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sábado, junho 25, 2022

Aos 30 anos, jornalista se descobre bissexual e ganha música da noiva ao ser pedida em casamento em tenda de umbanda

Por redação.

Quem não quer a sorte de um amor tranquilo? Como questionava Cazuza em uma de suas músicas mais famosas. Foi assim que o amor da jornalista Maria da Liberdade Meirelles, de 31 anos, e da professora Thays Cavalcante, de 25, foi sendo construído aos poucos. Com autoconhecimento e tendo a religião como guia, já que as duas são umbandistas e se conheceram na Tenda Luz da Vida, em Rio Branco, elas têm caminhado juntas há dois anos.

Neste Dia dos Namorados, o g1 conta a história de amor destas duas mulheres, já que junho também é o mês do orgulho LGBTQIA+.

O sentimento romântico por uma mulher foi novidade para Maria, que, até os 30 anos se reconhecia como heterossexual. Diferente de Thays, que é uma mulher lésbica, a jornalista só havia se relacionado com homens e precisou de um tempo para processar o novo sentimento. Uma redescoberta, nas palavras dela.

“Quando a gente passou a conversar, logo percebi o interesse dela, mas demorei um pouco para perceber o meu interesse, porque costumo dizer que a heteronormatividade é meio compulsória. A gente é criada em um universo hétero, as minhas amigas ficavam com homens, então sempre me relacionava com homens e, por eu ser bissexual, era natural porque não era algo que me incomodasse ficar com homens”, conta a jornalista.

Só que o interesse foi aumentando e para algumas amigas mais íntimas Maria já havia revelado que, se fosse ficar com mulher, ficaria com Thays.

“Foi um processo interno muito profundo, mas também não sou muito de ficar me lamentando e pensando muito nisso. Depois que caiu a ficha e fui me autoconhecendo, pensei qual seria o motivo de eu não ter me descoberto antes”, conta.

Maria não carrega apenas a liberdade no nome, mas também sempre lutou por tudo que acredita, tudo que a faz sentir-se bem. Ela disse que conhecer a namorada e passar por esse processo dentro da umbanda, onde encontrou apoio, fez toda a diferença.

“A gente brinca que a umbanda e a ayahuasca são nossa terapia de casal. Para mim, teve o processo de autoconhecimento para eu poder falar, mas quando resolvi ser feliz e de fato viver isso, foi muito tranquilo porque costumo dizer que quando está tranquilo internamente, as coisas externas conseguem ser mais tranquilas. Eu sempre fui na minha família uma transgressora, vamos dizer assim. A parte da minha outra família, que é a biológica, porque tenho dois pais e duas mães, ela é toda evangélica e eu sempre fui de esquerda, sempre fui feminista, sempre escolhi os meus próprios caminhos”, relembra.

Ela também é a única da família que mora no Acre e diz que tenta levar com leveza os rótulos e sente orgulho da sua caminhada.

“Tive dos meus pais muito acolhimento, também dos meus amigos, mas principalmente da minha religião. Estar inserida em um ambiente que te enxerga naturalmente com relação a isso é muito importante, então esse ambiente que eu já caminhava há muito tempo, e que pra mim é um ambiente de paz, de autoconhecimento, me trouxe a tranquilidade para poder me reconhecer e dizer: ‘estou feliz e quero ser desse jeito.’”

As duas durante protesto contra o presidente em Rio Branco — Foto: Arquivo pessoal

As duas durante protesto contra o presidente em Rio Branco — Foto: Arquivo pessoal

Política e amor

É difícil tentar separar a história das duas da política. Isso porque Thays conta que, antes mesmo de ver Maria pela primeira vez no terreiro da umbanda, já havia visto algumas postagens dela no Twitter. O arroba na rede social da jornalista chamou a atenção da professora.

“Ela usava no perfil um ‘Fora Bolsonaro’ e, por a gente ter algumas pessoas em comum, aparecia as postagens dela para mim e achava algumas coisas bem interessantes”, relembra.

Ela só conheceu Maria bem depois, quando decidiu ir visitar a tenda que Maria já frequentava. No primeiro momento, não houve flerte, ela apenas reconheceu que Maria era a dona do perfil que havia chamado atenção na rede social.

As duas se conheceram em outubro de 2020, em dezembro começaram a namorar e já em abril do ano passado decidiram dar mais um passo importante: morar juntas. Com um ano de namoro, Thays então decidiu pedir Maria em noivado no mesmo local onde se conheceram, que é a tenda umbandista que frequenta.

‘Meu mais lindo girassol’

O pedido veio também com uma música feita por ela para a amada. Na música, ela destaca ainda a importância da religiosidade para as duas, que são unânimes em dizer que uma foi o presente da outra para seguir os caminhos, sendo conduzidas por seus guias.

E foi por meio da arte, no ambiente em que mais se sentem à vontade, que Thays se declarou ao revelar para Maria a música “Meu mais lindo girassol”.

Todo dia ao acordar
É ao teu lado que eu quero estar
Partilhando sonhos e sorrisos
Me encontrando no teu olhar
É bem fácil saber como pude me apaixonar
É bem fácil saber como pude me apaixonar
Tu tens encantos das águas doces
E reluz o ouro de Oxum
Meu pai Xangô nos abençoou
A espiritualidade é que nos conduz
Nosso amor é plenitude
Mansidão e vendaval
Ao teu lado sou feliz
Meu mais lindo girassol

Foi assim que as duas noivaram, recebendo muito amor dos amigos que viram o amor começar e ir amadurecendo. Para Thays, ter pontos tão comuns com Maria, como a religião, a política e objetivos de vida faz com que a relação seja leve e uma ser porto seguro da outra.

“Essa história de os opostos se atraem é muito pesada pra gente, porque a gente acaba querendo se encaixar em caixinhas que nunca vai caber. Na minha relação com a Maria, a gente se completa, isso é muito real. Ter esses objetivos em comum, ideologias em comum, porque, embora a gente seja muito complementar, a Maria me tira muito da minha zona de conforto, a gente tem muito esses diálogos de crescimentos,” avalia.

Thays fala ainda do aprendizado que a relação traz. “Me relacionar com a Maria é um processo de autoconhecimento, de desafio, de sempre tentar ser melhor, não só pra ela. Pensei que tinha que me tornar melhor para o outro, mas a Maria me trouxe a importância de que, se eu estiver bem comigo, minhas relações vão fluir bem melhor. Então, me relacionar com essa mulher é um aprendizado todos os dias, graças a Deus, ela é de fato meu presente”, completa.

Julia, de 9 anos, estava morando com Thays e Maria  — Foto: Arquivo pessoal

Julia, de 9 anos, estava morando com Thays e Maria — Foto: Arquivo pessoal

Experiência da maternidade

Neste ano em que ficaram juntas, as duas também puderam experimentar um pouco do sentimento da maternidade. Julia, de 9 anos, que é sobrinha de Maria, estava morando com elas, porque a irmã da jornalista foi embora para outro estado e decidiu esperar um tempo para que a menina também fosse.

As duas contam que foi uma experiência ainda mais reveladora, porque, além de pensar nas duas, o casal tinha um objetivo ainda maior: dar o melhor para a pequena. Para Maria, não houve confusão para Júlia e a sobrinha sempre respeitou sua relação e torceu para que ela ficasse com Thays.

“Nunca precisei explicar para a Julia porque namoro homens, então não preciso explicar porque eu namoro mulheres, então foi tudo muito natural. A Thays foi apresentada como minha namorada e a Julia imediatamente gostou muito da Thays, inclusive, se parece muito com ela, a personalidade é muito semelhante e a gente nunca parou para problematizar, porque para a gente é natural, é tranquilo”, conta.

A menina então passou a viver a rotina do casal e também frequenta a umbanda. Tudo porque ela demonstrou interesse e se espelha nas duas mulheres que têm como referência. Sobre essa experiência, de ser responsável por alguém ao lado da noiva, Thays conta que foi uma nova perspectiva, que a fez mudar muitos conceitos e passar a pensar, ainda mais, no outro.

“Eu vinha de uma outra perspectiva de sempre estar em um relacionamento que seria Maria e eu sempre. De repente, me vi focando todos os objetivos para que a Julia sempre estivesse bem”, revela.

Agora, as duas se preparam porque a menina deve esperar acabar o semestre para ir para a Bahia, onde a mãe dela mora. Apesar de sofrerem com a saudade, as duas dizem que só querem o melhor para a menina: “A gente entende que o que é melhor para ela vai ser melhor pra gente.”

Maria diz que se reconhecer bissexual foi um mergulho intenso e teve a religião como apoio  — Foto: Arquivo pessoal

Maria diz que se reconhecer bissexual foi um mergulho intenso e teve a religião como apoio — Foto: Arquivo pessoal

‘Sempre usei sapatos muito apertados’

Sobre o mergulho no autoconhecimento e, finalmente, poder se entender como bissexual, Maria diz que foi, além de tudo, a resposta para muitas perguntas que se fazia ao longo do tempo. Como diz a música que Thays fez para ela, agora encontrou mansidão. Um lugar tranquilo onde o amor pode repousar.

“Brinco dizendo que sempre usei sapatos muito apertados para os meus pés. Brinco com esse negócio de sapatão. De todos os meus relacionamentos anteriores, e todos têm importância porque ajudaram na minha construção, o que mais me marcou foi quando decidi me relacionar comigo. Quando decidi me conhecer e acabar com um monte de faceta que fui construindo ao longo da vida para caber nos grupos”, revela.

Para Maria, a impressão que os relacionamentos passaram a ela é que nunca estava bom, sempre faltava algo. A matemática não batia.

“Me sentia excessiva nas relações anteriores, não era como se fosse muito, não era como se sobrasse. Ou era inteligente demais, ou falava de política demais ou eu era bonita demais e eu nunca cabia e eu ficava tentando me diminuir para tentar caber ali, sabe. E hoje na minha relação, não me sinto excessiva, não me sinto nem pequena, nem grande, é um local onde de fato me cabe.”

  • Por Tácita Muniz, g1 AC — Rio Branco.
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