A revelação de uma foto do procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao lado do banqueiro Daniel Vorcaro mudou o clima dentro do Ministério Público Federal (MPF) às vésperas da análise, pelo Conselho Superior da instituição, das citações ao chefe da PGR encontradas pela Polícia Federal no celular do dono do Banco Master.
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Até a publicação da imagem pelo GLOBO, na sexta-feira, integrantes da instituição relatavam um ambiente de relativo apoio a Gonet. Embora as revelações envolvendo Vorcaro provocassem constrangimento e houvesse críticas à atuação do procurador-geral, elas eram mais isoladas. A avaliação predominante entre integrantes do MPF era que, até então, não havia elementos suficientes para colocar em dúvida sua atuação no caso. Procurada, a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se manifestou.
A fotografia, porém, provocou uma mudança de percepção. Integrantes do conselho relataram que a imagem causou mal-estar internamente e causou indignação entre integrantes da carreira, inclusive entre pessoas que até então vinham defendendo Gonet. A avaliação é que o episódio tornou mais difícil sustentar a ideia de um contato meramente circunstancial entre o procurador-geral e Vorcaro.
A imagem em questão mostra Gonet e Vorcaro em um encontro em Londres, em 2024. O procurador-geral está com um charuto na mão, em frente a uma mesa com copos de uísque.
Em nota, a PGR confirmou a autenticidade da fotografia e afirmou que o próprio Gonet já havia admitido publicamente ter participado do evento em Londres, ao lado de outras autoridades. A Procuradoria ressaltou ainda que o ministro André Mendonça afirmou durante o julgamento da semana passada que não havia identificado nada de grave nas menções feitas ao procurador-geral nas mensagens encontradas no celular de Vorcaro.
Na mesma sessão, Gonet também se manifestou para dizer que o único encontro que teve com Vorcaro, em abril de 2024, se deu com a presença de várias autoridades e foi “banal”.
— Não tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro. O único encontro que eu tive com o senhor Vorcaro se deu com várias autoridades em abril de 2024. A única ligação intermediada por advogado foi brevíssima e banal. A atuação do Ministério Público Federal em primeiro grau e no Supremo Tribunal Federal (STF) sempre foi pelo total esclarecimento dos fatos e pelo sucesso da persecução penal — disse Gonet.
A mudança de ambiente ocorre a poucos dias de o Conselho Superior do Ministério Público Federal (CSMPF) analisar o procedimento aberto para avaliar as referências a Gonet encontradas nas mensagens de Vorcaro. A discussão está marcada para sexta-feira, dia 25, e será relatada pelo subprocurador-geral Francisco de Assis Vieira Sanseverino.
Apesar do aumento do desgaste interno, integrantes da instituição afirmam que, no cenário atual, ainda não há uma indicação de que o Conselho vá decidir pela abertura de uma investigação contra o procurador-geral. A ressalva feita internamente é que o ambiente se tornou mais desfavorável a Gonet depois da divulgação da fotografia e que o quadro ainda pode mudar até a sessão.
O Conselho Superior tem dez integrantes, incluindo o próprio Gonet, que preside o colegiado. O procurador-geral, porém, não deve participar da análise do procedimento que trata de sua própria atuação.
Em manifestação encaminhada ao Conselho, Gonet negou manter relação de amizade com Vorcaro e afirmou não possuir interesse pessoal nos processos envolvendo o ex-banqueiro. O procurador-geral sustentou ainda que não há elementos que justifiquem a abertura de uma apuração sobre sua conduta.
O procedimento foi aberto depois que vieram a público mensagens encontradas pela PF no celular de Vorcaro com referências ao procurador-geral. Os diálogos ocorreram entre Vorcaro e o advogado Ciro Soares, que atuava para o Master. No dia 28 de março de 2025, Soares confirma a Vorcaro que Gonet vai a Londres com eles, e encaminha a mensagem em que o procurador aborda a degustação: “Oba! Tomara que tenha charuto e Macallan”.
Vorcaro, então, responde o advogado em tom de brincadeira: “Agora vai ter que ter plantação de charuto e barril de Macallan”.
Em outro episódio, no dia 15 de março, Soares enviou uma foto a Vorcaro ao lado de Gonet. “Liga aqui, ele quer falar com você”, escreveu ao banqueiro. As ligações ocorreram poucos minutos depois.
A análise do Conselho deverá se concentrar em saber se esses elementos colocam em dúvida a imparcialidade de Gonet na condução dos casos relacionados ao Master. O procedimento não corresponde, neste momento, a um processo administrativo disciplinar contra o chefe da PGR.



