A crise envolvendo o Banco Master e o Supremo Tribunal Federal (STF) passou a ocupar espaço crescente no discurso eleitoral de Flávio Bolsonaro (PL), que vem explorando o tema politicamente ainda que esteja relacionado às investigações do caso por meio do filme Dark Horse.
O senador é investigado em uma frente relacionada ao filme que conta parte da trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Documentos tornados públicos no âmbito da Operação Compliance Zero apontaram que a produção recebeu recursos de Daniel Vorcaro.
A exposição do caso colocou o próprio senador entre os políticos atingidos pelas revelações. O senador teve áudios revelados em que pede dinheiro ao banqueiro. O montante poderia chegar a R$ 134 milhões.
Mesmo no radar da Polícia Federal (PF), Flávio tem procurado manter o foco do debate eleitoral nas suspeitas do Banco Master e os conflitos envolvendo integrantes do STF. Nos últimos dias, o candidato voltou a mirar o ministro Alexandre de Moraes e o procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet.
Nesse final de semana, Flávio usou as redes sociais para comentar sobre o vídeo em que o ministro e a esposa, Viviane Barci de Moraes, aparecem desembarcando de um jatinho que seria do banqueiro. “Sentou na cadeira, aparelhou o Estado e sua máfia implodiu a democracia, sob o falso pretexto de ‘protegê-la‘”, disparou Flávio nas redes sociais.
Antes disso, o senador fez ataques a Paulo Gonet, após a divulgação de uma fotografia do procurador-geral ao lado de Vorcaro em um evento realizado em Londres, em 2024. “Enquanto lula tira a esperança e a comida da mesa de milhões de brasileiros, seus co-autores estão em Londres tomando uísque Macalan, fumando charuto caro e rindo da cara do povo sofrido“, declarou o senador.
As críticas ocorrem em um momento em que o caso Master se tornou um dos principais focos de tensão institucional a poucas semanas do primeiro turno.
A divulgação de mensagens de Vorcaro envolvendo Moraes desencadeou uma disputa entre ministros do STF, enquanto o nome de Gonet também aparece no material produzido pela PF — próprio procurador-geral negou ter mantido relação de proximidade com o banqueiro.
Crise no STF
- O STF enfrenta uma crise interna após a divulgação de mensagens extraídas do celular do Daniel Vorcaro.
- Diligências conduzidas pela Polícia Federal (PF) apuram encontros pessoais e contratos firmados entre empresas ligadas a Vorcaro e escritórios de advocacia ou consultoria relacionados, de forma direta ou indireta, a integrantes do Supremo.
- A investigação busca esclarecer se esses contratos, pagamentos ou relações pessoais poderiam ter sido utilizados para obter influência ou benefícios em favor de Vorcaro, suas empresas e do Banco Master.
- Ao menos seis ministros são citados ou relacionados, direta ou indiretamente, ao banqueiro. São eles: Alexandre de Moraes; Dias Toffoli; Kassio Nunes Marques; Gilmar Mendes; Luiz Fux e André Mendonça.
Crise no STF como mote eleitoral
Na campanha, Flávio tem tentado transformar a crise em uma agenda política contra o Supremo. Nos atos de 7 de setembro, durante ação na Avenida Paulista, o senador chegou a afirmar que indicaria cinco ministros para o STF porque “Moraes vai cair”. Antes disso, também havia usado a crise envolvendo o ministro para mobilizar apoiadores para as manifestações do feriado.
O movimento coloca o candidato em uma situação particular: ao mesmo tempo em que seu nome aparece entre os políticos relacionados às investigações do caso Master, Flávio procura explorar eleitoralmente as suspeitas que atingem ministros do STF e o próprio PGR.
A estratégia permite que a campanha desloque o centro do debate para a crise no Judiciário, com ataques recorrentes a Moraes e, mais recentemente, a Gonet, tentando ainda relacionar o caso ao atual governo e à figura do presidente Lula. A avaliação é que o caso Master contribui para a disputa narrativas na eleição.
De um lado, Flávio tenta apresentá-lo como evidência de uma crise envolvendo Lula, Moraes e integrantes do STF; enquanto as revelações da investigação são exploradas pela campanha petista com a intenção de relacioná-la a Flávio Bolsonaro, resgatando as investigações das quais o senador também é alvo.
Crise respinga na campanha de Flávio
A estratégia adotada por Flávio ocorre, contudo, em um cenário contraditório para sua campanha. De um lado, o candidato tenta colocar Lula e Moraes no mesmo campo político e transformar a crise do Supremo em argumento contra o governo. De outro, seu próprio nome aparece nos documentos relacionados ao Banco Master.
Pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada na última semana ajuda a demonstrar qual pode ser o potencial do impacto eleitoral da medida. De acordo com o levantamento, os eleitores estão divididos sobre qual candidato está mais associado ao escândalo do Banco Master:
- 41,2% veem o caso mais relacionado a aliados de Bolsonaro;
- 40,2% citaram aliados do então presidente Lula.
Por outro lado, 49,5% dos entrevistados acreditam que a crise no STF pode prejudicar mais a campanha de Lula, enquanto 20,9% avaliam que o maior impacto é sobre Flávio. Os dados podem ajudar a explicar as razões pelas quais o tema permanece relevante na campanha eleitoral deste ano e deve ganhar novos desdobramentos nas próximas semanas, ao passo que a data do 1º turno se aproxima.
Para Flávio, a crise oferece uma oportunidade de manter no centro da disputa a associação entre Lula e Moraes e de mobilizar o eleitorado bolsonarista em torno da crítica ao STF. Ao mesmo tempo, a exposição de nomes ligados ao campo político de Bolsonaro no caso Master cria um risco de a mesma crise atingir sua candidatura.

