Início / Versão completa
CONFIRA AQUI

Palavrão racista expõe dilema da África do Sul pós-apartheid Comente

Por Redação Juruá em Tempo. 01/11/2016 14:10
Publicidade

Uma motorista sul-africana branca, depois de ter seu carro arrombado por ladrões, xingou os policiais negros que foram atender ao chamado. Ela disse que os negros eram “incompetentes e inúteis”, antes de soltar o xingamento racista mais ofensivo local.

Publicidade

O termo usado foi “kaffir”.

A palavra é o epíteto mais controverso da África do Sul, um termo que historicamente foi usado pelos brancos para rebaixar o povo negro e é considerado tão ofensivo que raramente ele é dito em voz alta ou escrito de forma completa.

Por causa de sua diatribe racista, registrada em vídeo no começo deste ano, a motorista, Vicki Momberg, está sendo julgada e provavelmente terá de pagar uma multa pesada. Por causa de sua atitude racista e de várias outras parecidas, os legisladores na África do Sul, onde as feridas do apartheid permanecem abertas, estão se mobilizando para tornar o discurso de ódio um crime passível de até 10 anos de prisão.

Publicidade

Esta semana, a África do Sul lançou um projeto de lei que criminalizaria o racismo ao direcionar futuros casos de discurso de ódio a tribunais criminais em vez dos tribunais civis, onde atualmente são tratados.

“Os discursos recentes de racismo e muitos outros incidentes de crimes bárbaros perpetrados sob a influência de ódio racial, apesar de nossos esforços nas duas últimas décadas para construir nossa nova nação sobre esses valores, requerem medidas mais profundas”, disse o ministro da Justiça, Michael Masutha, em uma coletiva de imprensa na segunda-feira (24).

A ação do governo desencadeou um debate polêmico. Criminalizar o discurso de ódio, segundo opositores, teria um efeito assustador sobre outra vitória conquistada a duras penas: a liberdade de expressão. De acordo com a proposta de lei, o discurso de ódio seria definido de forma geral como uma comunicação direta ou eletrônica que “advogue o ódio”, incite a violência ou cause desacato ou ridicularização.

Quem cometer o crime pela primeira vez pode ser punido com até três anos de prisão, e um reincidente poderia ser preso por até 10 anos.

Para além das penalidades rígidas, de acordo com os críticos, a lei proposta também acabaria desviando dos verdadeiros problemas da África do Sul, onde os negros têm poder político, mas onde o poder econômico e a influência cultural continuam de forma desproporcional nas mãos dos brancos, que correspondem a somente 9% da população.

“A raça e o racismo deveriam ser entendidos como problemas estruturais, problemas de desigualdade, para serem resolvidos através de um programa de justiça, e não de criminalização”, diz Joel Modiri, um professor de jurisprudência na Universidade de Pretória. “Aqui você tem uma sociedade de maioria negra que essencialmente pede proteção a uma minoria branca. Ela revela o problema mais profundo de que você tem uma maioria neste país que fundamentalmente é desprovida de poder.”

Ao aprovar essa lei, a África do Sul se somaria ao Reino Unido, ao Canadá, à França, à Alemanha e outros países onde o discurso de ódio é crime.

Mas ela se afastaria mais dos Estados Unidos, um país com quem ela compartilha um histórico de racismo contra negros por parte de brancos. Nos Estados Unidos, a Primeira Emenda protege praticamente qualquer tipo de expressão, por mais ofensiva que seja.

Em fevereiro, Momberg foi pega em Johannesburgo agredindo verbalmente os policiais negros.

O vídeo, que viralizou na internet na África do Sul, mostra Momberg, aparentemente brava com o tempo que a polícia levou para chegar, gritando que ela não queria a ajuda de um policial negro. Ela disse que queria ser ajudada por um policial que fosse branco, indiano ou mestiço.

“Um kaffir já é ruim o suficiente”, ela disse. “Isso acontece o tempo todo, o tempo todo. Os kaffirs aqui em Joburg são terríveis. Estou farta disso.” Ela também é ouvida chamando os negros de “teimosos”, “arrogantes” e “inúteis”. Em outro ponto do vídeo, ela diz que se vir um negro, “vai passar por cima dele com o carro.”

“Se eu tivesse uma arma atiraria em todo mundo”, ela completa.

África do Sul sofre com desemprego e violência

A Comissão Sul-Africana de Direitos Humanos disse que também levará Momberg ao Tribunal da Igualdade, um órgão criado na era do pós-apartheid para lidar com a discriminação.

Embora a constituição pós-apartheid da África do Sul garanta liberdade de expressão, ela exclui a “promoção do ódio baseado em raça, etnia, gênero ou religião, e que constitua incitação a provocação de danos”. Um decreto aprovado em 2000 ampliou a definição de discurso de ódio para incluir expressões que sejam “ofensivas” e “danosas” ou que “incite danos” ou “promova ou propague o ódio.”

Pierre de Vos, um acadêmico da área constitucional na Universidade da Cidade do Cabo, disse que o país já é “bem agressivo ao lidar com o discurso de ódio.”

“Considerando nossa história, as pessoas que escreveram nossa constituição presumiram que, embora a liberdade de expressão seja muito importante, o discurso de ódio não pode sob nenhuma circunstância servir a qualquer propósito valioso”, ele disse.

No mês passado, um juiz do supremo tribunal ordenou que um homem branco chamado Swanepoel pagasse 100 mil rands, ou cerca de R$ 22 mil, por usar o epíteto contra um homem negro durante uma briga. O juiz disse que não era possível ouvir essa palavra “sem estremecer”.

Os críticos dizem que definir de forma ampla demais o discurso de ódio pode deteriorar a liberdade de expressão e fará pouco para curar as feridas raciais do país.

“Você não pode legislar pelo bom comportamento humano; você não pode legislar pela coesão social”, disse Tusi Fokane, diretor-executivo do Instituto da Liberdade de Expressão, uma organização privada. “Considerando nosso passado, será necessário muito mais do que banir e criminalizar expressões.”

A dificuldade em se definir o discurso de ódio é evidente nas diferenças entre a constituição e o decreto de 2000, dizem os especialistas. Até mesmo o xingamento mais explosivo seria considerado discurso de ódio segundo o decreto, mas não seria automaticamente classificado como tal perante a constituição.

A palavra ofensiva vem da palavra árabe “kafir”, que significa descrente ou não-muçulmano. Ao longo dos séculos na África do Sul, seu uso acabou mudando e se tornando um termo racista.

“Essa palavra aqui, assim como a palavra ‘nigger’ nos Estados Unidos são basicamente veículos para expressar o ódio, uma forma de diminuir outra pessoa para torná-la menores do que você”, diz Millard Arnold, 60, um americano que viveu na África do Sul por mais de duas décadas e é membro do conselho diretor da Fundação Steve Biko, uma organização de desenvolvimento comunitário. “Em ambas as sociedades essas palavras repercutem praticamente da mesma forma.”

Embora a palavra ofensiva sul-africana tenha sido muito usada durante o apartheid, hoje ela é tabu.

“Quando eu era mais jovem, via alguns livros referindo-se à palavra, mas sempre em um contexto histórico”, diz Ramabina Mahapa, 24, ex-presidente do conselho estudantil na Universidade da Cidade do Cabo, que cresceu em uma área rural. “Nunca ninguém me chamou assim.”

No ano passado, quando o conselho estudantil participou de um movimento para remover a estátua do empresário da era colonial Cecil Rhodes de um campus, Mahapa recebeu e-mails racistas chamando-o de macaco ou babuíno, mas nunca esse epíteto em particular, segundo ele. Esse fato, para ele, colocou a palavra em uma categoria diferente.

Trevor Noah, o apresentador sul-africano do “The Daily Show”, tentou tirar a força singular da palavra em seu show de stand-up de 2012, “That’s Racist” (“Isso é racista”). Assim como alguns americanos negros que tentaram se reapropriar da palavra “nigger”, Noah disse que ele queria transformar o equivalente sul-africano em um termo positivo e até mesmo criar um Dia Nacional do Kaffir.

A tentativa fracassou, um indicativo de que a África do Sul não estava pronta para a palavra.

“Eu entendi a tentativa”, disse em uma entrevista Kagiso Lediga, um proeminente comediante de stand-up. “Foi bem intencionada e veio de um lugar bom, com a tentativa de transformá-la em uma boa palavra. Mas deixe ela em paz. Em termos de palavras, ela é o epicentro. É radiação pesada, aquilo.”

Tradutor: UOL

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.