Vendas online de bebidas alcoólicas aumentam até 800% na quarentena
Com o isolamento social e o fechamento de bares e restaurantes, as vendas online de bebidas alcoólicas tiveram umboom durante a quarentena. A mudança de hábito do consumidor elevou em até 800% o volume de pedidos em empresas de e-commerce e delivery.
É o caso do marketplace Cerveja Artesanal Store, que verificou a escalada a partir de 17 de março. O faturamento mensal saltou de cerca de R$ 12 mil, em janeiro e fevereiro, para quase R$ 108 mil. O tíquete médio, que começou o ano em R$ 77, agora supera R$ 220.
“Foi um pico que nunca tinha visto”, afirmou o fundador da Cerveja Store, Edmir Filho. “As principais empresas de cerveja têm redes de distribuição bem formadas, dominam os supermercados. O cervejeiro artesanal vende na sua cidade, no bar do amigo. Ele vive geralmente com essa venda local e um pouco on-line”, explicou.
A procura por parte de produtores de cervejas artesanais cresceu, e o portfólio da empresa quase dobrou. Ao longo da quarentena, Filho cadastrou 40 novas marcas e 200 rótulos. Com mais opções e tempo, a permanência dos consumidores no site tem sido mais longa.
O paulista Renato Alves, de 33 anos, adquiriu o hábito de pesquisar sobre degustação e harmonização. Ele está prestes a concluir um curso de sommelier e administra a página ‘Na Onda do Malte’, na qual produz conteúdo sobre cervejas artesanais.
Acostumado a frequentar bares, o gerente de canais se adaptou à nova forma de consumo online. Nas últimas três semanas, ele gastou R$ 700 em cerveja – mais ou menos o dobro do que de costume. “Começamos a pensar em como ter uma experiência em casa, experimentar novos sabores”, disse. “Já fazia compras online de outros produtos e vou manter, com certeza, com a cerveja”, afirmou.
O Clube do Malte registrou altas de 50% e 70% nas vendas em março e abril respectivamente. As assinaturas cresceram 56% em relação ao primeiro bimestre. A empresa verificou um comportamento voltado ao estoque, em especial com a compra de kits com mais cervejas. Já na Evino, o pedidos saltaram 20% entre fevereiro e março, em comparação ao mesmo período de 2019.
De acordo com Carla Oliveira, co-fundadora da Brindisi, o cenário está mudando a cada semana e as empresas devem buscar o equilíbrio em três pilares: qualidade do produto, bons preços e agilidade de entrega.
“O novo normal será as pessoas experimentarem algo que esteja próximo, já que sua casa é este novo centro de convivência. As interações pelas mídias sociais fazem os relacionamentos se estreitarem e um conjunto novo de encontros, happy hours e bate-papos podem ser realizados no momento do cliente”, afirmou.
O servidor público Renne Barros, de 31 anos, por exemplo, passou seu aniversário na companhia de uma garrafa de vinho e um bolo individual – também encomendado. Sem familiares no Rio de Janeiro, onde mora, a solução foi realizar chamadas de vídeo com os parentes e amigos.
“Passei a noite fazendo conferência, ligando de um para o outro. Enquanto isso, uma garrafa de vinho foi embora”, contou Barros, que comprou 28 garrafas de vinho via ecommerce para a quarentena. O servidor mora ao lado de um supermercado, mas as idas até o estabelecimento têm ficado cada dia mais raras. As promoções online de kits o convenceram a testar o serviço.
Para Jessica Gordon, CEO da Bebida na Porta, uma startup de entregas de São Paulo, os pedidos virtuais devem virar tendência mesmo após a quarentena. Sua empresa cresceu 250% do ano passado para cá e, somente nesse período, a demanda subiu 80%. A previsão é de mais de 7 mil pedidos em abril, frente a 3.800 em março.
“Essa quarentena só acelerou ainda mais esse processo de crescimento do pedidos online”, disse Gordon. Por conta disso, sua empresa já está criando um aplicativo próprio – hoje tem parcerias com empresas de marketplace como Ifood – e pretende expandir seus pontos de distribuição.
Mesmo trabalhando com todo tipo de bebidas, a cerveja lidera os pedidos. “Cerveja e cigarro é o que chama o cliente a conhecer a gente numa emergência, conveniência ou falta de tempo”, salienta a CEO.
O boom do e-commerce, no entanto, não representa a realidade de todas as empresas de bebidas. Pesquisa da Abrabe (Associação Brasileira de Bebidas) mostra que, na segunda quinzena de março, houve queda de 52% do faturamento do setor. Entre as empresas, 40% relataram retração nas vendas depois do isolamento social.
Para contrabalancear, os empresários têm investido em soluções online. A sommelier e consultora Gabriela Bigarelli passou a atender por Instagram em meio ao confinamento. Ela também aposta em lives e novos formatos para ampliar o conhecimento do consumidor e convertê-lo em vendas.