Uma bebê de 7 meses de Xapuri, cidade do interior do Acre, está internada no Hospital da Criança, em Rio Branco, em estado grave com ferimentos no pescoço. A menina foi levada ao hospital de Xapuri dia 31 de dezembro, véspera de ano novo, pela avó paterna.
No dia seguinte, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) transferiu a bebê para a capital devido à gravidade. A família afirma que a menina foi diagnosticada com Enterocolite Necrosante, uma inflamação intestinal que faz partes do órgão necrosarem. A criança já iniciou o tratamento e apresenta melhoras.
A mãe da bebê, Milena dos Santos, pediu que a ex-sogra ficasse com a filha enquanto ela saía com os outros dois filhos, de 4 e 2 anos, no Réveillon. Ao receber a neta, a mulher encontrou vários ferimentos no corpo da bebê, dentre eles um mais grave no pescoço.
A reportagem entrou em contato com Milena dos Santos por ligação telefônica e mensagem de texto e aguarda retorno.
A família gravou um vídeo mostrando a região do pescoço da menina, onde estava bastante inflamada e com secreção. A bebê chora bastante quando a região é tocada.
Ao g1, a tia da bebê, Jaqueline Pereira, de 26 anos, contou que a família já denunciou Milena ao Conselho Tutelar de Xapuri diversas vezes por maus-tratos contra os três filhos. Segundo ela, as crianças vivem nas ruas, não se alimentam corretamente e não têm uma higienização adequada.
“Minha mãe viu os ferimentos e a levou no hospital. De lá, levaram ela para Rio Branco. Meu irmão perguntava pela menina, mas ela dizia que estava bem e ele vive na zona rural trabalhando. Ela não deixava a gente ver a menina, sempre inventava uma desculpa. Nem as vacinas da menina ela deu, não levava ao médico”, explicou.
Risco de vida
Jaqueline contou que a sobrinha chegou ao Hospital de Xapuri com desnutrição severa, falta de proteínas, lesões causadas pela desnutrição e inchaço. A equipe médica avisou aos familias que a menina podia morrer a qualquer momento por infecção ou hipoglicemia.
O Conselho Tutelar foi acionado pelos profissionais do hospital. “Ela chegou em estado grave, tinha apenas 30% de vida. Estava muito inchada, não achavam a veia dela e iniciaram a medicação via oral. Ela não fez questão de ir com a filha para a capital”, diz.
A menina é acompanhada por uma tia na capital. Jaqueline revelou que a família já fez, pelo menos, três denúncias contra Milena no Conselho Tutelar de Xapuri. A primeira foi quando a bebê sofreu queimaduras com café ano passado.
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“Sempre que ela deixava a menina com a gente, a levamos no hospital porque estava doente. A gente chamava o conselho, que ia até lá. Uma vez, a vizinha contou que a menina tinha sido queimada com café quente. Fomos lá, mas ela perguntou se a gente queria tirar a menina dela. Tiramos fotos e fomos no conselho, que foi lá e levou ela e bebê para o hospital”, recordou.
Ainda segundo Jaqueline, a ex-cunhada bloqueou os familiares da filha no telefone e dificultava o acesso. “Só ligava para minha mãe quando precisava para deixar a menina, mas ela estava sempre muito doentinha e a levávamos para o hospital. O conselho falou que não podíamos fazer nada”, lamentou.
Denúncia no MP
A mãe das crianças também foi denunciada no Ministério Pública Estadual (MP-AC). A denúncia foi feita por Maria Aparecida de Souza e Souza, tia do filho de 4 anos de Milena.
“O pessoal do conselho procurou ela ontem [sábado, 3] e a orientou. Por enquanto, as crianças estão sendo cuidadas, não estão na rua. O MP-AC disse que vai acompanhar também”, contou.
Ela diz que resolveu buscar o MP-AC após saber da situação da irmã caçula do sobrinho. “A gente já tinha acionado o conselho também, mas toda vez que apareciam na casa estava tudo normal. Uma vez perguntei a uma das conselheiras o que tinha acontecido e ela falou que estava tudo normal com as crianças, que iriam continuar acompanhando, mas não apareceram mais”, criticou.
Maria Aparecida afirma também que o sobrinho não tem acesso aos familiares por impedimento da mãe. “Não ando na casa dela e nem ela na minha, mas moro perto dela. Sempre ouvia a bebê chorando, eu sabia que não estava bem. Acionamos o conselho várias vezes, sempre pedia ajuda”, finalizou.
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Posicionamento do Conselho Tutelar
Em nota, o Conselho Tutelar de Xapuri afirmou que ‘a situação foi devidamente registrada, analisada e acompanhada, tendo sido adotadas as providências cabíveis dentro da competência do órgão, respeitando-se os trâmites legais, o sigilo das informações e a proteção integral da criança envolvida’.
Ainda conforme o órgão, não serão divulgados detalhes do atendimentos para preservar a ‘intimidade, a dignidade e a segurança das partes envolvidas’.
“O Conselho Tutelar reafirma seu compromisso com a transparência, a ética e a defesa incondicional dos direitos da criança e do adolescente, permanecendo à disposição dos órgãos de controle e da comunidade para os devidos esclarecimentos institucionais”, pontuou.
Nota na íntegra do Conselho Tutelar de Xapuri
O Conselho Tutelar de Xapuri, diante de denúncias divulgadas no dia 03 de janeiro de 2026, acerca de suposta omissão no atendimento de determinada situação envolvendo crianças, vem público prestar os seguintes esclarecimentos:
O Conselho Tutela é um órgão permanente e autônomo, responsável por zelar pel cumprimento dos direitos da criança e do adolescente, conform previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA Lei nº 8.069/90), atuando sempre dentro dos limites legais e das atribuições que lhe são conferidas.
No caso mencionado, informa-se que a situação foi devidamente registrada, analisada e acompanhada, tendo sido adotadas as providências cabíveis dentro da competência do órgão, respeitando-se os trâmites legais, o sigilo das informações e a proteção integral da criança envolvida.
Ressalta-se que, por força de lei, o Conselho Tutelar não pode divulgar detalhes de atendimentos específicos, justamente para preservar a intimidade, a dignidade e a segurança das partes envolvidas.
O Conselho Tutelar reafirma seu compromisso com a transparência, a ética e a defesa incondicional dos direitos da criança e do adolescente, permanecendo à disposição dos órgãos de controle e da comunidade para os devidos esclarecimentos institucionais.

