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Brasil

Facções, cartéis internacionais e até ‘piratas’ ampliam guerra por mercado bilionário de droga na tríplice fronteira

Por O Globo. 28/10/2025 09:57 Atualizado em 28/10/2025 10:36
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Portal para a Amazônia colombiana, a cidade de Leticia, na tríplice fronteira com Brasil e Peru, tem ares de férias permanentes. Pelas adegas e restaurantes temáticos, circulam turistas americanos e europeus que buscam uma imersão na floresta tropical. A região, contudo, tem outra faceta bem menos festiva. A cidade tornou-se uma espécie de escritório do crime, um balcão de negociação da cocaína produzida em fazendas nos arredores. É ali que a facção fluminense Comando Vermelho (CV), depois de driblar intermediários, passou a negociar a compra diretamente com os grandes fornecedores de entorpecentes.

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Leticia faz divisa com Tabatinga, cidade a 1.100km de Manaus (AM). Por ali, passa a chamada rota do Solimões, uma via fluvial disputada por cartéis de drogas do Hemisfério Sul, facções brasileiras e piratas de rios. Como em quase todo o Amazonas, o CV conseguiu alcançar a hegemonia criminal na fronteira ao extinguir à bala grupos rivais. Com o arrefecimento dessa guerra sangrenta, o número de homicídios em Tabatinga, com uma das taxas mais altas do estado, caiu para menos da metade — entre 2023 e 2024, passou de 57 mortes para 26. Pichações com a sigla da facção estão por toda a cidade.

Pichações alusivas ao CV em Tabatinga, no Amazonas: facção do Rio tornou-se hegemônica na região — Foto: Aline Ribeiro

— Há um investimento efetivo em tecnologia e repressão que até deu efeito (na queda de homicídios), a gente não pode negar. Mas a principal razão é que a guerra do tráfico entre as facções não existe mais no estado — destaca o promotor de Justiça Leonardo Tupinambá, coordenador do Centro de Apoio Operacional de Inteligência, Investigação e de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Amazonas.

 

Parceria com guerrilhas

Para se cacifar na fronteira, o CV firmou parceria com as guerrilhas colombianas. Ex-membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) juntaram-se aos cartéis do narcotráfico e atualmente administram plantações de coca e laboratórios na fronteira. Para ampliar seus soldados, a facção fluminense também tem cooptado jovens e indígenas para atuarem como mulas, no transporte da droga, e como traficantes, na venda do entorpecente no varejo.

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Pela rota do Solimões, a mercadoria ilícita vai escondida em fundos falsos de embarcações, frutas e legumes, botijões de gás e até dentro do peixe pirarucu, para disfarçar o cheiro. É levada até Manaus e, de lá, distribuída via portos e aeroportos para ser vendida na Europa e Ásia, em uma das mais lucrativas atividades econômicas. À medida que se afasta do centro de produção, a droga incorpora os riscos do caminho e encarece. O mesmo quilo que, na fronteira, é vendido a R$ 1.600, aos compradores europeus sai pelo equivalente a R$ 260.000, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).

De cima, a região forrada por uma floresta densa, pouco habitada e cortada por rios sinuosos e terras indígenas dá pista das dificuldades do combate ao narcotráfico. As dimensões continentais não contribuem. Só os dez municípios do Alto Solimões somam uma área de 213 mil km², o equivalente a mais que o dobro do tamanho de Portugal. Para patrulhar a região toda, a Polícia Militar tem pouco mais de 150 agentes, uma única lancha blindada (quebrada durante a visita da reportagem), uma cota insuficiente de combustível e pouca munição.

Do lado dos traficantes, o poder bélico não titubeia, e uma operação recente escancarou a diferença de estrutura. Os policiais, munidos de fuzis .556, desistiram de interceptar uma embarcação ao descobrirem que os criminosos carregavam uma .50, capaz de derrubar pequenas aeronaves.

— Quase sempre, o único braço do Estado da segurança que está ali é a Polícia Militar. Quase não tem Polícia Federal, Polícia Civil. Quando a coisa fica tensa, é o celular do majorzinho que toca — desabafa o major Jonatas Soares, comandante do batalhão da PM baseado em Tabatinga.

O Exército, que tem a atribuição de guardar as divisas, conta com 9.500 soldados e quase não faz operações. Em visita a Tabatinga, Benjamin Constant e Atalaia do Norte, todas na tríplice fronteira, a reportagem só cruzou com militares abrindo fossas e rastelando a área externa do quartel.

— Nossos desafios são do tamanho do estado, são muito grandes. A gente precisa que haja uma ação mais incisiva das forças federais, e falo das Forças Armadas mesmo, no combate ao tráfico de drogas — cobra o secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Marcus Vinicius de Almeida. — Sentimos que o Brasil está de costas para nós.

A fiscalização frágil fez da rota do Solimões a segunda principal do Brasil para o escoamento de cocaína, depois da rota Caipira, que leva droga do Paraguai via interior de São Paulo até os centros de distribuição. No último ano, o Amazonas teve o recorde histórico de apreensão de entorpecentes. Foram 43,25 toneladas de cocaína e maconha confiscadas no estado, aumento de 50% em relação a 2023.

A escalada reflete uma tendência mundial. Produção, apreensões e uso de cocaína atingiram novos patamares em 2023, tornando a cocaína o mercado de drogas ilícitas que mais cresce no mundo, segundo o mais recente relatório mundial do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC). A produção ilegal disparou para 3.708 toneladas, quase 34% a mais do que no ano anterior.

Também em 2023, o governo federal lançou o Programa Amas (Amazônia, Segurança e Soberania) para o fortalecimento da segurança pública na região. No total, está previsto o investimento de mais de R$ 2 bilhões. Uma das ações foi a criação do Centro de Cooperação Policial Internacional (CCPI) da Amazônia, que começou a funcionar em junho como um ponto central de inteligência com os demais países da América Latina que contam com o bioma.

PCC tenta driblar prejuízo

Enquanto o CV predomina, o Primeiro Comando da Capital (PCC) aposta em alternativas para driblar a dificuldade de operar na rota do Solimões e continuar no Amazonas. A organização paulista tem intensificado o uso de aviões e helicópteros para transportar, especialmente, cocaína e skank, uma maconha superpotente produzida em laboratório nos países andinos. O governo do Amazonas mapeou quase 200 pistas de pouso clandestinas espalhadas pelo estado, muitas em áreas de mata nas regiões sul e leste, nas proximidades da capital. De Manaus, os criminosos distribuem as drogas para o resto do país, além de Europa, Ásia e África.

Mais recentemente, o PCC também associou-se à pirataria para conseguir a mercadoria ilícita. Relatório reservado da Polícia Civil revela que já há piratas batizados pela facção, ou seja, que se tornam integrantes da quadrilha. É o próprio PCC que financia os ataques com embarcações e armamento. Em troca, fica com parte da droga tomada no roubo.

O berço da pirataria ligada ao narcotráfico é a cidade de Coari, no Médio Solimões, onde os rios que passam pela fronteira convergem em um único ponto. Nessa confluência de passagem obrigatória, as embarcações que carregam a droga ficam mais expostas, e os piratas atacam.

Eles são, em geral, oriundos de comunidades ribeirinhas ou de bairros pobres de Coari. Costumam esconder as embarcações durante o dia e atuar, principalmente, à noite. Usam uniformes de uso exclusivo das polícias e até pintam suas lanchas nas cores verde ou preta, para se passarem por agentes da lei. Atacam com armamento pesado, como calibre 12 e fuzil.

Depois que roubam a droga, os soldados que atuam nos rios recebem quantias irrisórias em dinheiro, e o entorpecente é distribuído entre os chefes. Parte da droga é negociada em quilo com traficantes que vendem nas bocas de fumo. O dinheiro arrecadado é investido em casas, terrenos, embarcações, lojas de fachada e veículos em nomes de parentes ou laranjas. Também é destinado à compra de armas, munições e pagamento de advogados. O grupo tem movimentações na ordem de R$ 28 milhões.

— Antes, Coari só tinha CV. Agora é 90% PCC. Os piratas tiveram de se aliar, foi questão de sobrevivência. O PCC financia os piratas para matar os traficantes e roubar droga e armas. Depois, jogam no Solimões os corpos, que são comidos pelas piranhas em questão de hora — diz José Barradas Júnior, delegado-titular de Coari, que liderou em junho a maior operação contra a pirataria no estado.

 
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