Um velho adágio da política afirma que no Brasil, pouco se investe em saneamento básico, pois as obras seriam ‘invisíveis’. A concepção é de que, estando debaixo da terra, canos de água e esgoto não trazem o resultado eleitoral esperado. Em outras palavras: obras caras que não se convertem em votos do eleitor.
Talvez seja apenas um folclore usado para definir uma caricatura de uma classe política brasileira: preocupada penas com a eleição, mas o fato é que no Brasil apenas 30% das residências, o que significa que de fato, as classes dirigente do país não tem dado a devida atenção à questão. O IDH de nosso país encontra-se na posição de 79°, abaixo de Cuba (68°) e Venezuela (71°), lembrados por muitos como exemplos a serem evitados e disputa posições com países como o Azerbaijão (78°) empatado com a ilha caribenha de Granada.
Se por um lado, o resultado eleitoral de obras de saneamento costuma ser frustrante, no que se refere ao IDH – índice de desenvolvimento Humano, trata-se exatamente do oposto.
Investimentos em saneamento básico – categoria que podemos incluir os serviços de rede de água e esgoto, banheiros residenciais, coleta de lixo e aterro sanitário – resulta em um acréscimo direto no IDH, sendo determinante para que uma cidade, estado ou país, ocupe as melhores posições. Mas isso não para por aí. Investimentos em saneamento resultam em menor mortalidade infantil, em aumento na expectativa de vida e na redução de doenças.
A Organização Mundial de Saúde preconiza que a cada dez reais investidos em saneamento, outros seis são economizados na área de saúde.
Piores entre Piores
Se o IDH de um país como o Brasil, oitava economia do mundo, já deixa a desejar, o que dizer então dos municípios brasileiros que ocupam as piores posições no ranking. É o caso dos quatro municípios mais isolados do estado do Acre. Jordão, por exemplo, ocupa uma das últimas colocações: 5559° em uma lista que termina com o número 5565° (Melgaço-PA, caso o leitor fique curioso). Marechal Thaumaturgo fica com a posição 5529°, Santa Rosa do Purus, 5473° e Porto Walter com a posição 5382°. Nem sempre ocupar as últimas posições pode ser o significado direto de administrações negligentes. Por vezes tratam-se de municípios com processo de urbanização recente. Mesmo nestes municípios, os investimentos em educação dos governo Jorge Viana e Binho Marques fizeram subir o IDH relativo à educação. Apesar disso, a pequena proporção de residências servidas com rede de água e esgoto manteve os municípios na rabeira do ranking.
É justamente por essa razão que a expectativa é de que, quando as obras forem concluídas, e provavelmente 100% das residências urbanas sejam atendidas com rede de água e esgoto, os municípios irão dar um salto em seu IDH. Par se ter uma ideia, Rio Branco, a capital do norte com melhor cobertura de rede possui apenas 38% de suas residências atendidas. Belém, cidade mais antiga da Amazônia tem apenas 12%.
Ruas
A etapa de pavimentação das ruas já está mais adiantada. Em dezembro, o governador Tião Viana esteve nos municípios de Marechal
Thaumaturgo para inauguração de 7 kms de pavimento, de um total de 8,5 km. A cidade possui uma das geografias mais íngremes o que levou o DEPASA a adotar uma tecnologia de blocos concretados para dar mais resistência às rias que terão de passar por fortes chuvas. Já em Porto Walter, menos íngreme, a opção foi usar tijolos maciços: um método tradicional já testado e aprovado em muitos
municípios amazônicos. O trabalho, mesmo em sua faze inicial, já ressignificou a área urbana do município: o bairro antes conhecido como ‘lixão’, teve removido para mais longe o seu vizinho indesejado, transformado em aterro sanitário nos padrões exigidos.
O bairro virou ‘floresta’, e os moradores comemoram o fato de poderem se deslocar sem a necessidade do uso de sacolas amaradas sobre os calçado: um costume antigo para se preservar os calçados da lama que deve ficar na história após concluída a pavimentação.
‘O estado tem que se endividar’
Responsável pela obra, o diretor-presidente do DEPASA, Edvaldo Magalhães ousa desafiar a máxima dos governos neoliberais (e do senso comum) que pregam a redução dos gastos públicos.

‘O estado tem que se endividar’, diz, e justifica: os empréstimos da ordem de 120 milhões de reais tomados junto ao Banco Mundial em junho de 2015 serão investidos em tratamento de água e esgoto, drenagem de águas fluviais, pavimento e tratamento de resíduos sólidos nos municípios mais isolados. Irá trazer benefícios a uma população que de outro modo, somente teria acesso caso optasse por deixar suas cidades de origem e fossem para grandes centros urbanos. Benefícios que, sem a intervenção direta do estado seriam praticamente impossíveis de se conseguir.
Os empréstimos tem uma carência de dez anos e serão pagos mediante amortizações junto ao FPE. Os resultados contudo, começarão a serem percebidos em breve, por exemplo, com a redução de mortalidade infantil por doenças ligadas diretamente à qualidade da água, como diarreias e hepatites. Uma dívida justificável mediante o benefício humano. ‘O governador Tião Viana irá entrar para a história do Acre como o governador que mais investiu em saneamento básico’, exalta Edvaldo Magalhães.
Uma epopeia digna ‘Fitzcarraldo’
Na solenidade política que inaugurou parte do pavimento do município de Marechal Thaumaturgo, o governador Tião Viana usou a figura de ‘Fitzcarraldo’ para simbolizar a epopeia que significa deslocar insumos, materiais e pessoal para municípios mais isolados.
Uma pena que talvez pouca gente na plateia conhecesse a epopeia de Fitzcarraldo: o irlandês que no auge do ciclo da borracha cruzou com um barco, as matas e morros entre as bacias do Madre de Dios (Madeira) e Ucayalli, saga imortalizada no igualmente épico filme de Werner Herzog.
Apesar da distância de mais de um século que separam Fitzcarraldo do atual Programa de Saneamento, a comparação faz sentido. Não há ligação rodoviária, as pistas de pousos por vezes permanecem fechadas devidos às condições meteorológicas (nossa equipe ficou ‘presa’ em Porto Walter devida a uma chuva) e mesmo os rios (Juruá, Tarauacá e Purus) não oferecem condições de navegabilidade o ano todo. Um fator complicador no transporte de materiais como areia, brita, tijolos, ferros, canos e mais outro tanto necessário às obras.
“Não estamos olhando para a questão do voto. O tamanho dos investimentos e os esforços para realizar obras de saneamento nos municípios mais isolados do estado, demonstram que esta é uma decisão política que não é ‘eleitoreira’, mas sobretudo humanitária”, conclui Edvaldo Magalhães.

