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A investigação secreta de racismo dentro da Rede Globo

Por Redação Juruá em Tempo.13 de julho de 20223 Minutos de Leitura
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O último capítulo de Nos tempos do Imperador foi ao ar no já longínquo 4 de fevereiro. Mas os bastidores da novela continuam rendendo. Na tarde desta terça-feira, 12, o Ministério Público do Trabalho do Rio de Janeiro (MPT-RJ) aceitou abrir inquérito e colheu o depoimento das atrizes Roberta Rodrigues, 39, e Dani Ornellas, 43, que, junto a Cinnara Leal, 44, denunciaram o diretor Vinicius Coimbra, 50, de racismo na TV Globo. As atrizes são representadas pelo advogado Gustavo Proença. “A luta segue. O MPT abriu investigação para apurar possíveis práticas discriminatórias na novela. Seguimos atuando com firmeza para esclarecer todos os fatos. Vamos com este potente”, comemora Proença.

Uma fonte da produção da novela – escrita por Thereza Falcão e Alessandro Marson – relata que Vinicius teria usado diversas vezes palavras agressivas nas filmagens. Numa das cenas, na cidade cenográfica, ele teria ordenado: “Elenco pra esse lado, negros pro outro lado”. Uma das atrizes disparou: “E eu que sou do elenco e sou negra, de que lado fico?”. Ele teria ignorado. As atrizes pedem indenização pelo crime de racismo e por danos morais. Elas só decidiram ir a esferas superiores, porque comunicaram o fato aos diretores Ricardo Waddington, de entretenimento, e José Luiz Villamarim, de dramaturgia. Mas nada teria sido feito na prática.

Desde que fizeram a denúncia internamente, o compliance da emissora passou a gerenciar o caso de forma extremamente sigilosa. O trio de atrizes, entretanto, se dividiu. Enquanto Roberta e Dani se apegaram aos fatos e foram ao MPT, Cinnara queria dar sua versão à imprensa – o que foi impedido por sua assessoria, alegando um acordo firmado entre elas para uma futura publicação. Mais de uma vez, a atriz disse que “silenciar não é mais opção”, e não estava disposta a “naturalizar tudo isso”. Alegara, por exemplo, que passou a estar sob tratamento psicológico.

NARRATIVA PROBLEMÁTICA

Os autores de Nos tempos do Imperador não falam sobre o caso. A trama já apresentara problemas graves de racismo, incluídos na própria narrativa. Num certo capítulo, a mocinha branca Pilar (Gabriela Medvedovski) foi rejeitada como moradora na Pequena África – espaço de resistência de negros livres e fugidos que precisavam de abrigo no Rio do século 19. Seu namorado Samuel (Michel Gomes) disse à jovem: “Só porque você é branca não pode morar na Pequena África? Como queremos ter os mesmos direitos se fazemos com os brancos as mesmas coisas que eles fazem com a gente?”. Os telespectadores imediatamente reconheceram que a fala era problemática, o que induz à tese de racismo reverso, algo inconcebível. Na ocasião, a autora Thereza Falcão pediu desculpas pelas redes sociais, sob curiosa alegação de que os capítulos foram escritos antes da pandemia de Covid-19. Às pressas, a emissora precisou contratar o escritor e pesquisador de cultura afro-brasileira Nei Lopes para rever todos os capítulos gravados que ainda não tinham ido ao ar. Várias cenas foram reeditadas, outras gravadas de novo.

Cinco meses depois do fim da novela, Roberta é a única entre as envolvidas com trabalho ainda na emissora: estará na quarta temporada da série A Divisão, do Globoplay. Dani tem produções voltadas ao cinema ainda este ano. Cinnara não tem projetos em vista. Vinicius se mudou para Lisboa.

Por: Veja Abril.
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