No 7 de Setembro, em cima de um trio elétrico na Avenida Paulista, a bispa Sonia Hernandes pediu apoio ao “nosso irmão André Mendonça”. Dois dias depois, seu marido, o apóstolo Estevam Hernandes, declarou voto em Flávio Bolsonaro.
Pode ser coincidência de calendário. Análise séria não transforma sequência em causalidade. Mas é uma boa fotografia do movimento que começa a se formar em torno de Mendonça.
Enquanto escrevo, a sessão do Supremo ainda não terminou. Gilmar Mendes já acusou Mendonça de atuação político-eleitoral. Alexandre de Moraes fez duras críticas a ele. Mendonça respondeu. No plenário, discutem investigação, competência, suspeição e rito. Do lado de fora, existe uma tradução muito mais simples:
“Estão atacando um irmão de fé”.
É aí que uma crise do Supremo pode começar a produzir efeito dentro de uma campanha presidencial.
Dias antes do 7 de Setembro, Michelle Bolsonaro havia publicado uma longa mensagem em defesa de Mendonça. Chamou o ministro de “escolhido e ungido do Senhor”, disse que a Igreja o ama e lembrou que homens, mulheres, jovens e crianças oram por ele. Para entender o peso político disso, é preciso sair por alguns minutos da planilha de Brasília.
O eleitor evangélico não vive a fé apenas aos domingos. Igreja é também rede de confiança, informação, acolhimento e pertencimento. É conversa depois do culto, vídeo que chega pelo WhatsApp, pedido de oração e conselho de alguém que divide a mesma fé.
Não significa que evangélicos pensem todos igual, muito menos que votem por ordem do pastor. Essa é uma das caricaturas mais preguiçosas sobre esse eleitorado. Significa outra coisa: a confiança circula por caminhos que a política tradicional nem sempre enxerga.
Nos grupos qualitativos que temos realizado, vinha aparecendo um fenômeno interessante entre eleitores de direita. O voto continuava lá. A vontade de fazer campanha, nem tanto.
É parecido com aquele torcedor que não trocou de time, continua com a camisa no armário, mas desligou a televisão porque acha que o campeonato já acabou.
Para Flávio Bolsonaro, isso faz diferença. Uma eleição não é feita apenas de intenção de voto. É feita também de gente disposta a defender aquele voto. E Michelle sabe conversar com uma parcela do eleitorado evangélico — especialmente mulheres — numa gramática que não começa pela política. Começa por família, fé, proteção e pertencimento. A crise pública entre ela e Flávio mostrou, no mínimo, que essa ponte não era automática.
Mendonça pode estar reconstruindo essa ponte sem precisar de fotografia de reconciliação familiar no palanque.
Quando Michelle o defende, ela não precisa dizer “vote em Flávio”. Ela fala de um homem de Deus, de oração, de Igreja, de alguém que precisa ser protegido. E volta para a conversa. É por isso que o que acontece hoje no Supremo pode importar tanto fora dele.
Para os ministros, a discussão é institucional. Para uma parcela dos evangélicos, Mendonça pode começar a deixar de ser apenas um ministro do STF. Passa a ser “o nosso ministro”.
Aqui não faço juízo sobre quem tem razão na batalha jurídica. Meu interesse é outro: entender como a cena chega do outro lado da televisão. Porque existe uma diferença enorme entre ter o voto de uma pessoa e ter essa pessoa mandando vídeo no grupo da família, discutindo política depois do culto e tentando convencer a cunhada.
André Mendonça talvez não esteja trazendo votos novos. Pode estar trazendo Michelle — e, com ela, uma parte da militância evangélica — de volta para a campanha.

