A prisão do presidente deposto da Venezuela, Nicolás Maduro, após uma ação militar dos Estados Unidos em Caracas atiçou a preocupação de aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre os impactos nas eleições presidenciais em outubro. A equipe próxima do petista aponta o receio de uma possível interferência do governo americano no pleito, além das armas que a oposição poderá usar contra Lula sobre o tema.
Sob condição de anonimato, aliados do presidente da República apontam que a ação dos Estados Unidos na Venezuela mostra que o presidente americano, Donald Trump, manterá uma ofensiva para interferir diretamente nos assuntos ligados à América Latina. Com as eleições se aproximando, há um receio do afastamento do republicano e um apoio formal ao candidato da oposição, seja Flávio Bolsonaro (PL-RJ), hoje apontado como pré-candidato, seja Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que já dá indicativos de que quer buscar a cadeira presidencial neste ano.
O ponto positivo que conta a favor do presidente da República é a aproximação com Trump nos últimos meses. Ainda em negociação para a redução definitiva do tarifaço sobre produtos brasileiros remanescentes, Lula pode ligar para Trump e debater a questão venezuelana. Embora tenha defendido ter sido “inadmissível” a invasão americana na Venezuela, o petista evitou ao máximo fazer ataques à Casa Branca.
Se por um lado há a preocupação com a possível interferência de Trump no pleito, por outro há o receio sobre as armas que a oposição poderá usar contra o governo para enfraquecer Lula às vésperas das eleições. Desde sábado, dia da prisão de Maduro, bolsonaristas encheram as redes sociais com associações entre Lula e o presidente venezuelano deposto. As imagens devem ganhar maior proporção quanto mais perto chegarem as eleições, podendo afetar a imagem do petista.
“O impacto ocorrerá se a oposição conseguir mobilizar essa narrativa — o que já vem fazendo. Apesar de temas internos, como economia e segurança, serem prioritários, o caso Maduro pode sim trazer prejuízo eleitoral a Lula neste ano, especialmente porque a oposição já usou esse tipo de questão antes para gerar debate”, afirma Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper.
“Muita gente no Brasil não é fã de Trump e considera a operação uma violação de soberania. Se fosse só isso, Lula teria espaço para se posicionar como defensor do direito internacional sem grande custo eleitoral. O problema é que não é um fato isolado. Quando você junta a foto com Maduro no Planalto, a frase de que a Venezuela era “vítima de uma narrativa”, a declaração de que o traficante é que era vítima do usuário, a resistência sistemática em criticar o regime, você tem uma história. Em campanha, o adversário não precisa provar nada. Precisa conectar os pontos de um jeito que faça sentido para o eleitor. E essa conexão já está praticamente montada. E agora, com Maduro algemado em Nova York, essa imagem vai ser martelada até outubro”, avalia o marqueteiro político Marcelo Vitorino.
Durante anos, o petista se colocou próximo de Maduro, se posicionando a favor do venezuelano após a morte de Hugo Chávez, em 2013. Logo após assumir o terceiro mandato, o presidente brasileiro recebeu o venezuelano no Palácio do Planalto com direito a elogios e brincadeiras. O afastamento entre Lula e Maduro aconteceu no ano passado, quando o brasileiro evitou reconhecer a vitória do venezuelano nas eleições locais até que as autoridades apresentassem os indícios de legalidade no pleito, o que não foi feito. Apesar da decisão do Planalto em segurar o apoio, o PT, então comandado pela ministra Gleisi Hoffmann, da articulação política, defendeu Maduro e o saldou pela vitória.
“Para o eleitor, não existe essa separação entre governo e partido. Lula é o PT, o PT é Lula. E ele mesmo reforça isso o tempo todo. A tentativa de criar duas vozes, uma institucional pelo Itamaraty, outra ideológica pelo PT, pode funcionar em diplomacia, mas não funciona em campanha”, afirma Vitorino.
Tarcísio de Freitas e Flávio Bolsonaro publicaram vídeos comemorando a ação nos Estados Unidos, mas com estratégias diferentes para atacar Lula
Vídeos da oposição exaltam ação na Venezuela e viram preocupação
Disputando a preferência para a disputa ao Planalto, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas logo foram às redes sociais para elogiar a ação dos Estados Unidos na Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro. O primeiro diz ter o aval do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), para ser candidato palaciano em 2026, enquanto o segundo defende seu posto no governo de São Paulo ao mesmo tempo que flerta com a cadeira presidencial a partir do próximo ano.
Flávio, por exemplo, se limitou a comemorar o fim da ditadura na Venezuela e chamou Maduro de “narcotraficante”. Um dia depois, publicou outro vídeo associando o chefe do Planalto ao venezuelano. “O vídeo do Flávio é mobilização de base. É um conteúdo feito para quem já é bolsonarista. Não conquista voto novo, mas consolida a posição dele como candidato do campo. O risco é parecer celebração de intervenção militar estrangeira — e isso pode incomodar até parte da direita mais institucionalista”, observa Marcelo Vitorino.
Já Tarcísio de Freitas foi mais a fundo. O governador paulista gravou um vídeo em Orlando, nos Estados Unidos, onde passa férias, com imagens de Lula cumprimentando Maduro, além de associar o petista diretamente à ditadura venezuelana. Ele ainda evita citar Donald Trump, em uma mudança de estratégia para escapar de uma crise de imagem após o desgaste sofrido durante o tarifaço imposto pela Casa Branca ao Brasil.
“Tarcísio fez algo mais sofisticado. Gravou um vídeo usando imagens de Lula cumprimentando Maduro, chamou o venezuelano de “ditador cruel e corrupto”, disse que a prisão “abre uma janela de esperança” e emplacou a frase central: ‘Tudo isso só foi possível porque houve conivência, omissão e até apoio explícito de quem insistiu em chamar um ditador de companheiro’. Perceba: ele não precisou dizer o nome de Lula. A imagem fez o trabalho”, avalia o marqueteiro.
“O detalhe estratégico: Tarcísio não citou Trump em nenhum momento. Isso é importante. Depois do desgaste com o boné e o tarifaço, ele recalibrou. Celebrou o resultado sem se vincular ao método. É uma forma de colher o bônus político sem carregar o ônus da associação direta com a operação militar”, completa.
Apesar das críticas ao governo, os especialistas avaliam que o feitiço pode voltar contra a direita a depender do discurso que a esquerda adotar. Para Vitorino defende que a disputa de oratória segue equilibrada e que a direita pode ser impactada caso a situação da Venezuela descambe. Apesar disso, a conta parece estar longe de se fechar. “Agora, o risco para os dois [Tarcísio e Flávio]: se a situação na Venezuela descambar, ocupação prolongada, resistência, crise humanitária, quem celebrou com entusiasmo vai ter que se explicar. Política é assim: você controla o posicionamento inicial, mas não controla o desdobramento. Por enquanto, os dois ganharam. Mas a conta ainda não fechou”, diz o marqueteiro.
Consentino avalia que o discurso nacionalista usado durante a crise do tarifaço pode equilibrar a retórica política, apesar de ser inevitável a associação de Lula com Maduro. “O impacto também dependerá de como a esquerda mobilizar a questão. Ela pode explorar o argumento da soberania nacional, que já vinha apropriando ao se alinhar com uma retórica patriótica. A narrativa seria de que os EUA desrespeitam a autodeterminação dos países — um ponto válido”, afirma.
“No entanto, essa defesa se torna frágil por ignorar o caráter não democrático de Maduro. A esquerda precisará separar as coisas com cuidado: condenar a intervenção estrangeira sem parecer conivente com o regime ditatorial. Se não conseguir, a crítica virá por esse flanco, assim como a direita explora a identidade entre Lula e Maduro”, completa.

