Após isolamento, médica pega filho no colo depois de se afastar por mais de 1 mês para trabalhar em hospital no AC
Pelo segundo ano, a médica Ana Carolina Cavalcante, de 37 anos, vai comemorar o Dia das Mães depois de ter tido o pequeno Joaquim Antônio de apenas um ano. Mas, desta vez o abraço no filho vai ter outro significado. Isso porque há mais de um mês ela não pega o filho no colo e nem se aproxima do menino.
Por fazer residência médica em ginecologia e obstetrícia na Maternidade Bárbara Heliodora, em Rio Branco, ela optou se afastar da família quando os casos começaram a aumentar no estado e também quando colegas que trabalhavam com ela começaram a testar positivo para a doença.
Depois de cumprir um período de isolamento ao pedir para se afastar do hospital, ela voltou para casa neste domingo (10) e vai poder abraçar novamente a criança.
Deixar de estar com a família para cuidar de outras pessoas é a realidade de muitos profissionais da Saúde que estão na linha de frente na guerra contra o coronavírus. Muitos deixaram de ir em casa para poupar a família da doença.
Mãe de primeira viagem, a médica precisou tomar uma decisão difícil quando o filho tinha ainda 11 meses: se afastar para mantê-lo seguro. Ela também mora com o marido, mãe e uma avó de 90 anos.
Parabéns do portão de casa
Foi assim por mais de um mês. Para matar a saudade do filho, ela ia até o portão de casa, o via de longe para acalmar o coração.
“Eu ia na frente da minha casa, falava com eles no portão e eu ficava no carro, longe. Todo dia passava para ver como meu filho estava e meu esposo ficou tomando conta do meu meu filho, minha mãe e avó”, diz.
A parte mais difícil da distância foi no último dia 29, quando Joaquim comemorou o primeiro ano de vida. Para não perder a comemoração, de máscara e do portão de casa, a médica cantou parabéns para o pequeno.
“Eu fiquei do portão cantando parabéns e acompanhando tudo”, relembra.
Mas, no mesmo dia em que o filho completou um ano, o marido começou a sentir alguns sintomas da doença. Segundo Ana Carolina, foi aí que ela decidiu pedir à direção do hospital que ela pudesse se afastar das atividades para cuidar do filho, que ela ainda amamenta.
“Durante este período que meu marido e minha mãe cuidaram dele, eu tirava o leite do peito e eles davam a ele. Mas, decidi pedir afastamento para poder cuidar dele”, conta.
Isolada, médica mantinha contato com o filho por videochamada — Foto: Arquivo pessoal
Isolada em hotel
Com o pedido aceito, a médica foi para um hotel e cumpriu mais de 7 dias de isolamento, já que trabalhava no hospital. Esse período foi para ter segurança de que não iria apresentar sintomas da doença.
“Fui para um hotel e continuei vendo meu filho por videochamadas. Resolvia tudo pelo telefone”, conta.
Mas, o marido dela começou a apresentar piora da doença. A médica acredita que ele tenha contraído o vírus porque era o único que saia de casa para ir ao supermercado e fazer coisas essenciais.
“Assim que ele começou com os sintomas, pedi que ele fosse para a casa da mãe dele, onde tem um quarto que ele pode ficar isolado. Durante a semana, ele foi piorando, fizemos o exame e na quinta [7] recebemos o resultado positivo. Agora ele está medicado e em recuperação”, conta.
A médica disse que ninguém mais na casa apresentou sintomas, por isso, não fizeram os testes. Passados os dias de isolamento, ela voltou para casa no mesmo dia em que se comemora o Dia das Mães e vai poder pegar o filho no colo depois de mais de um mês sem tocá-lo.
“O dia anterior foi de muita ansiedade. Enquanto meu marido estava doente, eu fui resolvendo tudo pelo telefone e foi uma tortura, fiquei com muito medo, mas agora ele está melhor e meu isolamento no hotel já completou sete dias e posso reencontrar meu filho e minha mãe e passar esta data com eles”, conta.
Mesmo sem a família completa, já que o marido agora precisa ficar longe, Ana Carolina diz estar feliz por poder ficar perto do filho novamente.
“É difícil manter essa distância, ver de longe, não poder abraçar, não poder beijar, é triste. Mas, a gente se fortalece quando pensa que está fazendo para o bem, mas é muito difícil quando se afastar é necessário e o melhor.”
Toda essa distância serviu para que a médica refletisse muito. Ela diz que o reencontro é um misto de sentimentos.
“É uma felicidade estar com minha mãe, com meu filho, felicidade única. Esse período deixa a gente bem sensível, a gente fica com medo de perder as pessoas. Não é brincadeira, não é uma coisa simples. Quando a gente vê de perto o corona, um inimigo invisível que está perto, é assustador”, finaliza.
“Eu era o risco para eles, então fiquei na maternidade direto, sem ir pra casa e também contei com a ajuda de uma amiga, que mora sozinha e trabalhava junto comigo. Dormia na casa dela para não colocar ninguém da minha casa em risco”, conta.
Tácita Muniz – G1