% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. Os demais têm 4% ou menos.

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O caminho até esse ponto teve resistência dentro da própria direita, crises com aliados e familiares e dificuldades para ampliar a chapa para além do PL.

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Flávio entrou na disputa depois de ser escolhido pelo pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que àquela altura estava preso, condenado por tentativa de golpe de Estado e inelegível.

A escolha, porém, não encerrou as dúvidas dentro da própria direita. A desconfiança em torno do nome de Flávio — alimentada pelo próprio senador no início da pré-campanha — deu força às articulações por outras candidaturas, principalmente a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Para se firmar, Flávio precisou enfrentar fogo amigo e contou com a força do pai, que, mesmo preso, continuava no centro das decisões eleitorais do grupo. Jair Bolsonaro manteve a escolha pelo filho, que também foi “ungido” como o seu porta-voz, e endossou o senador como responsável por conduzir articulações eleitorais.

Aliados de Flávio avaliam que o candidato que chegará às urnas neste domingo é diferente daquele que iniciou a pré-campanha cercado de dúvidas. Apesar do fogo amigo e das sucessivas crises, o senador conseguiu, na avaliação desse grupo, sobreviver ao incêndio e se consolidar na disputa.

Master abriu crise na pré-campanha

Em maio, vieram a público conversas de Flávio com o ex-dono do Banco Master Daniel Vorcaro. O senador confirmou que pediu dinheiro ao empresário para financiar Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Vorcaro repassou R$ 61 milhões ao projeto. Flávio negou ter recebido qualquer vantagem pessoal ou oferecido contrapartidas. Em agosto, a Polícia Federal abriu inquérito contra o senador em que apura a destinação do dinheiro.

Surpresos com as informações, que não haviam sido antecipadas por Flávio, aliados e integrantes da campanha temeram novas revelações, colocaram em dúvida a confiança no senador e fizeram críticas à forma como ele reagiu ao caso.

 

O episódio também atrapalhou a busca de Flávio por alianças. Àquela altura, a campanha tentava atrair partidos do Centrão. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira, um dos principais interlocutores dessa aproximação, chegou a afirmar publicamente que Flávio deveria ser investigado.

Apesar do esforço da campanha para conter o desgaste, as conversas entre Flávio e Vorcaro continuaram acompanhando — e assombrando — o candidato ao longo dos meses e serviram de munição para Lula na reta final.

Briga com Michelle

No mês seguinte, Flávio enfrentou uma nova crise, desta vez dentro da própria família.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) afirmou, em junho, ter sido “desrespeitada” e “maltratada” por Flávio durante uma discussão sobre as alianças do partido no Ceará. Segundo ela, o senador deixou subentendido que não queria seu apoio à candidatura ao Planalto.

Flávio negou ter humilhado a madrasta e pediu desculpas. A rusga se arrastou até julho, quando os dois fizeram as pazes às vésperas da convenção nacional do PL. Michelle passou, depois, a participar da campanha e da propaganda eleitoral do senador.

A reconciliação resolveu uma frente, mas Flávio ainda tinha outra dificuldade: encontrar um vice e atrair outro partido para a chapa.

Sem Centrão, vice saiu do próprio PL

A campanha passou meses sondando nomes de outras legendas. Entre os cotados estiveram a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e a ex-presidente da Caixa Daniella Marques, hoje no PL, mas filiada ao Republicanos à época.

As negociações não avançaram. PP e União Brasil optaram pela neutralidade. Depois, Republicanos e Podemos tomaram a mesma decisão. Com isso, o PL chegou à eleição sem alianças a nível nacional.

A solução veio de dentro do partido. Em 5 de agosto, Flávio anunciou o deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice. Ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas e relator da CPMI do INSS, o parlamentar deu à campanha mais espaço para explorar segurança pública e as investigações sobre fraudes em benefícios previdenciários.

A escolha contrariou uma preferência que a campanha vinha manifestando por uma mulher para a vaga, numa tentativa de ampliar o diálogo com o eleitorado feminino.


Quem é Flávio Bolsonaro

  • Tem 45 anos e nasceu em Resende (RJ), em 30 de abril de 1981. É o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
  • É advogado, formado pela Universidade Cândido Mendes.
  • É casado, pai de duas filhas e evangélico.
  • Foi eleito deputado estadual do Rio pela primeira vez em 2002, aos 21 anos, e cumpriu quatro mandatos consecutivos na Alerj.
  • Disputou a Prefeitura do Rio em 2016 e terminou em 4º lugar, com 14% dos votos.
  • Foi eleito senador pelo Rio em 2018, com mais de 4 milhões de votos.
  • Está no Senado desde 2019 e é filiado ao PL desde 2022.

Campanha mudou de comando

As dificuldades também provocaram mudanças dentro da própria campanha. No fim de julho, Flávio entregou o comando da comunicação ao publicitário Duda Lima, marqueteiro de Jair Bolsonaro em 2022. Foi a segunda troca na área em menos de três meses.

Duda substituiu Eduardo Fischer e Alexandre Oltramari. A dupla vinha trabalhando com uma imagem mais moderada do candidato e foi responsável por lidar com o auge da polêmica do filme Dark Horse.

A mudança aproximou a comunicação da estrutura usada pelo pai na eleição anterior. Flávio intensificou as viagens pelo país, repetiu fórmulas de Jair Bolsonaro e passou a se apoiar mais nos palanques estaduais diante da falta de uma aliança nacional mais ampla.

Entre as principais propostas apresentadas na campanha, Flávio deu prioridade à segurança pública e à redução do tamanho do Estado. O plano de governo prevê endurecimento de penas, redução da maioridade penal para 16 anos, construção de presídios federais e enquadramento de facções como organizações narcoterroristas.

Na economia, o senador prometeu cortar ao menos dez ministérios, reduzir cargos comissionados, retomar privatizações e rever pontos da reforma tributária. Flávio também defendeu limitar decisões individuais de ministros do STF, mudanças no foro privilegiado e acabar com a reeleição para cargos do Executivo.

Nas pesquisas, a distância para Lula diminuiu ao longo dos meses. 

No Datafolha, Flávio tinha 35% na primeira metade de maio, caiu para 31% no fim daquele mês e permaneceu nesse patamar em junho. Marcou 32% em julho e 33% em agosto. Em setembro, chegou a 36%.

No levantamento mais recente, divulgado nesse sábado (3/10), Lula aparece com 45% dos votos válidos, contra 42% de Flávio. Em uma simulação de segundo turno, o petista tem 47% das intenções de voto, ante 46% do candidato do PL. A diferença está dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais, e os dois estão tecnicamente empatados.

Enquanto isso, Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) permaneceram em percentuais inferiores aos dos dois primeiros colocados.

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Voto útil, Sudeste e Lula na reta final

Com a candidatura consolidada como o principal nome da direita nas pesquisas, a campanha entrou nas últimas semanas com uma prioridade: tentar atrair já no primeiro turno eleitores de candidatos menores que rejeitam Lula.

Flávio concentrou viagens no Sudeste, responsável pela maior parcela do eleitorado nacional, e deu atenção especial a São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

A campanha também passou a explorar com mais força ataques ao petista. Flávio associou Lula às bets, chamou de “pai do tigrinho” e voltou a citar suspeitas envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente conhecido como Lulinha.

Tarcísio passou a aparecer de forma mais explícita ao lado do candidato. Michelle, depois da crise do primeiro semestre, também foi incorporada à propaganda.