Uma história de superação e amor, é como a dona de casa Gleide Melo, de 44 anos, resume o que viveu com o filho Agleilson de Freitas, quando ele tinha apenas 12 anos. Freitas foi diagnosticado com insuficiência renal, precisou de um transplante de rim e a mãe foi a doadora.
Recordar tudo o que passou há quase 13 anos com o filho, que é surdo-mudo, ainda traz dor, mas também é motivo de agradecimento e emoção. A dona de casa lembra que o drama começou em 2006, quando o então adolescente começou a ter febre constante e inchaço no corpo.
Moradores da cidade de Cruzeiro do Sul, no interior do Acre, assim que tiveram o diagnóstico da doença eles precisaram viajar para a capital, Rio Branco, para iniciar o tratamento. Além de precisar se mudar de cidade com a mãe, o menino teve que passar por uma rotina de hemodiálise.
Depois de mais de um ano sem sucesso no tratamento, o transplante foi a única saída encontrada pelos médicos. Assim que recebeu a notícia, Gleide não pensou duas vezes e foi a primeira a se candidatar a fazer os exames para saber se era compatível e nem teve medo das consequências.
“Quando o doutor falou que ele tinha que fazer o transplante, eu me apavorei e logo disse: ‘vou doar meu rim’. Já comecei a fazer meus exames e deu positivo para compatibilidade. Meu medo não era morrer, era de acontecer alguma coisa com ele, só queria salvá-lo, porque meu filho tinha tanta vontade de viver”, contou a mãe.
Recomendação ao médico
A dona de casa ainda lembra do olhar de esperança do filho quando os dois entraram na sala de cirurgia. Naquele momento, ela resolveu fazer uma recomendação ao médico, que se fosse para escolher entre ela e o menino, que o médico salvasse seu filho.
“Falei para o médico que se acontecesse alguma complicação durante o procedimento e tivesse que salvar um de nós dois, que salvasse meu filho, porque eu já tinha vivido mais que ele. Lembro bem quando eu disse: ‘salve ele’. Foi o que eu mais pedi”, relembra.
A cirurgia, realizada no dia 12 de setembro de 2006, foi considerada um sucesso. Segundo a mãe, o rim devolveu um padrão normal de vida ao filho. Freitas, hoje com 25 anos, só precisa ir para Rio Branco a cada três meses para fazer exames de rotina.
“Mudou tudo na vida dele, ele voltou a ir para escola, saiu daquelas máquinas, que são horríveis, ainda mais para uma criança. Nosso amor já era grande, e hoje nós temos uma ligação ainda mais intensa depois de tudo que passamos. O Agleilson conseguiu se formar em pedagogia, na quinta-feira [9] e tem uma saúde ótima”, afirmou.
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Primeiro transplante do Acre
O transplante de Freitas foi o primeiro feito no Acre. A mãe conta que quando recebeu a notícia de que o filho teria que passar pela cirurgia, os médicos ainda cogitaram mandá-lo para São Paulo (SP), mas ela aceitou que o procedimento fosse feito no estado.
“Foi na época em que ia inaugurar a sala de transplante aqui no estado, aí os médicos perguntaram se eu tinha coragem de doar meu rim em Rio Branco, eu disse que tinha. Todo mundo da família e amigos diziam que não era para eu fazer isso, porque era o primeiro e eu dizia: ‘o Deus de lá é o mesmo Deus daqui’. Eu queria era resolver logo”, disse a mãe.
Conforme dados da Central de Transplante do estado, desde 2016 foram feitos cerca de 260 procedimentos no Acre. Dos transplantes, foram 92 de rins, 44 de fígado e outros 124 de córnea.