Início / Versão completa
Acre

Da Ilha Grande à fronteira amazônica: a trajetória do Comando Vermelho e seu domínio no AC

Por redação O Juruá em Tempo. 03/11/2025 09:12 Atualizado em 03/11/2025 16:48
Publicidade

Criado no período da ditadura militar, dentro do Instituto Penal Cândido Mendes, em Ilha Grande (RJ), o Comando Vermelho (CV) surgiu nos anos 1970 a partir da convivência de detentos comuns com prisioneiros políticos. O embrião da facção foi um grupo chamado “Falange da Segurança Nacional”, formado por presos que passaram a se organizar para exigir direitos e melhores condições nas cadeias, inspirados pela militância de esquerda presente no local.

Publicidade

Inicialmente, o coletivo passou por mudanças internas e adotou o nome Falange Vermelha, termo que depois foi popularizado pela imprensa como Comando Vermelho. Um dos fundadores, William da Silva Lima, o Professor, narra no livro “400 x 1 – Uma história do Comando Vermelho” que a ideia inicial era estabelecer regras internas e fortalecer a união entre os detentos para enfrentar a realidade carcerária.

Com a Lei da Anistia de 1979, os presos políticos deixaram o sistema penitenciário, enquanto os integrantes da Falange permaneceram. Sem o vínculo com pautas sociais, a facção direcionou seus esforços para fugas e atividades criminosas. Na década de 1980, o grupo passou a financiar grandes resgates em presídios e migrou dos assaltos a banco para o tráfico de drogas, aproveitando a expansão da cocaína na Colômbia e a posição estratégica do Brasil para o envio da droga à Europa.

A proteção das rotas ilícitas impulsionou a aquisição de armamento pesado e a intensificação das disputas territoriais, envolvendo inclusive setores corruptos da segurança pública. O Rio de Janeiro viveu recordes de violência nos anos 1990. As tentativas de isolar lideranças em presídios de outros estados acabaram contribuindo para a disseminação da ideologia e dos métodos da facção, que se expandiu para outros territórios com uma estrutura descentralizada, baseada em chefias locais autônomas.

Publicidade

Hoje, estudos sobre segurança apontam que o Comando Vermelho atua em 25 estados brasileiros. A organização diversificou suas fontes de renda e passou a atuar em mercados ilegais como ouro, combustíveis e tabaco, movimentando bilhões — somente em 2022, esses setores giraram cerca de R$ 146 bilhões. O avanço tecnológico também entrou no radar da facção, com uso de impressoras 3D para fabricação de armas, drones com explosivos e até instalações clandestinas capazes de produzir armamentos em larga escala, descobertas pela Polícia Federal em 2024 no Rio.

Expansão para o Acre

A chegada do CV ao Acre ocorreu em 2011, dentro da disputa por rotas estratégicas da Amazônia, região que faz divisa com Peru e Bolívia, grandes produtores de cocaína. No início, houve uma convivência pacífica com o PCC (Primeiro Comando da Capital), que já atuava no estado, mas essa aliança durou até 2016.

O coordenador do Gaeco do Ministério Público do Acre, promotor Bernardo Albano, explica que o CV consolidou sua presença no estado dois anos depois do PCC:

“O Comando Vermelho começou a batizar acreanos aqui no estado a partir de novembro de 2013, portanto depois do PCC, que chegou no estado mais ou menos em 2011, e do B13, que foi fundado em junho de 2013. O Comando Vermelho cresceu no estado principalmente com uma política mais elástica, sem restrições de batismo com relação a integrantes, e conviveu em aliança com essas outras organizações criminosas até 2016, quando, a partir da morte do ocorrido lá em Pedro Juan Caballero, tivemos uma polarização entre as organizações”, explicou Albano.

O cenário mudou após a ruptura entre as facções. O promotor detalha:

“As organizações criminosas ficaram divididas, com o B13 e o PCC de um lado e o Comando Vermelho do outro. No Acre, o Comando Vermelho conseguiu se consolidar como a organização criminosa majoritária, não só no estado, mas praticamente em todo o Arco Norte”, afirmou.

A cisão teve como pano de fundo o assassinato de Jorge Rafaat Toumani no Paraguai, em uma emboscada atribuída ao PCC. Com o avanço paulista sobre a chamada “rota caipira”, o CV reforçou sua entrada pela Amazônia para disputar a “rota Solimões”, importante corredor do narcotráfico internacional.

O embate provocou alta acentuada nos índices de violência no Acre. Entre 2015 e 2017, o estado dobrou o número de homicídios e chegou à segunda maior taxa do Brasil, com 63,9 assassinatos por 100 mil habitantes.

Hoje, a facção domina o crime organizado no Acre e celebra publicamente sua presença, incluindo em músicas como o funk “O Acre é vermelho”. A organização também passou a recrutar criminosos peruanos para atuar em território brasileiro e no país vizinho, com forte presença na província de Ucayali.

Embora o PCC ainda mantenha pontos de atuação próximos à Bolívia, especialmente na região de Santa Cruz de la Sierra, o domínio territorial do CV prevalece. A geografia extensa e de difícil fiscalização nos limites internacionais dificulta o combate total às atividades ilícitas.

Operações recentes, como a Reduto, deflagrada entre 2023 e 2024, visam desarticular redes de apoio logístico e financeiro do grupo. Houve redução parcial dos indicadores criminais, mas o Comando Vermelho continua a exercer forte influência nas rotas amazônicas e na estrutura do narcotráfico nacional.

O Acre permanece como um dos principais pontos estratégicos do país para o escoamento de drogas — e a consolidação do CV na região aponta para uma presença cada vez mais robusta na Amazônia.

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.