Início / Versão completa
Política

Governo e Centrão selam divórcio

Por Vera Magalhães, dO Globo. 19/11/2025 09:38
Publicidade

A votação do Projeto de Lei Antifacção pela Câmara e a deflagração da terceira operação da Polícia Federal em poucos meses com reflexos na classe política selam o divórcio litigioso entre o governo Lula e uma parcela poderosa do Centrão. O que resta é avaliar os efeitos desse afastamento, cada vez mais definitivo, no último ano de mandato do petista e nas eleições do ano que vem.

Publicidade

Diante das seguidas evidências de que a ala do Centrão que declarou guerra a Lula — com Ciro Nogueira e Antonio Rueda à frente e outras figuras-chave da Câmara nos pelotões intermediários — exerce enorme influência sobre Hugo Motta, o governo aposta cada vez mais na aproximação com Davi Alcolumbre para praticar algum tipo de redução de danos em votações e também na montagem de palanques regionais. Mas o céu não está assim tão desanuviado.

A expectativa de que o presidente do Senado de novo mate no peito e arredonde o PL Antifacção para que volte a se parecer com a proposta original do Executivo não leva em conta o fato de o próprio Alcolumbre ser um expoente do Centrão e de a rusga entre ele e Motta na época da derrubada da PEC da Blindagem ainda deixar cicatrizes.

Mais: Alcolumbre tem encarado muito desgaste em nome da frágil proximidade com Lula, mas tudo pode mudar de figura quando o presidente concretizar a indicação de Jorge Messias para a cadeira aberta no Supremo Tribunal Federal (STF) com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso.

Publicidade

Nesta terça-feira, diante da temperatura máxima registrada em Brasília pela pororoca dos assuntos Master e segurança, gente próxima ao presidente reconhecia que não seria prudente da parte dele confirmar a indicação do advogado-geral da União agora e afrontar de uma só vez não só o atual, mas também o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco, preterido com a escolha. Lembravam que o STF já ficou com dez ministros mais tempo que agora, e o ano já está acabando.

O governo faz contas: com a aprovação, de novo com a ajuda de Alcolumbre e também ontem, do projeto que limita compensações tributárias e despesas federais com compensação financeira entre regimes de Previdência, iniciativas que haviam sido derrubadas pelo Congresso quando a Medida Provisória 1303 perdeu validade, falta pouco para fechar as contas do Orçamento de 2026.

O pouco que falta viria com o corte linear de 10% em incentivos fiscais com que Hugo Motta se comprometeu em outubro, mas que até agora não foi votado. O presidente da Câmara também segue segurando o projeto que fecha o cerco ao devedor contumaz — aprovado por unanimidade pelo Senado.

A diferença de temperatura entre as duas Casas antecipa o que deverá ser a eleição de 2026. O governo até tentou reconstruir a relação com Motta, mas a escolha de Guilherme Derrite para relatar a proposta que enfrenta o crime organizado, a forma como o projeto do governo foi desfigurado e a correria para aprová-lo abortaram a operação.

A avaliação no entorno de Lula é que o afã de tolher a atuação da Polícia Federal e lhe retirar recursos, demonstrado na discussão a toque de caixa das muitas versões do relatório de Derrite, tem relação com as operações policiais recentes que atingiram de frente ou lateralmente caciques do Centrão e o “andar de cima” do mercado financeiro, como a Carbono Oculto e a que desvendou as espantosas fraudes do Banco Master.

As ligações políticas do controlador do Master, Daniel Vorcaro, preso nesta terça-feira, ainda estão por ser plenamente esquadrinhadas, mas, até aqui, o Centrão parece ser seu bloco de maior afinidade — embora suas relações abrangessem da esquerda à direita. As investigações podem até atingir dois governadores da oposição a Lula.

Muitos ruídos ainda advirão do divórcio nada amigável entre o governo petista e a ala do Centrão representada pelo consórcio União-PP, mas os dois lados parecem se armar para uma guerra nada fria.

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.