Rio Branco, Acre, 31 de julho de 2021

National Geographic diz que rodovia na Serra do Divisor estimula narcotráfico, mineração e desmatamento

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Redação Juruá em Tempo.
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Uma reportagem publicada pela National Geographic nessa segunda-feira, 14 , narra os prejuízos que a biodiversidade da região da Serra do Divisor, no interior do Acre, poderá sofrer com a construção da rodovia que deve ligar o país ao Peru através do estado.

Dois projetos em paralelo preveem a construção de uma rodovia dividindo o Parque Nacional da Serra do Divisor em dois e a privatização do território do Parna, abrindo caminho ao desmatamento, ao gado e à extração mineral, diz a publicação.

A reportagem explícita que as propostas são impulsionadas por dois parlamentares bolsonaristas do estado do Acre. “A ideia da estrada foi encampada pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido), que já tomou os primeiros passos para a construção do lado brasileiro da rodovia, mas ainda não se pronunciou sobre o projeto de lei em tramitação no Congresso que revoga o Parna da Serra do Divisor”, relata.

Especialistas temem que, caso construída, projeto de estrada que corta o liga o extremo noroeste do Brasil com o Peru estimularia a mineração, o desmatamento e o narcotráfico.

O prolongamento da BR-364, que hoje termina em Mâncio Lima (670 km de Rio Branco) começou a ser discutido na década de 1970, durante a ditadura militar, e está previsto no decreto de criação do Parna, em 1989, durante o governo José Sarney (PMDB). Mas o projeto parecia esquecido com a inauguração, em 2010, da Rodovia Interoceânica (Estrada do Pacífico), que já liga o Acre e o Brasil à costa peruana.

O próprio Bolsonaro defendeu o projeto em uma live no Facebook, argumentando que abrirá uma passagem do Brasil para Pacífico – e ecoando o discurso do então presidente Lula (PT), nos anos 2000, quando viabilizou a primeira rodovia, em parceria com o colega peruano Alejandro Toledo, hoje foragido da Justiça.

O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT) prepara o Termo de Referência para a contratação do projeto, orçado em pelo menos R$ 500 milhões, segundo estimativa oficial. A autarquia informou que ainda não existe a extensão detalhada da rodovia federal, mas que o lado brasileiro terá cerca de 120 km, dos quais 20 km (17%) dentro do parque da Serra do Divisor.

Projeto divide opiniões

Lideranças indígenas e ribeirinhos afirmam que até agora não foram consultados sobre a rodovia – como determina a legislação – e preveem impactos socioambientais negativos. “Até hoje, a primeira pessoa que chegou perguntando pra mim falar sobre a estrada é o senhor”, disse à reportagem o cacique Joel Puyanawa, em conversa no centro cultural do seu povo.

Separada do casco urbano de Mâncio Lima (AC) por uma estrada de terra de 10 km, a Terra Indígena Poyanawa, com cerca de 680 moradores, está na área de influência direta da rodovia. Salles esteve ali em 27 de junho, mas Joel não se reuniu com ele. Diante de lideranças indígenas, o ministro discursou que “o tempo é de integração”, ao defender o projeto rodoviário.

“O entorno da nossa terra já está todo comprometido. Já sabemos o prejuízo que as invasões causam. Os brancos vivem caçando na nossa terra, e as instituições ambientais não têm uma política para impedir. Imagina uma rodovia. Quantos milhões de pessoas vão transitar? Vai aumentar o agronegócio? Vai. Mas a nossa sobrevivência não está no agronegócio”, diz o cacique, recém-eleito vereador pelo PT.

Puyanawa teme também que a rodovia passe por cima de uma área sagrada que está fora da terra indígena demarcada. Foi nessa região que, por volta de 1910, seu povo foi capturado para ser escravizado pelo coronel seringalista Mâncio Lima (1875-1950). Apesar disso, é retratado como herói pela história oficial, a ponto de ser homenageado com o nome da cidade.

“Essa rodovia ameaça 100% a nossa terra, destrói o nosso sítio sagrado. Basta o prejuízo que tivemos com o coronel. Se a BR sair, extermina a história do nosso povo”, afirma.

Por outro lado, prefeitos e empresários apostam na estrada para acabar com o isolamento geográfico da região mais ocidental do país. Apesar de ser do mesmo Partido dos Trabalhadores, o prefeito reeleito de Mâncio Lima, Isaac Lima (ele não é parente do coronel), é um entusiasta da estrada – a ponto de ter aberto, por conta própria, uma picada de 40 km no provável traçado da rodovia.

Da National Geographic

ALEAC

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