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PT aposta na estratégia do ‘medo’, já usada contra rivais no passado, para tentar virar votos e pressionar Flávio

Na tentativa de reverter a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a recorrer ao medo como estratégia eleitoral. O PT tem ampliado os alertas sobre uma eventual vitória do adversário, associando a chegada do presidenciável do PL ao Palácio do Planalto a riscos de retrocessos, perda de direitos e mudanças em políticas públicas, numa tentativa de convencer eleitores que optaram por Flávio a mudar de voto.

A retórica do medo não é novidade em campanhas do PT ou de opositores. O partido de Lula usou a mesma estratégia em outras eleições presidenciais, contra diferentes adversários. A comunicação tem um foco amplo: tanto os apoiadores de Flávio pouco convictos como os indecisos ou que votaram em outros candidatos no primeiro turno.

A campanha de Lula pretende explorar o risco de Flávio cortar programas como o Farmácia Popular e a falta de distribuição de remédios gratuitos. Vão recorrer ainda ao fato de no governo de Jair Bolsonaro não ter havido aumento real do salário-mínimo para afirmar que essa política voltará a ser aplicada se o filho do ex-presidente for eleito.

A apreensão com o futuro sob Flávio Bolsonaro será o eixo principal adotado nos programas de rádio e televisão, estará em discursos do Lula em comícios e na boca de aliados. Auxiliares avaliam que foi um erro não ter subido o tom de ataques a esse nível já no primeiro turno.

Na quinta-feira, Lula publicou um vídeo selfie comentando o plano de Cortes de Flávio Bolsonaro e afirmando “toda vez que a elite fala que vai cortar”, “cortam do sangue do povo”:

“Quando eles falam em cortar R$ 200 bilhões do orçamento, você sabe de onde eles vão cortar? Do Pé-de-Meia, do Farmácia Popular, do Minha Casa, Minha Vida, da merenda escolar, do Gás do Povo. E não vão dar aumento acima da inflação para trabalhadores e aposentados.”

A declaração do candidato de que pretende mudar a Constituição também será usada. Na terça-feira, Flávio afirmou que vai usar a nova composição do Congresso para promover mudanças na Constituição e “redemocratizar o país”. A ideia é mostrar as consequências de uma alteração na Carta. Na quarta-feira, o vice-presidente Geraldo Alckmin, que terá participação mais ativa no segundo turno, foi o primeiro integrante da campanha a abordar o tema:

— Mal terminou o primeiro turno das eleições e eles já estão falando em mudar a Constituição para redemocratizar o Brasil. A ditadura falava a mesma coisa, quando falava em trocar a Constituição e impôs uma nova, totalmente autoritária — afirmou Alckmin.

A tarefa terá ajuda de deputados eleitos e influenciadores digitais que o PT vem recrutando para aumentar a presença digital, que estão sendo incorporados na campanha para dar mais dinamismo à estratégia digital de Lula, apontada como uma das culpadas pelo resultado das urnas do último domingo.

Os ministros do governo também estão empenhados na estratégia. À frente da Educação, Leonardo Barchini alertou sobre o corte de 1,5% do PIB anunciado por Flávio inviabilizar programas como Pé-de-Meia e bolsas da CAPES, voltadas para a pós-graduação e a formação de professores.

— O Pé-de-meia é o primeiro a acabar. Acaba o discricionário das universidades. A conta não fecha — disse o ministro ao colunista do GLOBO Fabio Graner.

Na quinta-feira, Flávio rebateu a ideia de que irá penalizar pobres e aposentados.

— Não vou fazer economia em cima de quem precisa. Aposentado, fique tranquilo. Não caia nessa ‘fake news’ do PT — declarou Flávio.

A tática do PT remonta a campanhas anteriores. Em 2014, por exemplo, a campanha de Dilma Rousseff agiu para desconstruir a candidatura de Marina Silva no momento em que as pesquisas indicavam que a então presidenciável poderia superar Dilma no segundo turno. Uma das peças produzidas pelo marqueteiro João Santana associava a retirada de comida da mesa das famílias à proposta de autonomia financeira do Banco Central.

Durante a campanha de 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) explorou repetidamente o temor de que uma vitória de Lula levasse o Brasil a “virar uma Venezuela”, uma referência ao colapso econômico e político do país vizinho.

Em 2002, a atriz Regina Duarte gravou para a propaganda eleitoral de José Serra (PSDB), pouco antes de Lula ser eleito para o primeiro mandato, e disse uma frase bastante explorada à época sobre a perspectiva de o PT chegar ao poder: “Eu tenho medo”.