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segunda-feira, julho 15, 2024

Etnoturismo fortalece tradição, cultura e economia nas comunidades indígenas do AC

Por Tácita Muniz.

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Belezas naturais preservadas, berço da ayahuasca e conhecimentos ancestrais chamam a atenção do mundo para o Acre. Localizado em uma região geográfica estratégica, que faz fronteira com Peru e Bolívia, o estado acreano mantém 85% de sua densa floresta preservada e configura-se como detentor de uma das maiores biodiversidades do mundo e de vasta riqueza de patrimônio natural.

Se há floresta, há seus protetores, que aprenderam a aliar turismo e preservação cultural e ambiental por meio de festivais indígenas, há mais de duas décadas, fortalecendo sua cultura e criando uma cadeia turística fortalecida no estado.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de indígenas teve o maior aumento em 12 anos, passando de 17.578 para 31.694 – 80,3% a mais do que o Censo de 2010. Dos 830.018 habitantes acreanos, 3,8% se declara indígena.

Ao mesmo tempo que essa população cresce, suas demandas e atividades acompanham a ascensão, encontrando no etnoturismo uma de suas principais atividades econômicas atualmente. Segundo o mapa do Ministério do Turismo, o Acre tem três regiões turísticas no estado, sendo uma delas denominada Caminhos das Aldeias e da Biodiversidade, localizada, prioritariamente em Cruzeiro do Sul, Rodrigues Alves e Tarauacá.

Festivais também fortalecem intercâmbio entre povos indígenas. Marcos Vicentti/Secom

A Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas (Sepi), criada no ano passado pelo governo do Estado justamente para direcionar as políticas públicas para essas comunidades, aponta que o Acre tem 18 povos indígenas, sendo dois de recente contato. Há mais de 240 aldeias em todo estado.

De acordo com a Sepi, as terras indígenas acreanas equivalem a 2,4 milhões de florestas em pé, sendo que a taxa de desmatamento é de 0,79% , realizado em decorrência de roçados de subsistência. São nessas terras que estão concentrados 90% da reserva de crédito de carbono do estado.

Nos últimos anos, as lideranças desses povos têm chamado a atenção do mundo para os conhecimentos tradicionais e também despertado o interesse nacional e internacional pelo etnoturismo.

Cada comunidade promove festivais indígenas e também vivências, que proporcionam ao turista um verdadeiro mergulho nas culturas tradicionais, podendo, inclusive, imergir e experimentar curas físicas e espirituais por meio das medicinas da floresta – um dos atrativos para esse público.

Para disseminar cada vez mais informação, neste ano, de forma inédita, o Estado reconheceu e listou mais de 20 festivais indígenas no calendário de eventos oficiais do Acre.

Na ocasião, o governador foi batizado com o nome Naytãnã, na língua tradicional no Povo Arara. Foto: Marcos Vicentti/Secom

Autonomia dos indígenas

De maneira emblemática, o governador Gladson Cameli marcou presença no primeiro festival dessa lista, realizado em janeiro deste ano. Fazendo história, foi o primeiro governador a visitar a Aldeia Foz do Nilo, em Porto Walter, para participar do Festival Kãda Shawã Kaya, do Povo Shawãdawa, também conhecido como Arara.

Batizado pela matriarca do povo, foi nesse evento que reafirmou seu compromisso com os povos indígenas. “Estou emocionado. Aqui tem uma energia, e me proponho a vivenciar essa experiência para que eles [indígenas] saibam que são o termômetro do mundo. Eu não vou decepcionar os povos da floresta, os povos indígenas, e vamos fazer tudo aquilo que pudermos para que a gente possa cuidar das pessoas. Nós somos iguais”, disse.

Dados da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur) mostram que o Acre recebeu turistas principalmente dos Estados Unidos, Alemanha e Portugal entre 2022 e 2023, destacando-se os aeroportos de Brasília (39,8%) e Guarulhos (25,5%) como portões de entrada.

Foi registrado o aumento 4,52% de turistas estrangeiros que chegaram ao estado por via terrestre (fronteira). Em 2022, foram 16.461 turistas e, em 2023, 17.2050, grande parte para vivenciar o etnoturismo, segundo o relatório.

As etnias Huni Kuin, Yawanawá, Ashaninka, Puyanawa e Shanenawa se destacam com festivais turísticos consolidados, que têm seu público cativo anualmente. Importante frisar que todas as etnias, exceto os isolados ou de recente contato, possuem eventos abertos aos turistas.

Brincadeira do jabuti é apresentada durante festival do Povo Arara. Foto: Marcos Vicentti/Secom

Economia

Como um dos principais segmentos do estado, o etnoturismo na economia é um dos produtos que gera renda às comunidades e garante ganhos aos indígenas, já que, durante o evento, há venda de pacotes de vivências e venda de artesanato.

“O etnoturismo é a principal vocação para o turismo no Acre. Nós apoiamos não só com recursos financeiros para os festivais, mas também com projetos sociais de educação e saúde e na infraestrutura básica das aldeias. Claro que dentro das possibilidades orçamentárias do estado. A preservação das florestas passa pela geração de oportunidades e renda à população. O turismo é uma atividade essencial nesse sentido, gerando renda em vários setores da economia”, diz o governador Gladson Cameli.

Para a secretária dos Povos Indígenas, Francisca Arara, essa é uma maneira, inclusive, de manter as comunidades nas aldeias, evitando que indígenas sofram com as mazelas frequentemente experimentadas no contexto urbano.

“Quem vai ao festival acaba movimentando a economia do local, ao ter uma vivência. Temos a venda do artesanato, as pinturas, a compra da alimentação e, no final, você deixa esse recurso na própria terra indígena”, explica.

Além disso, a secretária destaca que o incentivo do governo e a presença do chefe do Estado em eventos indígenas estimula mais ainda as pessoas a conhecerem os povos originários.

“É bom ver o compromisso do governador. Ele é muito presente nesses eventos culturais, assim como outros secretários. Além disso, são os indígenas falando para ele diretamente sobre as demandas daquela terra. Este ano ele já visitou umas sete terras indígenas e isso é muito bem visto por quem está de fora”, observa Francisca.

Não há uma informação precisa de valores movimentados nas terras indígenas, porque as lideranças não fazem esse controle, mas o governo estima que o turismo e toda sua cadeia – rede hoteleira, guias, condutores, barqueiros, transporte, mercadinhos, farmácias, bares, restaurantes e a renda anual de aldeias que recebem turistas – varie de R$ 150 mil a R$ 2 milhões por ano.

Cultura indígena chama atenção de turistas de todo o mundo. Foto: Cleiton Lopes/Secom

Uso tradicional da ayahuasca

Alguns povos indígenas do Acre apresentam uma grande peculiaridade no exercício da sua espiritualidade, com o uso da ayahuasca, que possui nomes como Uni, Dispãni Hew ou Nixi Pãe. A milenar bebida medicinal da floresta, hoje objeto de estudo de pesquisadores de todo o planeta, sobretudo por suas propriedades antidepressivas, deu origem, no século passado, a organizações religiosas consolidadas, como a doutrina do Daime e a União do Vegetal, que têm milhares de seguidores no Brasil e no mundo e continuam atraindo pessoas em busca de perspectivas de vida mais significativas.

As cerimônias indígenas que utilizam a ayahuasca têm como palco o céu estrelado das aldeias e são embaladas por músicas tradicionais que têm o poder de despertar a força natural no corpo e no espírito de quem participa. É uma oportunidade única e difícil de explicar em palavras, resultando em ricas vivências para os participantes.

Ator espanhol Miguel Bernardeau, o Guzmán da série Elite da Netflix, fez postagem sobre vivência no Acre. Foto: reprodução/Instagram

O Acre em foco

No coração da Amazônia, o Acre se destaca por sua história. De uns anos pra cá, alguns hotéis também têm focado nessa estrutura regional para atrair mais visitantes.

Trilhas ecológicas, vivências indígenas, turismo histórico-cultural e de contemplação podem ser feitos no estado acreano. Tanta riqueza tem atraído os olhares de muita gente. No fim de março, o ator espanhol Miguel Bernardeau, o Guzmán da série Elite da Netflix, foi flagrado em Cruzeiro do Sul. Já no começo de agosto, o artista compartilhou impressões sobre a experiência na Reserva Indígena Rio Gregório, do Povo Yawanawá.

“Obrigado à comunidade Yawanawá por tudo. Conhecer sua cultura e compartilhar seus conhecimentos tem sido uma experiência que me acompanhará e levarei para sempre no coração. Vejo vocês em breve”, postou em seu perfil para os mais de 5,8 milhões de seguidores.

Na mesma época, Fernando Fernandes, apresentador do programa No Limite, esteve por alguns dias na Aldeia Yawarãni, também no Rio Gregório, na Terra Indígena Yawanawá. Fez diversas postagens em redes sociais e explicou o motivo de ter escolhido o Acre para a passagem de seu aniversário.

“Não sou muito de comemorar aniversário, mas nesse novo ciclo senti a vontade e necessidade de buscar uma forma de comemorar que realmente fizesse sentido pro momento que estou vivendo, de renascimento. Depois de longos dois meses de recuperação do braço, onde a dúvida e o medo insistiram em me rondar, vim em busca da força da floresta para me restabelecer e confesso que estou encontrando muito mais do que vim procurar”, escreveu, aos seus mais de um milhão de seguidores.

Outras personalidades já passaram pelo Acre, como Joaquin Phoenix, em 2006, também nas terras indígenas dos yawanawás, no Rio Gregório. Além do cineasta, James Cameron, DJ Alok, o apresentador Richard Rasmussen e a atriz Letícia Spiller.

Acre foi o primeiro estado a receber Liga Indígena. Foto: José Caminha/Secom

Em março, o Acre se destacou ao ser o primeiro estado a receber Liga Indígena (Indigenous League). Trata-se de uma iniciativa da startup brasileira Nave Global divulgada em mais de 170 países, com objetivo de dar destaque à cultura indígena e disseminar o conhecimento tradicional por meio da linguagem universal que é o futebol. O evento se deu durante o Festival Huwã Karu Yuxibu, em Rio Branco.

“A sensação é de dever cumprido, por meio de uma união, para mostrar o potencial que temos no nosso estado, que tem respeito pelos povos da floresta, pelos povos indígenas, e onde o mundo, de fato, vai conhecer tudo o que temos aqui de natural e de potencial. O Acre está tendo a oportunidade de mostrar para o mundo o seu potencial e podemos incentivar um turismo em respeito ao meio ambiente, em que as pessoas podem conhecer a fortuna que temos aqui, que é a natureza”, reforçou Gladson Cameli na ocasião.

Outros produtos que enalteceram a cultura indígena no Acre foram a parceria do DJ Alok com indígenas do estado, para a produção de um álbum e também uma linha da marca Chilli Beans inspirada no Povo Yawanawá.

Riqueza cultural

Paka Yawanawá, jovem líder indígena da Aldeia Yawarãni do Rio Gregório, em Tarauacá, participou tanto do álbum como da coleção de óculos inspirados em seu povo. São 15 aldeias às margens do rio que recebem, anualmente, cerca de mil turistas. Segundo ele, grande parte foi em busca da medicina da floresta e cura espiritual.

Para ele, a inclusão das festividades indígenas no calendário oficial do estado faz com que a cultura seja disseminada e mais respeitada dentro do próprio território.  “O Estado nos reconhecer é muito importante, porque a gente já faz esse trabalho há muitos anos e agora passamos a ser reconhecidos aqui. A repercussão de nossa cultura internacional mostra que temos um potencial muito grande e que precisamos divulgar isso. A nossa cultura é um ouro para nós e serve para guardar e preservar. Fora isso, a questão financeira ajuda muito nossas aldeias”, detalha.

Paka salienta ainda que a expansão dos festivais é uma maneira de perpetuar a sabedoria dos ancestrais e fazer com que esse conhecimento seja repassado às novas gerações.

“É importante dar continuidade ao legado de nossos ancestrais, avós, pais, para que nunca se perca o cuidado com a natureza, com as medicinas, com a nossa língua. A gente faz o contato diretamente com a natureza através das medicinas, falamos e respeitamos, e isso é uma riqueza”, esclarece.

Para quem pretende visitar uma das aldeias para uma imersão na cultura indígena, a liderança dá a dica. “A pessoa tem que saber que não vai para um hotel cinco estrelas. Tem que se preparar e estar pronta a receber, da floresta, a medicina, a lidar com mosquitos; então ela tem que ir com o coração aberto, saber que vai para floresta e vai estar com os pés no chão e dormindo em rede”, orienta.

Festivais indígenas recebem investimentos do governo e entraram no calendário oficial de eventos. Foto: Cleiton Lopes/Secom

Ação do Estado

A Diretoria de Turismo da Secretaria de Turismo e Empreendedorismo (Sete) atuou, em 2023, em diversas frentes, conforme diretrizes e orientação de promover a atividade turística e fomentar o desenvolvimento econômico no Acre. Realizou ações de estruturação, fomento e promoção do turismo, como planejamento e execução de ações, representação em conselhos e câmaras técnicas, participação em feiras e eventos, visitas técnicas e capacitações.

Com relação aos povos indígenas, representantes estiveram na 50ª edição da maior feira de turismo da América Latina, a Abav Expo 2023, no período de 27 a 29 de setembro daquele ano, no Rio de Janeiro (RJ), promovendo o etnoturismo, com seus festivais e vivências, cultura ancestral e arte indígena. A participação teve o apoio da Sete e da Secretaria Extraordinárias dos Povos Indígenas, por meio do Programa REM/KfW – Acre Fase II.

Secretário de Turismo, Marcelo Messias fala dos incentivos do governo aos festivais indígenas. Foto: Marcos Vicentti/Secom

O secretário de Turismo, Marcelo Messias, destaca que o governo tem apoiado a divulgação desses festivais, incluindo a produção e divulgação de materiais gráficos e audiovisuais, além de buscar recursos para projetos de melhoria da infraestrutura de recebimento de turistas.

“A vinda de turistas para o Acre fomenta toda a cadeia do turismo, desde meios de hospedagem, alimentação fora do lar, transporte, empresas receptivas, artesanato e guias de turismo, além de farmácias, mercadinhos e feirinhas, entre outros, aquecendo a economia local como um todo. No segundo semestre do ano, temos o maior número de eventos relacionados ao etnoturismo. Em julho, entre os dias 18 e 23, teremos o 6º Festival Atsa Puyanawa, em Mâncio Lima. Serão dias com diversas cerimônias e vivências tradicionais dos povos ancestrais”, informa.

Para Messias, os festivais, agora reconhecidos em calendário oficial, são espaços de celebração, troca de experiências e fortalecimento das tradições indígenas, além de serem uma forma de valorizar e preservar o patrimônio cultural da região.

“Para os próximos anos, o Estado vai continuar investindo no fortalecimento e desenvolvimento do etnoturismo, buscando sempre valorizar a atividade econômica, a preservação ambiental e a autonomia das comunidades indígenas. E é fundamental o trabalho que temos feito, em diálogo com a Secretaria dos Povos Indígenas, para fortalecer e desenvolver a infraestrutura destinada a receber turistas, além de apoiar ações que visam à geração de emprego e renda, inclusão social e o desenvolvimento econômico do Estado, por meio da política de turismo sustentável voltada para o fortalecimento da atividade na região”, afirma.

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