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Acreano diz que está há 25 anos sem beber água; amigos confirmam o feito

Por Redação Juruá em Tempo.29 de dezembro de 20195 Minutos de Leitura
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Ele não é propriamente um sem-teto, um cidadão em situação de rua, como se diz na linguagem formal e politicamente correta para se tratar de pessoas que não têm onde morar. Embora ocupe apenas a varanda de uma residência praticamente abandonada, no bairro da Alegria, em Rio Branco (AC), ele é um dos donos do pedaço, um dos herdeiros do imóvel semiabandonado desde que os pais morreram e os irmãos, bem sucedidos, foram cuidar de suas vidas e o abandonaram ao próprio destino.

Ele ficou no seu canto, dormindo no que resta de um sofá velho. Além de conforto, de móveis e outros bens, ali falta de tudo, comida e água, principalmente. Se bem que, mesmo naquele ambiente insalubre, água é um elemento absolutamente dispensável já que o ocupante daquele espaço, um certo Edileudo Benjamim da Rocha, conhecido como Leko, de 54 anos, só toma banho quando pega chuva e diz estar – e os amigos confirmam – há pelo menos 25 anos sem tomar água – sim, 25 anos de beber água!

Ele come e sobrevive graças à ajuda dos amigos – e ainda bem que são muitos! No Bairro da Alegria, mesmo sendo ele um alcóolatra capaz de trocar água por cachaça, cerveja e outras bebidas – desde que contenham álcool, é uma pessoa querida, quase uma unanimidade. Que o digam, por exemplo, o procurador jurídico do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas do Estado (TCE), Mário Sérgio de Oliveira e sua esposa, Nádia Canizo, que o conhecem desde que passaram a morar no bairro, há quase três décadas, e sempre o socorrem com comida. Ou o empresário Antônio José dos Santos, o “Antônio do Bezerra”, e sua esposa Roquelene, que são as pessoas que mais o assistem com a doação de comida, que ele ingere raramente também. “Quase todos os dias, ele almoça com a gente por aqui. Isso quando ele quer, porque muitas vezes ele não quer comer de jeito nenhum”, disse Antônio. Segundo o comerciante, mesmo após comer alguns bocados, ele continua a enjeitar a água.

“Eu bebo com ele, muita pinga, em mais de 25 anos. E se eu disser que, nesse tempo todo, eu vi ele com um copo d’agua na mão, eu estou mentindo”, completa Esaú Porto da Costa, de 58 anos, também morador da Rua da Alegria, no bairro do mesmo nome, companheiro de copo e de cruz do famoso Leko – sim, famoso porque, em todo bairro e adjacências, ele é conhecido por não tomar banho e, principalmente, não beber água – só aquela que passarinho não bebe.

Mas famoso também porque, antes de passar a viver de forma tão espartana, Leko era um ídolo das torcidas de vários clubes por onde passou como jogador profissional do futebol acreano – Vasco, Rio Branco e Juventus. “Fui criado dentro do Juventus”, diz, num raro momento em que resolve abrir a boca para dizer uma frase com uma alguma coerência. “Verdade”, confirma o amigo Esaú.

O arisco ponteiro direito e às vezes atacante com muito senso de oportunidade, num jogo qualquer, nos início dos anos 90, sofreu uma entrada dura de um zagueiro adversário e fraturou o pé direito. Tratou-se, mas a dor e o medo de uma nova fratura persistiram de tal forma que ele preferiu abandonar os gramados de futebol e dedicar-se, literalmente, a beber – desde que não seja água. Quando perguntado sobre se se lembrava da última vez que bebeu água, ele é duro com o repórter:

– Tem coisa mais interessante para perguntar não?

A ele, não. Talvez aos médicos. O Ministério da Saúde recomenda ao ser humano a ingestão de pelo menos dois litros de água diariamente. Pessoas adultas, segundo o órgão, independentemente do sexo, devem beber em média 2,2 litros diários, segundo alguns autores, e 2,5 litros, segundo outros. Embora haja alguma dúvida quanto à quantidade correta de água ingerida pelo ser humano e se o número de litros indicados variam de acordo com o sexo e com a idade, é consenso que a ingestão diária de água é fundamental para a sobrevivência. Diz a literatura médica que a água ingerida não pode ser inferior àquela eliminada pela urina, fezes, transpiração e respiração. Assim é possível perceber que a quantidade de água que deve ser ingerida varia de pessoa para pessoa, dependendo de suas atividades diárias e de seu estado de saúde.

Uma pessoa que faz exercícios físicos e, consequentemente, perde muita água pela transpiração necessita de maior hidratação quando comparada a uma pessoa que passa grande parte do dia em repouso. Uma maior hidratação também é recomendada para pessoas com queimaduras, com diarreia prolongada, que consomem álcool, que fazem uso de diuréticos, diabéticos, gestantes, lactantes, entre outros.

Além dos hábitos de vida e da saúde de cada um, a idade e o sexo também influenciam na quantidade de água necessária. Bebês de até seis meses de idade, por exemplo, não necessitam ingerir água, uma vez que retiram essa substância do leite materno. Segundo alguns autores, adolescentes do sexo masculino devem beber 2,6 litros de água, enquanto as meninas necessitam de 1,8 litro.

É aqui que entra uma pergunta sobre o assunto a um médico, Jenilson Leite, que é também deputado estadual (PSB), formado em Cuba e especialista em medicina em geral, o chamado médico generalista. Segundo ele, é possível, sim, um ser humano como Leko sobreviver tanto tempo sem tomar água. “Ele encontra água na cerveja e na cachaça que ingere. Não é recomendável, mas é possível, sim, um ser humano passar tanto tempo sem beber água”, disse Jenilson Leite. “Ele não sobreviveria sem ingerir nenhum tipo de líquido”, acrescentou o médico.

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