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Alexandre de Moraes é Lula. André Mendonça é Bolsonaro

Esta eleição pode ser vista por vários ângulos. Pode ser a revanche de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão por tentar um golpe de Estado em vez de aceitar o resultado das urnas e, eventualmente, redimido pela vitória do filho. Ou ser a última dança de Luiz Inácio Lula da Silva, o político que mais tempo governou o Brasil depois de Dom Pedro II e Getúlio Vargas. Ou a primeira eleição brasileira sob pressão econômica de uma potência estrangeira. Ou, finalmente, uma eleição que, no fundo, não trata da Presidência da República, mas sobre o futuro do Supremo Tribunal Federal. Por trás da disputa Lula x Flávio Bolsonaro, na verdade os eleitores vão decidir entre os ministros do STF Alexandre de Moraes e André Mendonça.

Hoje, Moraes tem maioria no Supremo, sete votos contra três de Mendonça. Mas, se Flávio Bolsonaro vencer, tudo muda. Quem for eleito em outubro poderá indicar, no mínimo, três novos ministros do STF: a vaga aberta por Luís Roberto Barroso e ainda não preenchida, o substituto de Luiz Fux em 2028 e um terceiro nome no lugar de Cármen Lúcia, que sai em 2029. Gilmar Mendes, que se aposenta em dezembro de 2030, ao final do próximo mandato presidencial, pode se tornar cota do presidente que tomar posse em 2031.

Numa eventual vitória de Flávio Bolsonaro, é possível supor que Mendonça tenha o apoio garantido de cinco ministros, podendo trazer o sexto voto do sempre pendular ministro Dias Toffoli. Isso sem contar a hipótese real de vários processos, apoiados por Bolsonaro, de impeachment contra os ministros considerados pró-Lula.

Como comparou a repórter Andréia Sadi, da GloboNews, a disputa pelo futuro do STF é como um “Game of Thrones”, a série de gelo, fogo, poder e muita destruição.

Aos 53 anos, com mais 22 anos a cumprir como ministro do STF, Mendonça é hoje a pessoa mais poderosa do país. Indicado por Jair Bolsonaro em 2021, ele conduz os inquéritos do INSS, atualmente centrado em provar corrupção do filho do presidente Lula, e o do Master, o banco que deu mais de R$ 60 milhões para Flávio Bolsonaro supostamente produzir um filme sobre o pai.

Além dos dois inquéritos, Mendonça controla a Segunda Turma do STF, tendo apenas a resistência de Gilmar Mendes. Vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral, exerce uma influência duradoura sobre o presidente, o inseguro ministro Kássio Nunes Marques.

Aos 57 anos e mais 18 de mandato no STF, Alexandre de Moraes concentra em si todo o ódio bolsonarista. Responsável pessoal pela investigação, prisão e condenação de Jair Bolsonaro, Moraes mantém aberto, desde 2019, um inquérito sem justificativa e que lhe permite exercer um poder para além dos limites do STF. Recentemente, Moraes quebrou o sigilo de fonte de um blogueiro num precedente que coloca em risco a liberdade de imprensa. O ministro nunca deu explicações sobre o contrato que sua mulher, a advogada Viviane Barci, mantinha com o Banco Master, que lhe pagou R$ 80 milhões em dois anos.

disputa Mendonça contra Moraes escancarou a partidarização do STF.

Foi na casa de Moraes que os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Davi Alcolumbre se reconciliaram no início de agosto depois de meses de rompimento. Em julho, Moraes proibiu Flávio Bolsonaro de se comunicar com o pai e ameaçou devolvê-lo à cadeia se tentar se pronunciar durante as eleições.

Foi debaixo dos olhos de Mendonça que a Polícia Federal vazou, a conta-gotas, os diálogos da lobista Roberta Luchsinger — que, enquanto tentava contratos com o governo federal, distribuía dinheiro para o filho mais velho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e para o ex-chefe de gabinete presidencial Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Em um dos diálogos do seu celular, Roberta disse falar em nome do filho do presidente: “Eu sou o Fábio”.

A campanha de Flávio Bolsonaro publicou no X e no Instagram um vídeo que liga Lulinha ao roubo do INSS. Diz que Lulinha é “suspeito de ter roubado milhões de idosos no Brasil”. Sem os vazamentos da Polícia Federal, a campanha de Flávio não teria um terreno arado e pronto para a peça de propaganda. Por enquanto, a PF não divulgou indícios de que Lulinha ou Marcola tenham cometido crimes.

No entorno de Mendonça, o ritmo recente de notícias contrárias a Lulinha é considerado responsabilidade do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, acusado de atrasar as investigações, mudar a equipe responsável pela investigação e não repassar informações sobre provas colhidas no inquérito. No início do mês, Mendonça ameaçou ordenar a prisão de Andrei Rodrigues por obstrução de Justiça.

Um acredita que o outro está usando as investigações para ajudar o seu líder político. Um amigo comum, o advogado-geral Jorge Messias, tentou um armistício entre os dois, mas ainda sem resultado.

Na sexta-feira, os delegados da Polícia Federal que apuram a fraude do Banco Master pediram a André Mendonça mais dois meses para entregar o primeiro relatório parcial do inquérito. Daniel Vorcaro e todos os políticos envolvidos no escândalo agradecem a lentidão da polícia.