Imagens do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e de sua mulher, Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jatinho operado por uma empresa que tinha como sócio Daniel Vorcaro, do Master, reforçam as conexões entre o ministro e o banqueiro, preso por fraudes envolvendo a instituição financeira. Após a repercussão do vídeo, revelado neste domingo pelo colunista Lauro Jardim, do GLOBO, o escritório da advogada admitiu que contratou serviços de táxi aéreo da companhia ligada a Vorcaro e confirmou que ela foi acompanhada pelo marido em algumas viagens.
As imagens mostram Moraes e Viviane desembarcando na pista do Aeroporto Santos Dumont no dia 22 de agosto de 2025. O voo saiu do Aeroporto Catarina, nos arredores de São Paulo, com destino ao Rio, onde o ministro participou de um evento do Grupo de Líderes Empresariais (Lide) no dia. O jato é operado pela Prime Aviation, que teve Vorcaro entre os sócios até setembro de 2025.
O escritório disse em nota que usa serviços de táxi aéreo de diferentes empresas, entre elas a Prime. A banca também afirmou que a contratação dos serviços segue critérios operacionais e não representa “vínculo pessoal com proprietários de aeronaves ou operadores específicos”. O texto acrescenta que cabe às empresas contratadas definir o avião que será usado. Neste caso, foi a aeronave de prefixo PP-NLR, um jato da Embraer com capacidade para 14 passageiros e autonomia de cerca de 7 mil quilômetros.
“Em nenhum dos voos realizados em aeronaves da Prime Aviation com integrantes do escritório esteve presente Daniel Vorcaro ou qualquer outra pessoa alheia ao escritório. Em determinados voos, Viviane Barci de Moraes foi acompanhada por seu marido, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF)”, afirmou o escritório.
Diálogos sobre viagem
Mensagens analisadas pela Polícia Federal mostraram que Vorcaro e uma funcionária da Prime conversaram sobre o voo de Moraes na véspera. O banqueiro pediu a ela para conseguir um avião saindo de Brasília para Roraima e ela respondeu com uma possibilidade.
“Conseguimos com o PP-NLR (…) A questão é que no dia 22/08 temos o voo da Barci no PP-NLR, decolando do Catarina às 13h, mas podemos alterar para o PT-PVH. Dessa forma atenderia?”, questionou a funcionária.
“Não deixe de atender Barci. Pode manter o dele. Vou ver outra forma”, disse Vorcaro.
O material extraído do celular de Vorcaro mostra ainda que, em 16 de julho de 2025, ele questionou o executivo responsável pela Prime se Moraes e Viviane estavam usando o serviço. O interlocutor explicou a transação, e o dono do Master afirmou que era para deixar “tudo à disposição” e ficar em contato para “eles poderem usar”. O executivo, então, enviou o print de uma conversa em que ele perguntou a Viviane se ela e o marido estavam gostando do uso das aeronaves. “Sim, estamos gostando muito. Todos que nos atenderam sempre foram muito educados e atenciosos”, respondeu a advogada.
O relatório mostra ainda que uma das empresas do banqueiro e o escritório chegaram a negociar um contrato cujo pagamento seria feito por meio de cotas do uso da aeronave e de um helicóptero. A banca disse que o acordo, que chegaria a R$ 50 milhões, não foi fechado. O relatório da PF indica que a negociação foi transferida para uma outra empresa que tem Moraes e a mulher como sócios, para que eles pudessem usar as aeronaves. Moraes afirmou em abril que nunca havia viajado em avião de Vorcaro ou na companhia do banqueiro, posicionamento que reiterou ao colunista Lauro Jardim.
Repercussão política
A revelação do vídeo também provocou desdobramentos políticos. O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, insistiu na associação entre Moraes e o presidente Lula, que não comentou o episódio e viu seus aliados retrucarem colando o caso “Dark Horse” ao adversário.
A campanha do PL vê na crise do Supremo uma oportunidade de desgastar Lula, que manteve ao longo do mandato interlocução com Moraes e ministros próximos a ele, como Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin.
— Alexandre de Moraes é o principal responsável por Lula voltar à cena do crime. Ele sentou na cadeira, aparelhou o Estado inteiro e sua máfia implodiu a democracia sob o falso pretexto de protegê-la — disse o presidenciável do PL.
Flávio também aproveitou o vídeo para pedir apoio para seus aliados na disputa para o Senado. Uma das plataformas de campanha dele é articular uma maioria na tentativa de votar o impeachment de Moraes, ofensiva que atualmente é barrada pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP).
Aliados de Flávio também comentaram o assunto. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) cobrou ministros do STF a tratarem do tema na próxima sessão. Já o líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), citou uma frase de Bolsonaro para pedir votos ao Senado e “transformar o Brasil”, em referência a eventuais processos de impeachment.
No campo governista, o caso é visto com mais cautela. Lula tem cobrado investigações, mas evita direcionar os pedidos especificamente a Moraes e afirma que é necessário apurar todas as menções a ministros. Integrantes da campanha avaliam que não há motivo para adotar o mesmo tom do adversário e que é necessário modular a reação. Lula, porém, também tem lembrado que não foi ele que indicou Moraes ao STF, mas o ex-presidente Michel Temer (MDB).
Neste domingo, Lula passou a maior parte do dia em viagem a Nova York, onde vai participar da Assembleia Geral da ONU, e não tratou do episódio. Aliados seguiram na toada que o petista vem adotando. O perfil do PT nas redes lembrou a relação de Flávio com Vorcaro.
— Entre tantas citações a autoridades, políticos, ministros, apenas um candidato a presidente recebeu R$ 61 milhões de Vorcaro. Apenas um é investigado por corrupção e lavagem de dinheiro do Banco Master: Flávio Bolsonaro — disse o secretário de comunicação do PT, Éden Valadares.
Mensagens obtidas pela PF mostram Flávio negociando com Vorcaro o financiamento ao filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. O senador, que nega irregularidades, é investigado no STF em um inquérito.
Colaborou Lívia Nani

