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Antes de agir contra Mendonça em inquérito, Moraes se reuniu por três horas com Alcolumbre

Por Redação Juruá em Tempo. Fonte: Malu Gaspar, dO Globo. 04/09/2026 às 10:09

Antes de deflagrar sua ofensiva contra André Mendonça, o ministro Alexandre de Moraes passou três horas reunido com Davi Alcolumbre em sua casa no Lago Sul, em Brasília. A reunião se deu na última quarta-feira (2), antes da sessão plenária do STF. A informação foi confirmada à equipe da coluna por três fontes que acompanham de perto os desdobramentos da crise.

Alcolumbre é apontado nos relatórios de inteligência utilizados por Moraes em sua decisão como um dos “prováveis alvos” de direcionamento da investigação por Mendonça. Os documentos, apócrifos, não apresentam prova e alertam que “qualquer uso externo” de seu conteúdo seria prematuro. Ainda assim, embasaram a decisão de Moraes contra Mendonça.

A reunião ocorreu em meio ao clima conflagrado no Supremo Tribunal Federal por conta do pedido enviado por Mendonça ao presidente da Corte, Edson Fachin, para que o plenário avaliasse abrir uma investigação contra Moraes por conta de suas relações com Daniel Vorcaro.

Logo após o encontro com Moraes, já no Senado, Alcolumbre rebateu as críticas que recebeu de senadores da oposição por não pautar o impeachment de Moraes. No plenário, queixou-se das “agressões” que teria sofrido e aproveitou para mencionar o caso “Dark Horse”, que envolve o pedido de dinheiro de Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

“Todo mundo esqueceu que pediram R$ 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes?”, questionou Alcolumbre durante a sessão, em alusão aos áudios em que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, negocia a verba com Vorcaro.

Alcolumbre, amigo e aliado de Moraes, vinha dizendo que se alguém tinha de sofrer impeachment seria André Mendonça. Para uma fonte a par das discussões, Moraes “está pavimentando caminho pro Alcolumbre pautar o impeachment do Mendonça”, ao encomendar um relatório da PF e apontar “fortes indícios” da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade.

“É mais fácil o Alcolumbre rifar os 80 senadores do que largar o Moraes”, disse um senador ouvido reservadamente pelo blog.

Um interlocutor de Alcolumbre resumiu assim a lógica do presidente do Senado: “Largar a mão do Moraes é empoderar o André Mendonça, que é inimigo figadal dele”.

Não por acaso, Moraes e Alcolumbre somaram forças e trabalharam junto com a tropa de choque bolsonarista para que o Senado Federal impusesse uma derrota histórica ao governo Lula e rejeitasse a indicação ao STF do advogado-geral da União, Jorge Messias. Messias é próximo de Mendonça, que foi um dos principais cabos eleitorais de sua fracassada campanha para ter a indicação confirmada.

Confiança baixa

Na decisão de Moraes sobre Mendonça, o ministro afirma que o presidente do Senado teria sido vítima de uma atuação “enviesada” de Mendonça devido a questões “pessoais e políticas”, tendo um tratamento distinto de outros investigados de situação processual equivalente. Apesar disso, o próprio relatório deixa explícito que o grau de confiança das informações relacionadas ao parlamentar é “baixo”, e que “qualquer uso externo seria prematuro”.

Alcolumbre foi uma das autoridades que esteve na degustação de charutos e uísque promovida por Vorcaro em 2024, em Londres, durante um Fórum Jurídico patrocinado pelo Banco Master na Inglaterra. Ele esteve na mira das investigações relacionadas ao caso por ter sido o responsável pela indicação do presidente do fundo de pensão dos funcionários do governo do Amapá, a Amprev, que comprou R$ 400 milhões em títulos do Master. O dinheiro, contudo, se perdeu com a liquidação do banco.

Moraes sustenta em sua decisão, com base no relatório encomendado na PF, que Mendonça teria direcionado as investigações contra Alcolumbre por “viés político”. O documento policial aponta “a hipótese” de que o parlamentar seria um “provável alvo estratégico” do ministro, já que ambos tiveram “desavença conhecida” durante a nomeação dele à Corte, quando Alcolumbre “representou grande empecilho à indicação”.

Crise no STF

A ação de Moraes ocorreu três dias após Mendonça enviar um despacho à Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre mensagens trocadas entre ele e Vorcaro, extraídas do celular do banqueiro pela PF. Pouco depois, o procurador-geral, Paulo Gonetse manifestou pela nulidade de todo o conteúdo, que demonstra a tentativa do banqueiro em evitar sua prisão.

Como mostrou o blog, contudo, a ofensiva de Moraes não é apenas um revide contra o colega na tentativa de matar no peito a possibilidade de uma investigação contra si próprio. Na prática, a iniciativa dele abre caminho para implodir toda a apuração da maior fraude bancária da história do país.

Isso porque, na decisão contra Mendonça, Moraes aponta que houve direcionamento das investigações e “quebra na cadeia de custódia” — a mesma tese que vinha sendo estudada pela própria defesa de Vorcaro para tentar anular toda a apuração do caso.

Diante do fracasso das duas tentativas de negociação de um acordo de colaboração premiada com a PF e com a PGR, os advogados do banqueiro buscavam encontrar formas de anular a investigação. A decisão de vinte páginas de Moraes aponta a direção.

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