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Artigo: A humanidade jamais será a mesma

Por Redação Juruá em Tempo. 25/03/2020 12:06
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Por Francisco Afonso Nepomuceno (carioca)

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A pandemia provocada pelo coronavírus alastrou-se pelo planeta carregando consigo grande preocupação e, em muitos casos, morte. Mas trouxe também uma certa solidariedade compulsória e a certeza que a humanidade jamais será a mesma após tão incômoda visita. Reflexões provenientes das mais variadas vertentes atestam a mudança de valores, sensibilidades e o alvorecer de uma nova esperança, na crença que a felicidade pode ser vivenciada por muitos. À primeira vista mudanças tão profundas parecem utópicas.

Analisando pela perspectiva da contemporaneidade, e com a extrema perplexidade que o tempo passado nos permite, é possível traçar paralelos com o antigo mundo grego. Nele os “homens da economia” ou, no dizer moderno, os “homens de negócios” eram os de importância menor. Na Atenas de Péricles a proeminência de um homem era medida pela sua participação nos destinos da Pólis, isto é, na esfera pública, na política. A esfera privada, onde se inseria a atividade econômica, era o ambiente dos escravos.

Em seus dois séculos e meio de história, o capitalismo subverteu por completo essa hierarquia. Valores outrora enobrecedores da condição humana foram aviltados pelo capitalismo. O acúmulo de bens materiais é o parâmetro social comum definidor de sucesso e fracasso, pois “ter” ocupa o mais elevado degrau quando comparado ao “ser”. O espírito competitivo onde o sucesso de uns só ocorre mediante o fracasso de muitos induz um egoísmo que oblitera qualquer importância de valor coletivo. O consumo exacerbado consagrou o hedonismo como parâmetro de felicidade.

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Hoje, diante da gravidade da situação de saúde pública gerada pela pandemia, os hábitos e estilos de vida orientados pelos valores capitalistas revelam a fraqueza das sociedades no combate ao vírus. Sustentada nesses pilares, como apregoam os ideólogos do sistema, a humanidade descortinou sua vulnerabilidade. A rede pública de saúde tem se mostrado a forma mais eficaz de atender o povo e combater a pandemia. A estatização de um hospital na Inglaterra, desfazendo um dos dogmas da Era Thatcher, atesta que na hora de se preocupar com a vida é melhor não confiar no mercado.

A escolha que fizermos após a tormenta do coronavírus induzirá os historiadores no futuro a olhar para o atual momento com a mesma perplexidade com que olhamos para o paradoxo entre o antigo mundo grego e o capitalismo atual. Não será tarefa fácil, num futuro equidistante, narrar para filhos e netos que em 2020 a melhor maneira de proteger os nossos entes queridos era nos afastarmos fisicamente deles. Igualmente espantoso será dizer que famílias, após anos morando na mesma casa, com o confinamento imposto, descobriram que eram na verdade seres estranhos uns aos outros, infensos ao mais leve gesto de carinho, pois não havia intimidade. A relação de pais e filhos no mesmo endereço era meramente ornamental pois as tarefas a que eram submetidos no cotidiano os afastava, ainda que dormissem no mesmo teto.

Vivemos a máxima capacidade produtiva do sistema capitalista; os avanços da ciência e da tecnologia são extraordinários. No entanto, o resultado desse processo é a mais brutal concentração de renda da história. Nunca os ricos foram tão afortunados como hoje. O modelo, entretanto, provou ser um fracasso quando foi necessário colocar necessidades humanas no centro, como revela a pandemia. Do alto da sua arrogância, em certo momento os ideólogos do sistema chegaram a proclamar “o fim da história”. A emergência da saúde pública atual fez aflorar o que muitos homens e mulheres preocupados com a vida já tinham bradado pelos quatro cantos do planeta: o neoliberalismo é anti-humano na sua essência, pois é excludente; a obtenção de lucro é sua única razão de ser. Por tudo isso, devemos continuar gritando a plenos pulmões que “um outro mundo é possível!”.

Francisco Afonso Nepomuceno é mestre em História e professor do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Acre.

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