Ex-seringueiro que morreu de Covid-19 no AC tinha comércio e amava festa: ‘gostava de tudo’, diz filho
Para quem conheceu o significado do trabalho ainda criança, se aposentar soa como uma sentença. Por isso mesmo, aos 81 anos, Francisco Zacarias Rodrigues mantinha um pequeno comércio onde vendia de tudo um pouco no bairro Estação Experimental, em Rio Branco.
Ele foi mais uma vítima de Covid-19, que morreu no último dia 26. Ele estava internado no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia do Acre (Into) desde o dia 15 de maio. A morte dele foi divulgada no boletim parcial da Secretaria de Saúde do Acre (Sesacre) nesta quinta-feira (28) e o documento atesta que ele não tinha registros de outras comorbidades.
Nascido no seringal São Pedro, no Rio Iaco, Chico, como ficou conhecido durante a vida, trabalhou no corte de seringa. Andava pelas matas ainda criança para extrair o látex para a produção da borracha.
Na década de 60 decidiu tentar a sorte em Rio Branco, quando virou comerciante. Mas, nunca deixava suas origens de lado. Prova disso é que no pequeno comércio deixava clara a ligação com a mata, vendia também raízes e plantas para a produção de chá.
O filho mais velho, Antônio Soares, conhecido como Rufino, conta que a vida do pai foi dedicada ao trabalho.
“Começou a trabalhar no seringal ainda muito novo, mas sempre dando assistência aos pais até decidir ir para Rio Branco e foi trabalhar no ramo do comércio, fez de tudo um pouco. Seringueiro, sempre foi um bom filho, um bom pai, dedicado, amoroso, mas muito rígido. Como teve uma criação severa, criou os filhos dentro do limite, do respeito”, relembra o filho que mora em Porto Velho (RO).
Ele não teve como se despedir do pai, por estar longe, e porque os enterros de vítimas de Covid-19 não permitem aglomerações, nem mesmo uma despedida.
Entre a morte e o enterro, é tudo tão rápido que a família custa acreditar. Mas, a lembrança de um homem forte e festeiro permanece.
“Nunca teve lazer, sempre foi dedicado ao trabalho. Gostava de tudo, menos de preguiçoso, esse aí não era amigo dele. Meu pai sempre valorizou os pais e a gente se inspira na vida dele”, relembra o filho.
Origens
Mesmo com mais de 50 anos morando em Rio Branco, Chico nunca esqueceu as origens. A narrativa preferida ela lembrar a vida que teve nos seringais do estado.
Prova disso foi que no ano passado, ao completar 80 anos em abril, fez questão de fazer uma festa onde o tema foi justamente seringal. Na comemoração, ele foi vestido de seringueiro, teve troca de roupa e uma imensidão de amigos e familiares.